Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A Moeda Central (3/3)- Porque é que que o BCE ainda não utilizou “a máquina de imprimir notas?”
Olivier Berruyer, 0340 La Monnaie Banque Centrale (3/3) – ou pourquoi la BCE n’a pas utilisé “la planche à billets”
Les-Crises.fr, 16 de Maio de 2012
(continuação)
…
VII. Os problemas e os perigos
Se fazer circular a moeda é essencial, a solução adotada pelo BCE, no entanto, tem várias desvantagens e perigos.
Não é o problema de reembolso: em três anos, o dinheiro para reembolsar não estará longe: na maior parte na conta de depósito do BCE … Mas, então, não se terá resolvido nada!
Na verdade, a maioria dos bancos estão, na verdade, insolventes e toda a gente sabe disso. Consequência: eles evitam concederem empréstimos uns aos outros e à economia real igualmente, porque com isso se aumentam os seus riscos e necessidades financeiras. Daí o disfuncionamento do mercado interbancário, e grandes problemas. O programa VLTRO irá simplesmente dar-se ao luxo de comprar um pouco de tempo, mas não fará nada contra o problema da solvabilidade dos bancos! E o BCE pode ter que continuar a emprestar grandes somas aos bancos – e prolongar estas insensatas taxas de juro a 0% que irão pois perdurar …
Um dos perigo é que o BCE se encontre a ter de enfrentar a manter nas suas contas grandes quantidades de títulos de qualidade muito à volta da média o que normalmente não é a regra.
Um outro é que, de repente, não permaneçam nos bancos comerciais senão os títulos mais podres, o que os enfraquece ainda mais e transformando-os, de facto, em bancos maus …
Um outro é que os bancos sejam tentados a usar essa liquidez para financiar investimentos especulativos, colocando-se ainda em maior perigo (como Jean Peyrelevade o explicou muito bem).
Por fim , um último risco é que os governos exerçam pressão sobre os seus bancos para comprar as suas novas emissões de dívida, como se faz atualmente na Itália e na Espanha. Agora, é exatamente o oposto que deve ser feito! Claro que isso resultou em taxas mais baixas. Mas não é a missão de um banco fazê-lo porque isso fá-lo correr em grande perigo por emprestar a estes estados insolventes. O que fará com que um dia, no dia da reestruturação, haverá um grande problema sobre o Estado e sobre os bancos!
E eu nem sequer falo sobre os riscos de inflação (dos preços ou dos ativos), se os dois países começam a emprestar os seus € 500 mil milhões recebidos com a VLTRO concedida aos estados ao longo do ano! Isso é o que o FED fez nos EUA, tendo diretamente comprado os novos títulos do Tesouro. Ao contrário da Europa, e tendo em conta os volumes titânicos, o efeito sobre a oferta de moeda foi muito rápido:
A possibilidade dos Estados Unidos está em que eles podem exportar a sua inflação, graças ao papel internacional do dólar – o que não é o nosso caso. Além do mais, uma parte desta moeda foi posta “no frigorífico ” no sistema bancário. Atenção ao dia em que será largada na economia real…
Para os amadores da monetarização das dívidas, se isso continuar, a Espanha e a Itália vão mostrar-nos as consequências sobre a economia de uma criação monetária para apoiar o Estado. Estes 2 países parecem atingidos, cabe-nos a nós ficarmos vigilantes de modo que os outros países não entrem nestes mecanismos mortíferos.
Acabámos de viver na Grécia as consequências finais desta relação bancos/Estado: o Estado entrou em incumprimento, isso afundou os seus bancos, a UE re- emprestou-lhes o dinheiro em urgência para que o governo grego os re-solvabilizasse (é delirante…). No fim, o Estado grego suporta por conseguinte ainda uma forte dívida… Quando chegar a nossa vez, quem emprestará dinheiro ao Ocidente para salvar os nossos bancos?
