CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – QUÊ? ELE DISSE, MENINO-JESUS-DE-CACO?! – por Mário de Oliveira
joaompmachado
Hoje, quero partilhar convosco um daqueles muitos momentos-luz-escândalo, em que abunda o meu ser-viver de presbítero da igreja do Porto. Ocorre em Lourosa, minha terra natal, apenas 2 anos depois de ser ordenado. Na altura, sou professor de Religião e Moral no então Liceu Alexandre Herculano, Porto, por nomeação do Administrador apostólico da diocese. De férias em casa dos pais, aceito substituir o padre Coadjutor na missa-do-galo, para ele poder partilhar a ceia de natal com a família, longe dali. A homilia da missa já deixa perturbados muitos dos conterrâneos que me conhecem como o filho de Ti Maria do Grilo, jornaleira nos campos de D. Maria Pinto, uma das poucas famílias ricas de então. A perturbação maior acontece no final, quando eu próprio constato que as pessoas quase se atropelam umas à outras para beijarem o menino-jesus que eu, então ainda trajado a rigor, capa e tudo, dou a beijar. Perante semelhante comportamento, interrompo o ritual e interpelo, Com que então, no momento da comunhão, apenas meia-dúzia de pessoas quiseram comungar, e agora para beijar este menino-jesus de caco quase vos atropelais? Não vedes que se eu o deixar cair no chão, ele parte-se e não há menino-jesus para ninguém? A interpelação sai-me espontânea do fundo de mim. Eu próprio, ao escutá-la, fico perplexo, sinal de que aquele inesperado Evangelho não é meu, mas da Ruah/Espírito de Jesus Nazaré contra o mítico menino-jesus dos presépios. Aquele é por isso o primeiro de muitos outros momentos-luz, fecundos escândalos em que, felizmente, abunda o meu ser-viver de presbítero. Quê? Ele disse, menino-jesus-de-caco?, perguntam-se ainda hoje os netos daqueles pais de então. Sinal inequívoco de que o Evangelho que pratico-anuncio, na arriscada missão presbiteral de Evangelizar os pobres, não é o do mítico Cristo ou Jesuscristo de S. Paulo, mas o de Jesus, o filho de Maria, o único que nos faz progressivamente humanos. O de S. Paulo, pelo contrário, faz-nos cristãos, segregados dos demais, uma minoria, poder clerical e laico, a esmagadora maioria, súbditos. Só cristãos gostam dos natais dos meninos-jesus, e não podem com Jesus, o filho de Maria, que, como qualquer de nós, só teve um natal, ocorrido 4-6 anos antes do ano 1, em Nazaré. Mas fecundo, fecundo, é sermos (outros) Jesus cada hoje.