EDITORIAL – Um erro inocente?

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«7 de Junho de 1494 — Portugal e Espanha assinam o Tratado de Tordesilhas, dividindo o mundo por descobrir entre si.» É assim que a Wikipédia regista uma efeméride que na época teve uma importância transcendente na geoestratégia mundial- É , no entanto uma informação errada. O reino de Espanha não existia – as coroas de Castela, Leão e Aragão pertenciam a Isabel e Fernando. Temo-lo dito dezenas de vezes –De jure. Espanha existe desde 1812, nas Cortes de Cádis

O que aconteceu foi que no dia 7 de Junho de o rei «senhor D. Joáo, pela graça de Deus, rei de Portugal e dos Algarves de aquém e de além-mar em África e senhor da Guiné» firmou com seus primos «os senhores D. Fernando e D. Isabel, rei e rainha de Castela, de Leão, de Aragão, da Sicília, de Granada…», representados por secretários, escrivães, notários públicos, assinaram na vila de Tordesilhas um tratado segundo o qual se definia a pertença de ilhas e terras que os navegadores de um e outro estado achassem. A definição consitia numa «raia ou linha direita de pólo a pólo, a saber do pólo árctico ao pólo antárctico, que é de norte a sul. A qual raia ou linha se haja de dar e dê direita, como dito é, a 370 léguas das ilhas de Cabo Verde para a parte de poente», etc.

O Tratado das Alcáçovas, assinado em 1479, punha termo â guerra que Afonso V movera a Castela, em defesa dos direitos de D. Joana, sobrinha de o Africano, filha de Henrique iV de Castela; paternidade contestada por uma parte da nobreza castelhana que  a designava por a Beltraneja e que, vencendo os portugueses na batalha de Toro, puseram no trono Isabel (a católica). Este tratado lesava os interesses portugueses no que se refere ás terras a descobrir. O papa Alexandre VI (um valenciano da família Borja (Bórgia, pai dos famosos César e Lucrécia), favorecera os interesses castelhanos. O nosso João II, baseado ou não em conhecimento secreto – a tal «política o sigilo». Renegociou as cláusulas do tratado de 1479 e aí temos o mundo dividido entre Portugal e uma Espanha que só existiria mais de  três séculos depois.

Historiadores ilustres embarcam neste erro «inocente».

Inocente?

Transforma em rebeldes contra o rei legítimo os conjurados portugueses e os patriotas catalães  de 1640. Dá a uma monarquia de opereta que um general fascista pôs no congelador durante quase 40 anos, o carácter de um reino milenar.

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