Comentários a esta terceira parte:
1. Patrick Luder
Há nestes três textos de Olivier, material com que se pode complementar (reformar) a formação dos economistas. Permita-me Olivier, que eu transmita estes três textos para um “Licenciado em Economia “, professor nas escolas politécnicas?
Eu proponho que se chame a esta moeda “Moeda Central Paralela” e assim temos imediatamente a noção de que esta moeda não é misturada com a da economia real.
Pessoalmente, eu tenho três questões para completar a minha compreensão do sistema:
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Será que a Moeda Central Paralela foi criada na década de 1970 com o abandono do padrão-ouro / $ como moeda internacional? Ou será que a data desta prática é bem mais antiga? (Em que data e em que ocasião)
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Existem outras razões para criar a moeda Central-Paralela que o de estar a evitar a hiperinflação? ( que o valor de troca entre os bancos se reencontre diretamente nos mercados)
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Eu não compreendo porque é que este governo absorve esta Moeda central Paralela … é para manter o controle de uma função real da “máquina de fazer dinheiro “?
Obrigado. …
2.
Jean-Baptiste B
“O objetivo aqui é para dizer que ainda existe uma pequena relação entre as duas moedas. Mas esta ligação não é “física” (no sentido de que el poderia perfeitamente dispensar-se), é lei: a “lei”, e nada mais que a lei, exigem ao banco que concede um novo crédito que detenha uma pequena percentagem de moeda central . O objetivo é o de limitar a sua capacidade para criar dinheiro. “
Você está enganado. Os sistemas bancários, como o Canadá simplesmente ignoram o rácio de reservas obrigatórias e funciona muito bem. Os bancos simplesmente contentam-se em encontrar tanta moeda banco quanta eles têm necessidade para efetuarem os pagamentos entre eles, o Banco Central e o Tesouro. O Banco de Pagamentos Internacionais confirma ainda mais claramente que o FED. A moeda do banco central é uma moeda visando facilitar os pagamentos interbancários e a estabilidade do sistema bancário, não para modular a quantidade de empréstimos. Para modular a quantidade de empréstimos, escolhem-se as taxas diretoras e, em seguida, é-se levado a comprar ou vender títulos do tesouro (principalmente), até que os requisitos sobre as reservas bancárias sejam cumpridos.
Concordo com a sua posição sobre a ineficácia de flexibilização quantitativa, pessoalmente escrevi até vários textos sobre este tema.
3. Jean-Baptiste B
“Veja-se que são essencialmente os bancos italianos e espanhóis que compraram a dívida – outras nações posicionaram-se prudentemente à distância desta prática.
Isso mostra que essas compras são, provavelmente, devidas sobretudo às pressões exercidas pelos governos sobre os s bancos, e não ao contrário do que se poderia pensar, porque os bancos iriam fazer um “bom negócio emprestando” ao Estado … “
Isto prova especialmente, desde que os bancos não sabem onde investir e que se eles têm que, hipoteticamente, entrar em falência na esteira do seu Tesouro nacional, comprem-se pois títulos do Tesouro, há pois um grande interesses em jogo nisso. Se acertamos, ganhamos muito, se nos enganarmos, perdemos tudo de toda a maneira.
4. Laurent P
Porque é que alguns dos gráficos são expressos em €, enquanto que deveriam ser expressos em moeda Banco Central, certo?
Ou então eu não entendi nada …
5. Jean-Baptiste B
Esta é a mesma unidade de conta, mas não é a mesma coisa como uma nota de 100 euros e um cheque de 100 euros são, na verdade, coisas muito diferentes (pergunte a alguém que descobre que o seu cheque de 100 euros não tem cobertura e vos explicará.
6. Jean-Baptiste B
“No final, eu espero que tenha entendido isso: o BCE não puxou da sua “máquina de fazer dinheiro.”
