A História, enquanto disciplina cientifica, não admite maniqueísmos e não deve estar sujeita a princípios que de objectivos nada tem – se D.JoãoII ou o Marquês de Pombal eram boas ou más pessoas, será matéria de estudo para biógrafos ou ficionistas. Para a História só contam os factos e, nessa perspectiva, foram grandes governantes.
Os 48 anos de ditadura que o nosso País viveu de 1926 a 1974, geraram dicotomias, camaradagens, ódios, amizades e cumplicidades que analisados com lentes objectivas dariam lugar a outro tipo de classificações.
Nas prisões da PIDE, principalmente durante as crises académicas, geravam-se amizades improváveis noutras circunstâncias. Por exemplo, durante a crise de 1965, durante algum tempo conviveram militantes do PCP, do PS, dos futuros MRPP, UDP, PRP, MÊS … até um membro da Causa Monárquica. Havia picardias, discussões teóricas, mas prevalecia o facto de todos estarem sujeitos a, de um momento para o outro, «ir a perguntas» e ser passado pela tortura.
No fundo, eram, na sua maioria, vinte e tal estudantes do Ensino Superior que haviam decidido colorir a sua condição de burgueses sob designçaões as mais diversas – comuunistas ( estalinistas, trotsquistas…), socialistas, social-democratas, anarquistas. Muitos foram ou ainda são, detentores de altos cargos <<<estado, outros misturaram-se com a multidão Outros morreram. Antifascistas era a designação que cobria todas as posições. Depois da Revolução tudo passou a ser diferente. <durante uma manif na <fonte <luminosa, um «de Letras» militante do PRP, que compartilhara a cela com , um «de Agronomia», militante do MRPP, saiu do amontoado de PRPs levando a bandeira vermelha com a enxada e a G3 entrecruzadas, entrou no amontoado dos MRs e foi saudar o companheiro de cela que o abraçou comovidamente. Um coro de «assobios assinalou o abraço – um grito pró-chinês se fez ouvir- «Não se abraça esses fihos de puta- fuzilam-se» Acresce que à data da prisão em1968, os dois rapazes eram apenas estudantes talvez enquadrados» pelo PC, nem o PRP-BR, nem o MRPP existiam.
Hoje, morreu Almeida Santos. Saltamos os pormenores biográficos por demais discriminados na comunicação social e que segundo a perspectiva por que fosse analisado, assim seria classificado. No julgamento mais simplório possível, há quase unanimidade em que era uma «boa pessoa». Louvores à sua simpatia, delicadeza, cultura… abundam. Fala-se de negociatas escuras em Moçambique. E o espaço entre o abraço e o fuzilamento. Nós limitamo-nos a dizer. ´
Morreu um antifascista. E lamentamo-lo na medida em que a memória histórica vai ficando empobrecida e os mitos vão nascendo.