A Galiza como tarefa – catastrófica contrastiva – Ernesto V. Souza

A alma anda nestes inventos porque non lle abonda
o que é como é do mundo.
A. Cunqueiro

dousdesempreContemplando à realidade derivar para cenários próprios dos anos vinte e trinta do século passado; essa realidade na que não tenho como intervir, cada dia mais semelhante a um filme de catástrofes com todas as suas decisões estúpidas concatenadas, lembro as duas soluções do Ranholas n’Os dous de sempre do grande Castelão.

Aquilo de se fazer amputar as pernas tolheitinhas, encrequenadas para se pôr umas próteses e caminhar erguido, e poder mirar com os olhos nos olhos da gente sem ser mais um aleijadinho; e aquilo outro de fabricar uma bomba para espareger a sua mensagem de protesto ciscando por toda a parte fragmentos do seu corpo.

Deixemos a segunda, que ainda não é o caso, por muito que digam os jornais, e consideremos a prótese como metáfora. Diria mesmo que a solução da amputação e prótese é a comum preferida com que gerações de galegos vêm resolvendo a situação e sensação de deficiência física, linguística, moral e patriótica.

Amputar-se a língua e colocar outra de prótese, amputar a pátria nativa e pôr outra nos olhos, amputar a ideia de soberania e colocar-se um partido político alheio, amputar a razão e os sentidos, a crítica para ganhar o pão ou medrar.

São, sim soluções drásticas, todas eficazes a curto prazo. Ainda que logo passa o que passa, claro, porque Ranholas tem muito em comum com o Dr. Coyote e os engenhos da ACME terminam em catástrofes quotidianas empequenecedoras.

E eis que vemos os mais dos galegos com algo de fôlegos rebentados, esmagados, rebotados, esnaquiçados, enquanto os restantes no melhor estilo Pedrinho os contemplam e se interrogam no espelho de Oblomov, sonhando-se saudosos a comer, patacas, maçãs ou cereijas… quem as soubesse apanhar…

Pedrinho e Ranholas, os dous de sempre, com as suas soluções intrépidas e molícies contrastivas parecem abranger todo o solucionário social e político de que os galegos foram até capazes.

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