EDITORIAL – VAMOS CONTAR MENTIRAS

Imagem2Se quiséssemos definir a diplomacia e a propaganda política em termos de pastelaria, diríamos que são a arte de pôr uma cereja no topo de um bolo inexistente. Em 11 de Junho de 1951, Salazar, um manipulador de palavras, que seis anos antes transformara a sua ditadura em «democracia orgânica», fez outro malabarismo, ao transformar as colónias em províncias ultramarinas – «Portugal do Minho a Timor», passou a ser o slogan mentiroso de uma publicidade enganosa. E logo de seguida o Secretariado Nacional da Informação põs o bolo no topo da cereja (ou vice-versa) – “Portugal não é um País pequeno” . O SNI sucedeu em 1945 (quando a ditadura passou a ser uma democracia) ao Secretariado  da Propaganda Nacional, criado em 1933 e durante os seus 12 anos dirigido por António Ferro – uma espécie de ministério da mentira.

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Vamos a contar mentiras é o título de uma peça de 1961,  do escritor e jornalista madrileno Alfonso Paso.  Teve êxito em Portugal, com Raul Solnado e numa versão mais recente, com Octávio de Matos. Mas da peça apenas nos interessa o título – Vamos Contar Mentiras, pois caracteriza o discurso político em geral. Quando um político fala, de uma coisa podemos estar certos – está a mentir. Fixemo-nos nas intervenções de ontem. Dilma Roussef não fugiu à regra. A presidente brasileira foi da opinião que o comércio bilateral pode progredir e promete ajudar Portugal neste momento de crise. E acrescentou «que os verdadeiros amigos são aqueles que estão presentes nos momentos de dificuldade». Com estas palavras, o que Dilma Roussef pretende é aumentar as exportações brasileiras. As amizades entre nações só funcionam quando quem ajuda tem lucro e quem é ajudado fica, em geral, pior do que estava antes. Mas é estranho que num mundo em que o pragmatismo impera, ainda se usem estes floreados de oratória e se façam visitas de Estado dispendiosas e que seriam substituídas com vantagem por embaixadas comerciais – que sabemos, são incorporadas nas caravanas presidenciais. E em vez da oratória oca das amizades, se expusesse que vantagens temos em comprar ao Brasil em vez de comprar a outro país. As declarações da presidente do Brasil foram feitas na hora do brinde no jantar oferecido pelo presidente português, no Palácio de Queluz. Cavaco Silva aproveitou para destacar a importância que o  mercado brasileiro tem para as exportações de Portugal. O que quer dizer: «compramos a vossa tralha, se vocês comprarem a nossa». Numa entrevista de ontem, também, à RTP 1, o presidente da República pôs em dúvida que os nossos credores acreditem que Portugal honrará os seus compromissos dentro dos prazos fixados. Um lampejo de lucidez que levou Cavaco a ironizar sobre uma mentira diplomática. «Estão convencidos que Portugal conseguirá no futuro gerar produção para pagar os juros e para pagar os empréstimos», disse Cavaco Silva na entrevista. Para logo a seguir gracejar que não será ele a dizer o contrário. Nas várias intervenções de Cavaco Silva durante as comemorações, ontem e no domingo, o Presidente da República apelou  à recuperação da soberania portuguesa. Se não é com mais produção, só pode ser com o perdão da dívida, disse ele. Mais uma mentira – há uma terceira hipótese – pura e simplesmente não pagar.

Os portugueses deviam perdoar-se uma dívida que mentirosos e seus amigos contraíram.  E à declaração urbi et orbi do não pagamento chamar, por exemplo,  “Liquidação completa da dívida”.

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