No TNSC dias 5, 7, 9 e 11 às 20:00 e 13 de Março às 16:00
Agamémnon, rei de Micenas, antes de zarpar para a Guerra de Tróia, enfurece Artemisa – a Diana romana, deusa da caça — por ter abatido um veado na floresta sagrada. Como punição, a deusa reclama o sacrifício de Ifigénia, filha mais velha do rei. Só assim Artemisa propiciará ventos favoráveis que conduzirão a frota grega à batalha. No último momento, a deusa substitui Ifigénia por uma corça e envia-a para Táurida — mais corretamente para Táurica — território assim denominado por gregos e romanos situado na atual Península da Crimeia —, onde se encontrará com Orestes, seu irmão.
Ifigénia, expoente máximo do sacrifício filial, inspira Eurípides para a sua tragédia Ifigénia entre os Tauros, escrita entre 414 e 412 a.C. A trama é posteriormente objeto de várias versões dramáticas, entre elas a de Racine, em 1674. Quase cem anos depois, e com libretto de Guillard, Gluck, compositor alemão e reformador do teatro lírico do século XVIII, compõe Iphigénie en Tauride que assinala uma profunda mudança estilística na sua obra. Estreia-se em Paris, em 1779, ano em que Schiller escreve também Iphigenia auf Tauris.
Os episódios heróicos da Guerra de Tróia seduziram muito especialmente os inúmeros defensores do Neoclassicismo do século XVII. A ópera não foi exeção: também Jomelli, Campra, Tratetta, Piccini e Gluck se inspiraram no drama de Ifigénia, a infeliz filha de Agamémnon aprisionada em Táuris. Porém, só a ópera de Gluck (1714-1787) permanece no repertório lírico. Estreada com sucesso em Paris em 1779, Iphigénie en Tauride é a penúltima das 5 óperas que o compositor escreveu em Paris, cidade onde viveu a partir de 1773. Inspirada na tragédia de Eurípides com libreto de Nicolas-François Guillard, a aparente simplicidade da ópera de Gluck ainda hoje nos comove. Não esqueçamos contudo que, à época, ela desencadeou tempestades entre os opositores do compositor que discordavam das reformas músico-dramáticas que Gluck iniciara com o Orpheus ed Euridice, em 1762. Iphigénie en Tauride estreou-se no Teatro Nacional de São Carlos em 1955, voltou a ser cantada em 1961 (com Monserrat Caballé na protagonista), e regressa esta temporada numa encenação de James Darrah.
Rui Esteves
