Deus está de Volta, para o melhor e o pior (Dieu est de retour, pour le meilleur et le pire), dizia-nos em 2002 o Le Monde, num dos seus Dossiers et Documents (com o nº 312). Abordando diferentes aspectos da presença das religiões nas várias partes do mundo, em vários artigos refere-se o uso de princípios religiosos, nomeadamente das três grandes religiões monoteístas, para justificar posições assumidas pelas várias partes em diferentes conflitos, o recrudescimento das perseguições religiosas e o retrocesso do laicismo, após o apogeu dos chamados anos sessenta. Refere também os choques entre a seita (o termo é o usado no artigo) Fa Lun Gong, que na sua prática segue um sincretismo entre o taoísmo e o budismo, e o governo chinês. Também há referências aos progressos do budismo e à importância que mantém o hinduísmo.
Entretanto, Henri Tincq, um jornalista com larga experiência em questões religiosas (não parece ser muito bem aceite em alguns meios católicos), e que teve papel de relevo no suplemento de Le Monde que acima referimos, publicou o ano passado no jornal electrónico para que actualmente trabalha, Slate.fr, um artigo em que procura estabelecer pontes entre as várias formas de integrismo religioso, nomeadamente no que respeita às grandes religiões monoteístas, neste artigo sobretudo o catolicismo e o protestantismo evangélico. Sobre este último refere nomeadamente a propaganda que faz do criacionismo e a difusão da sua visão tradicional, baseada numa leitura acrítica dos evangelhos, que os seus seguidores procuram levar às várias partes do mundo.
Ontem ouvimos na televisão uma notícia sobre as negociações que a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, está a tentar entabular com o partido republicano brasileiro (PRB), para compensar o abandono dos seus antigos aliados do PMDB – partido do movimento democrático brasileiro. O PRB é geralmente tido como o braço político da IURD – Igreja Universal do Reino de Deus, uma igreja evangélica neopentecostal, que terá perto de dois milhões de seguidores no país, e está presente em 105 países. O PRB conta com 21 deputados federais eleitos em 2014. Entretanto, é conhecido o peso que as igrejas evangélicas têm na política e na vida dos norte-americanos, e que a política norte-americana reflecte em grande medida esse peso, como o mostram o estilo missionário que adoptam os responsáveis pela sua política externa para justificarem a atitude de procura do domínio generalizado que é a essência daquela política, e no plano interno os progressos do criacionismo, cujo ensino é fortemente subsidiado, havendo mesmo estados como a Louisiana e o Tennessee que o tornaram obrigatório nas escolas públicas.
A separação da igreja e do estado foi um elemento básico para o progresso da democracia. Para consolidar a intervenção do povo na escolha dos seus governantes foi necessário pôr de parte o princípio dos governantes serem-no por direito divino, escolhidos ou ratificados por um papa, ou directamente iluminados pelos céus. A liberdade religiosa veio a par e passo com a liberdade política. A democracia e a liberdade são elementos essenciais no crescimento das pessoas e dos povos. Não é só o islamismo, muito incentivado a certa altura pelas potências ocidentais no conflito leste-oeste para afastar as populações dos ideais socialistas e incentivar conflitos abertos, que visa readquirir uma grande peso político. Também as outras grandes religiões (grandes pelo número dos seus seguidores) procuram voltar o papel de primeira grandeza.
Propomos as seguintes leituras:
http://www.slate.fr/story/106313/christianisme-jesus-pacifiste-et-religion-persecutrice
http://www.paulopes.com.br/2012/06/nos-eua-46-da-populacao-creem-no.html
http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/eua-gasta-us-1-bilhao-por-ano-para-ensinar-criacionismo