O problema vem dos vários significados da palavra moeda. Esta tem um significado amplo: meio de pagamento. E um sentido estrito: meio com que se encerram todas as promessas de pagamento, uma moeda valuta para aqueles que conhecem Knapp, uma moeda soberana na linguagem quotidiana.
O BCE não cria moeda soberana se tivermos apenas em conta que ele só a empresta. Mas ela é criada se tivermos em conta que ele não pode entrar em incumprimento e que toda a moeda que é emprestada pode ser encontrada em alguns bancos comerciais. Eu poderia continuar a falar de paradoxos por muito tempo. O problema é que o crédito quase-moeda foi a esta assimilado e, portanto, desempenha o papel de moeda valuta no sistema atual. A criação de moeda esconde-se atrás do seu dedo mindinho, e fragiliza enormemente o funcionamento da forma como a economia funciona: perguntar-se-á quem respeitará as suas datas de pagamentos tendo essa máquina de fazer dinheiro escondida e quem é que as não poderá respeitar. Quem será Lheman Brothers, quem será JP Morgan, etc.
Tal é de uma perversidade absoluta, é um verdadeiro ninho de nepotismo e de corrupção.
7. Jean-Baptiste B
“Enfim, um outro ponto a assinalar é que os governos exercem pressão sobre os seus bancos para lhes comprarem suas novas emissões de dívida, como atualmente na Itália ou na Espanha. Agora, isto é exatamente o oposto deve ser feito! “
Impossível: o oposto seria ESTAR A EMPURRAR o Estado para a situação de incumprimento, incluindo os salários dos policias, juízes, etc. fazendo respeitar até aos contratos de empréstimo. Deixar afundar Tesouro seria estarmo-nos todos a afundar. Mas o cenário mais provável é que o Estado retome a sua soberania monetária: isto é, acontece se ele se autonomiza dos seus co-decisores nas suas despesas que são os bancos comerciais que lhes compram títulos do Tesouro, lhes dão o dinheiro, e passam a gastar diretamente por si, independentemente daqueles. Assim, cada Tesouro na zona euro Tesouro poderia escolher a quantidade de euro no sistema-euro, e todos aqueles o fizessem seriam excluídos da zona do euro e esta irá certamente estourar …
Alternativamente, à grega, podemos tentar remover a necessidade de recorrer ao mercado através da supressão estúpida do défice público, mas a economia vai ser mergulhada numa Grande Depressão …
“Para os fãs da monetização da dívida, acabamos de o viver na Grécia: o Estado falhou, com ele afundaram-se os seus bancos, a UE re-emprestou-lhe algum dinheiro de emergência para que os re-solvabilizasse ( isso é delírio …). Por fim, o Estado grego suporta pois um elevado volume de dívida … “
A minha posição preferida é a de suprimir a obrigação de emitir títulos do Tesouro aos bancos no mesmo montante que a moeda soberana injetada pelas despesas do tesouro e que excedam o montante de impostos até cobrados . Deixe-se o banco central oferecer “aplicações soberanas” semelhantes aos títulos do tesouro se ela tem por hábito a gestão das taxa de juro, mas é tudo, o mercado secundário torna-se primário e ao Tesouro é-lhe indiferente. Vivam os estabilizadores automáticos. Acabe-se com o sistema bancário à Ponzi do pseudo-financiamento do tesouro que tudo abala.
No caso específico da Grécia, isto é bastante diferente: ela faz parte da zona euro, portanto, não é plenamente soberana na sua moeda. Eu já tinha respondido a este comentário. Mais lhe valia sair da zona euro e recuperar a sua capacidade de manobra, como todos os outros, também. Em todo o caso, mais vale o sistema financeiro à Ponzi que a falência do Tesouro como o Olivier nos expôs na sua fúria: nós seríamos então a nova Russia de Boris Yeltsine com um Estado caótico funcionando por instinto e com um punhado de oligarcas no poder.
(continua)
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