HISTÓRIA TRADICIONAL “O COELHINHO BRANCO” por Clara Castilho

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Esta é uma história tradicional portuguesa (da região de Coimbra) que podemos encontrar nos “Contos PopularesImagem2 Portugueses”, recolhidos por Adolfo Coelho (em edição das Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1985). Tem muitas versões, com boas ilustrações e é muito utilizada nos jardins de infância. Diz Clara Castilho: «Já assisti a crianças, mesmo mais velhas vibrarem com o friozinho na barriga e com o facto de um ser tão mais pequeno e conseguir derrotar um maior». David e Golias em versão infnatil. Vamos ler.

Na literatura tradicional é muito comum as histórias centrarem-se à volta dos animais com uma dimensão moralizadora. A história do “Coelhinho branco” tem uma circularidade espacial, em que a acção termina onde começou – a casa do coelhinho, num ambiente feminino – a casa, onde ele encontra protecção. As crianças sentem que, se tiverem por detrás um ambiente securizantes podem ousar correr riscos, podem enfrentar os perigos para saberem do que são capazes. Com um cão, uma vaca e o galo pouco eficazes, acaba por ser a simples formiga quem o vai socorrer: “És pequenina, mas muito valente!” Tal como a criança deseja ser, ultrapassando o seu sentimento de impotência face às imposições dos adultos.

Pois, nem sonham como elas se divertem!

coelhinho branco

Para quem ainda tiver disposição, aqui fica uma das versões da história:

 Era uma vez… um Coelhinho Branco que vivia numa linda casinha na floresta. Tinha também uma horta, onde cultivava cenouras, batatas e couves deliciosas. 

Certo dia, levantou-se muito cedinho e foi à sua horta buscar couves para fazer o caldinho. Como a horta era ali ao lado, nem sequer fechou a porta. Quando voltou… a porta estava fechada. Bateu… Chamou… Empurrou… Mas lá de dentro só ouviu uma voz: 

– Eu sou a Cabra Cabrês, salto-te em cima e faço-te em três! 

Ui! Que medo! O Coelhinho Branco ficou muito assustado e sem saber o que fazer. Então, lembrou-se de ir pedir ajuda a um amigo, maior e mais forte. No caminho, encontrou o Cão que lhe perguntou: 

– O que tens Coelhinho? Porque estás tão triste? 
– Sabes, Amigo Cão, eu hoje levantei-me muito cedinho, fui à minha horta buscar couves para fazer o caldinho e quando cheguei a casa, tinha a porta trancada. 

Está lá a Cabra Cabrês e disse que me saltava em cima e me fazia em três. 

– Ão, Ão, Ão…desculpa lá, Coelhinho. Eu também tenho medo, não te posso ajudar. 

Que triste ficou o Coelhinho Branco. Nem o seu Amigo Cão, tão grande e tão forte, o podia ajudar. 

Continuou o seu caminho, com uma lágrima a deslizar pelo canto do olho. Foi então, que apareceu a Amiga Vaca. Que grande sorriso! Ela sim, ia ser capaz de o ajudar. 

-Amigo Coelhinho, que se passa? Parecias tão triste! 

E o Coelhinho contou o que lhe tinha acontecido. Mas, a Vaca afinal, não era assim tão valente. – Muuu… Eu também não posso ajudar-te. Ai, Amigo Coelhinho, que medo que eu tenho da Cabra Cabrês! 

Cada vez mais triste e sem saber a quem pedir ajuda, lá continuou o Coelhinho Branco pela estrada fora. Mas, de repente! Lembrou-se do Amigo Galo e correu a toda a velocidade para lhe falar. Ao vê-lo o Galo perguntou-lhe: 

– Porque vens com tanta pressa, Coelhinho? 

E o nosso Amigo Coelhinho teve que repetir a sua história… 

– Já pedi ajuda ao Cão e à Vaca que julgava tão valentes, mas ambos, tiveram medo. 

Podes ajudar-me, Amigo Galo? Respondeu o Galo: 

– Cocoró, cocorócoco… Também eu tenho medo! Desculpa, coelhinho, mas estou com muita pressa! Cocoró, cocorócoco… 

O Coelhinho ficou sentado no meio do caminho, sem saber o que fazer. Estava cansado e com muita fome. Sem dar por isso, começou a pensar em voz alta: 

– Uma Cabra malvada que me tira a casa e ninguém me ajuda! 

Passava por ali uma formiguinha que o ouviu e perguntou-lhe: 

– Que estás a dizer, Coelhinho? Porque estás tão triste? 

E mais uma vez o Coelhinho contou o que lhe acontecera naquele dia. 

– O quê? Quem pensa que é a Cabra Cabrês? 

Vou ajudar-te! Vem daí! 

– Tu?! Uma simples formiguinha?! Pensas que consegues vencer a Cabra Cabrês? Pois nem os meus Amigos, tão grandes e tão fortes, me puderam ajudar!? – respondeu o Coelhinho, descrente. Mas, lá partiram os dois. A Formiga, de cabeça erguida, e o Coelhinho, pouco convencido. 

Junto à porta de casa, ouviram lá dentro a Cabra Cabrês que festejava. Ao aperceber-se da chegada de alguém, gritou: 

– Quem está aí??? 
– Sou eu, o Coelhinho, que foi à horta buscar couves para fazer o caldinho! 
– E eu sou a Cabra Cabrês, salto-te em cima e faço-te em três! 

Responde a Formiga, espreitando pelo buraco da fechadura: 

– E eu sou a Formiga Rabiga que te salto em cima e te furo a barriga! 

E se bem o disse, melhor o fez. Entrou pelo buraco da fechadura, saltou para cima da Cabra Cabrês e … Pumba! Picou-a na barriga! 

– Ai! Ai! Ai! – gritava a Cabra Cabrês, saltando pela janela. E fugiu, a bom fugir! 

O Coelhinho Branco pulava de alegria. 

– Obrigado, minha Amiga! És pequenina, mas muito valente! – agradeceu o Coelhinho. 

E fez, finalmente, um saboroso caldinho que comeu com a sua Amiga Formiga festejando juntos aquela vitória. 

 

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