Tiago Cavaco Alain de Botton. Religião para Ninguém
Publicado na revista LER, Nº. 115, Julho/Agosto 2012
O que podem os ateus utilizar das religiões? O escritor suíço responde com um livro para a «alma moderna», lido aqui por um pastor batista. Céus!
O facto de um livro como Religião para Ateus causar tanta animação só prova o quão pouco se reflecte verdadeiramente sobre religião. Que Alain de Bottom consiga adquirir uma aura de pertinência sobre os assuntos da fé está também no domínio do assunto: é um mistério. A leva anterior de escritores ateus que teve sucesso notabilizava-se por agressividade enquanto que o escritor suíço surge aclamado porque fala baixinho. Acontece que os agressivos dedicavam-se a acreditar no que escreviam. O excesso de pathos era um ethos, claramente. Botton está noutra. Abre o texto ao jeito de alquimista: “A pergunta mais desinteressante e inconsequente que se pode fazer sobre qualquer religião é se ela é ou não verdadeira”. Ou seja, o critério de verdade serve apenas para os desinteressantes. Aqui o jogo é diferente e o autor quer ser lido independentemente de poder ser avaliado por algum padrão externo a si próprio. Por isso o seu ateísmo pode dar-se ao luxo da gentileza: é uma epifania secular em circuito interno. As pessoas que se colocam além de refutação não têm um problema com Deus porque estão demasiado ocupadas em ser Deus. O certo e o errado são coisinhas demasiado pequenas para as poderem limitar. Religião para Ateus baseia-se neste tipo de delírio irracional com modos de serenidade pluralista. Faz-nos ter saudades da salivação furiosa de Dawkins, Hitchens e Harris.
A tese: “Este livro não é o primeiro a tentar conciliar uma antipatia pelo lado sobrenatural da religião com uma admiração por algumas das suas ideias e práticas […]. Muitos dos problemas da alma moderna podem ser resolvidos com sucesso através de soluções propostas pelas religiões, depois dessas soluções serem retiradas do contexto sobrenatural em que foram concebidas” (págs. 293 e 305). Moral da história: se retirarmos às religiões o seu núcleo transcendente (as verdades exorbitantes que provocam o escândalo dos não-crentes), elas podem ser boas. Ou mais simplesmente ainda: se as religiões deixarem de ser religiões podem ser-nos úteis. Ou ainda mais estupidamente simples: vamos aprender com uma coisa que não existe. Botton rejeita o sobrenatural mas impõe-nos a existência dum fantasma.
Os méritos de Religião para Ateus são um sortido de pequenos factos sobre as religiões (e o cristianismo católico em particular) que facilmente se encaixam na categoria do interessante. “Curioso”, conseguimos imaginar o leitor a pensar para si mesmo enquanto folheia as páginas, animadas por fotografias diversas em cima de legendas espirituosas. Encontramos origens de costumes, pormenores de calendários litúrgicos, detalhes literários canónicos e particularidades antropológicas. A par desta coletânea de 10 artigos, Botton vai sugerindo alternativas laicas aos hábitos sagrados, agora que estamos enriquecidos pelas lições da observação recente. Assim, boa parte das instituições religiosas ganha uma reciclagem em pastiches semelhantes, nos quais se “espera salvar algumas coisas que são belas, tocantes e sábias de tudo o que já não parece verdadeiro”. É caso para exclamar, não sem prudência tolerante: céus.
A maior virtude de Botton, ainda assim, é a superioridade moral com que trata os crentes, a verdadeira reserva de sinceridade do livro. O seu pragmatismo cívico, mero bom senso com aparência de descoberta, é tão insuportável quanto ineficaz. Ninguém alterará a sua fé ao lê-lo. O que talvez seja o que de mais parecido o volume tem com alguns tipos de crença: um êxtase parado paradinho em que o Universo se imobiliza. Assim como os cérebros dos leitores.



Até um religioso prefere os discursos de Dawkins , Hitchens e Harris . Está tudo dito quanto ao oportunismo deste livro e do seu autor. Já o tínhamos afirmado antes.