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PORTUGAL NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL – por Pedro de Pezarat Correia*

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A Primeira Guerra Mundial de 1914-1918 (IGM), que ficou conhecida por Grande Guerra resultou, como todas as guerras, de uma acumulação de causas, das quais sobressaia a disputa entre impérios decadentes e impérios emergentes, num complexo jogo de alianças num sistema mundial baseado no equilíbrio de poder, instável e hostil, de nacionalismos exacerbados e expansionistas, com epicentro nos Balcãs, barril de pólvora que o atentado de Serajevo fez explodir. A entrada tardia de Portugal na guerra, em 8 de Março de 1916, resulta também de causas diversas, das quais historiadores e analistas destacam, como motivação central, a defesa dos seus interesses coloniais em África.

A IGM, de início europeia, passou a mundial porque os Estados em confronto, Inglaterra, França e Alemanha, e alguns aliados secundários, Bélgica, Portugal e Itália, eram potências coloniais que tinham dividido em Berlim o bolo africano e projetaram para o continente negro o conflito, arrastando populações das colónias e incorporando nas suas fileiras milhares de africanos que com ele nada tinham a ver. Portugal, beneficiário da partilha africana mas parte mais fraca e alvo da dúvida dos outros parceiros sobre a sua capacidade para aplicar as disposições da Conferência, nomeadamente a ocupação efetiva dos territórios, sentiu que poderia ser vítima de disputas entre as potências mais fortes que cobiçavam as suas colónias.

Quando a guerra começou Portugal ainda estava envolvido nas chamadas campanhas de pacificação, que mais não eram do que as campanhas de ocupação que Berlim exigira para reconhecer a posse colonial, nas quais era óbvio o apoio de seus rivais aos nativos rebeldes. Na metrópole, com a República que se impusera exaltando as glórias imperiais a esboçar os primeiros passos, a situação era frágil. A Inglaterra queria Portugal fora da guerra, receando que a sua participação fosse mais um ónus do que um trunfo. E Lisboa sabia que em Londres, Paris e Berlim, se tinha negociado o espólio das colónias portuguesas. Em 1898 Inglaterra e Alemanha haviam acordado a partilha de Angola e Moçambique e, em 1904, a Alemanha encarara a ocupação unilateral dos dois territórios.

O sacrifício dos portugueses na IGM, ao lado das potências vencedoras permitiu-lhes salvaguardar o império, sem se aperceberem que iria ser um troféu efémero. A guerra, estendendo o conflito a África, nele envolvendo os africanos como “carne-para-canhão”, reforçaria, paradoxalmente, as sementes do nacionalismo e da descolonização. Integrados nas fileiras das potências que diziam bater-se pela liberdade e contra a opressão, quando regressavam às suas casas, finda a guerra, concluíam que tinham lutado, sofrido e morrido pela liberdade de quem os oprimia, mas não pela sua liberdade. Aí nasceram e germinaram os movimentos de libertação asiáticos e africanos, numa tomada de consciência que foi fazendo o seu percurso até encontrarem as condições para passarem à sua própria luta de libertação. Como escreveram A. W. Singham e Shirley Hune, «A Primeira Guerra Mundial alterou o sistema internacional, determinando o início do desmantelamento do sistema colonial europeu […] centenas de milhares de homens provenientes dos países coloniais, que haviam sido conduzidos para a guerra juntamente com os seus amos colonos, perceberam que as declarações a favor da autodeterminação não se lhes aplicavam. Esta tomada de consciência, a experiência bélica e os contactos internacionais exerceram uma profunda influência em muitos asiáticos e africanos que voltaram às suas terras para se converterem em líderes nacionalistas.» E Sophie Le Callennec, no texto “Idade de ouro ou crepúsculo da colonização 1910-1940”, citado pelo historiador congolês Elikia M’Bokolo, destaca os efeitos nos colonizados mobilizados para a guerra do incumprimento das promessas feitas, como isso alimentou frustrações, descontentamentos, revoltas e favoreceu o recrutamento de ativistas para o nacionalismo africano. A IGM foi, nas suas palavras, um momento fundamental da viragem na colonização africana.

Este efeito de boomerang repetiu-se, em maior dimensão e com resultados muito mais decisivos, na Segunda Guerra Mundial (IIGM) e com o seu desfecho em 1945. Há quem considere que a I e a II GM não foram mais do que duas fases da mesma Grande Guerra Mundial, com um interregno entre 1918 e 1939. Na incidência que aqui trouxemos, nos reflexos sobre os paradoxos da colonização, esta tese faz todo o sentido.

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Nota da Coordenação – O general Pedro de Pezarat Correia retoma com este depoimento a publicação semanal da sua rubrica GIRO DO HORIZONTE. Será às segundas-feiras.pelas 21 horas, como sempre, que  GIRO DO HORIZONTE será semanalmente publicado.

 

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