
Nunca fizemos segredo da aversão que sentimos pelo estado espanhol e pela repugnância que nos merece a sua monarquia bafienta da família Bourbon que, com a inserção de Carlota Joaquina na nossa última dinastia, nos vem colocar dúvidas quanto à pureza da árvore genealógica dos Braganças a partir de D. Pedro IV de Portugal e primeiro Imperador do Brasil – filho biológico de D. João VI?

Dos muitos historiadores, portugueses, brasileiros e não só, que se debruçaram sobre o tema, um dos diagnósticos mais favoráveis à filha de Carlos IV, é o de Oliveira Martins que opina que seis dos nove infantes eram mesmo filhos de João VI (e entre essa meia-dúzia de «puros» estaria o primeiro imperador do Brasil). Outras versões, inclusivamente a do argonauta Hélder Costa na sua excelente peça, não são tão benévolas, incluindo a de Raul Brandão que está entre as mais desfavoráveis à rainha. Mas o que se passou há poucos anos em Buckingham, leva-nos à interrogação sobre a sequência das dinastias – como pode alguém ser «ungido por Deus» com base a pureza do seu sangue, se uma Carlota Joaquina ou uma Diana de Windsor deixam que na torrente dinástica entrem actores estranhos ao processo biológico em que Deus baseia o seu critério? Mas não foi para expor a consabida infidelidade conjugal da infanta que Goya tentou esconder no retrato da família de Carlos IV. Pouco tempo depois destas cenas familiares, o vendaval napoleónico permite a Godoy que numa ridícula «guerra das laranjas» nos roube Olivença, território português à luz do Direito Internacional, problema que a diplomacia portuguesa anda há mais de 200 anos a fingir que não existe.
E, proclamada a República em Portugal, Afonso XIII acolheu os monárquicos portugueses que se organizavam militarmente e deixou que no seu reino se preparasse a «monarquia do Norte». Quando eclodiu a Grande Guerra, fez pessoalmente parte de um grupo onde, além de gente de Primo de Rivera e da escumalha de traidores portugueses, se juntavam nobres espanhóis. A ideia era invadir Portugal e «repor a ordem». Afonso XIII terá pedido autorização a Inglaterra. Foi negada. Segundo alguns historiadores, esse terá sido um dos diversos motivos que levou o governo da República a envolver-se no conflito. Mas temos mais «motivos insignificantes» como estes para não gostarmos da vizinhança, Por exemplo, o de nos sonegarem a água dos rio que nascem no «reyno» e o de nos inundarem com o excedente das suas barragens quando assim lhes convém. E temos outros motivos – o de não libertarem a Catalunha, a Galiza, a Andaluzia…
Neste 1º de Dezembro não precisamos de falar das numerosas guerras medievais, da crise de 1383-1385, de Aljubarrota…
Nem sequer de 1640 em que «valentes guerreiros nos deram livre a Nação» – história mal contada e que os portugueses excluíram do patriótico hino, substituindo-o por um «lá-lá-lá» muito mais honesto. Em suma, os espanhóis, mesmo os espanholistas não-fascistas, são uns «gajos porreiros». Espanha é horrível – mas familiares e vizinhos não os podemos escolher.
O facto de o salazarismo se ter apropriado da data, não lhe retira a carga patriótica.
Amanhã celebraremos aqui no blogue o 1º de Dezembro.

