A alma anda nestes inventos porque non lle abonda
o que é como é do mundo.
A. Cunqueiro
Aquilo de se fazer amputar as pernas tolheitinhas, encrequenadas para se pôr umas próteses e caminhar erguido, e poder mirar com os olhos nos olhos da gente sem ser mais um aleijadinho; e aquilo outro de fabricar uma bomba para espareger a sua mensagem de protesto ciscando por toda a parte fragmentos do seu corpo.
Deixemos a segunda, que ainda não é o caso, por muito que digam os jornais, e consideremos a prótese como metáfora. Diria mesmo que a solução da amputação e prótese é a comum preferida com que gerações de galegos vêm resolvendo a situação e sensação de deficiência física, linguística, moral e patriótica.
Amputar-se a língua e colocar outra de prótese, amputar a pátria nativa e pôr outra nos olhos, amputar a ideia de soberania e colocar-se um partido político alheio, amputar a razão e os sentidos, a crítica para ganhar o pão ou medrar.
São, sim soluções drásticas, todas eficazes a curto prazo. Ainda que logo passa o que passa, claro, porque Ranholas tem muito em comum com o Dr. Coyote e os engenhos da ACME terminam em catástrofes quotidianas empequenecedoras.
E eis que vemos os mais dos galegos com algo de fôlegos rebentados, esmagados, rebotados, esnaquiçados, enquanto os restantes no melhor estilo Pedrinho os contemplam e se interrogam no espelho de Oblomov, sonhando-se saudosos a comer, patacas, maçãs ou cereijas… quem as soubesse apanhar…
Pedrinho e Ranholas, os dous de sempre, com as suas soluções intrépidas e molícies contrastivas parecem abranger todo o solucionário social e político de que os galegos foram até capazes.
