A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 6. DEVE O BCE LANÇAR A LIQUIDEZ POR HELICÓPTERO?, por CHRISTOPHER DEMBIK
joaompmachado
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Deve o BCE lançar a liquidez por helicóptero?
Christopher Dembik, Economista, Saxo Banque, França, La BCE doit-elle larguer des liquidités par hélicoptère?
Le Huffington Post (em associação com o grupo Le Monde), 16 de Março de 2016
Apesar da acção maciça do BCE, a zona euro parece condenada a um período prolongado de baixa pouco criadora de riqueza. Resultado: a credibilidade do BCE é posta em questão e isto tanto mais quanto no mesmo momento a Reserva Federal dos EUA parece destinada a ter sucesso na sua aposta e ter a inflação no caminho certo nos próximos anos. De fato, a inflação subjacente, que é vigiada de muito perto pelos bancos centrais, atingiu 1,7% em termos homólogos em Janeiro nos EUA, ou seja um ponto alto desde Julho de 2014. Na zona euro, esta não passava de 1% no mesmo período. Pior ainda, esta continuava a diminuir!
A questão que legitimamente se põe é a de saber se as ferramentas utilizadas pelo BCE, quer se trate das recompras de activos ou das taxas negativas, estão suficientemente adaptadas para permitir a recuperação do crescimento e da inflação. Devemos fazer algo mais? Uma das pistas agora mais frequentemente citada é o lançamento de dinheiro por helicóptero. O que é que exactamente isto significa ?
Até agora, o BCE tem procurado reduzir os custos de empréstimos através do mercado interbancário, a fim de reavivar o mercado de crédito. No entanto, é claro que a transmissão do programa da política de flexibilização quantitativa da moeda à economia real não funciona como se esperava. O custo dos empréstimos diminuiu para ambas, para as grandes empresas no mercado de capitais, mas também para as PME e ETI que contraem empréstimos em bancos comerciais. O problema é que as taxas de juro baixas não se traduzem automaticamente numa retoma substancial do investimento privado. Estas baixas taxas de juro levam especialmente a um aumento de recompras de acções e ao aumento das reservas de caixa das empresas. Além disso, as PME e as empresas de dimensão intermédia, ditas ETI, ainda estão relutantes em contrair empréstimos por causa de uma contínua falta de confiança no futuro. O BCE pode levar à descida das taxas e tão baixas quanto possível, se não houver suficiente procura de empréstimos, o crescimento e a inflação não irão arrancar. A queda da velocidade de circulação da moeda, tanto nos EUA como na zona euro, reflecte perfeitamente esta tendência que se tem acelerado desde a crise de 2008.
Então, porque não distribuir dinheiro directamente às famílias, uma vez que a distribuição através dos bancos não funciona? Uma maneira de conseguir isso seria que o BCE fornecesse uma quantidade específica para cada família da zona euro que seria paga numa conta bancária especial e só poderia ser utilizada para o pagamento da dívida existente. Para os devedores, o efeito seria imediato: a redução da dívida, o retorno da confiança no futuro e, por sua vez, aumenta o poder de compra e, consequentemente, o consumo. Efeito virtuoso instantâneo! Para aqueles que não estão em dívida, então pode-se pois imaginar que o dinheiro pago seja investido em projectos de infra-estrutura europeias, o que estimularia o investimento e permitiria oferecer um rendimento a longo prazo.
Será esta uma boa solução? Pode parecer ridículo, mas ela poderia ter no fim de contas um impacto macroeconómico maior que as medidas actuais que têm muitos inconvenientes, entre os quais e é mesmo o mais importante deles está o aumento de bolhas especulativas em muitos segmentos de mercado.
Além disso, Mario Draghi não descartou essa hipótese na conferência de imprensa que deu por ocasião da última reunião do BCE. Ele descreveu a sua posição nos seguintes termos:
“Nós. na verdade não temos pensado sobre ou discutido a possibilidade de distribuir dinheiro de helicóptero. Este é um conceito muito interessante que está a ser actualmente discutido por economistas e académicos em vários ambientes. Mas nós ainda não estudámos esse conceito “.
O ponto crucial a reter desta intervenção é que esta deixa a porta aberta a essa opção. É uma reminiscência de comentários semelhantes feitos nos últimos anos sobre as taxas negativas.
No entanto, a aplicação pratica de um tal processo não é nada fácil. A distribuição de liquidez por helicóptero pode enfrentar problemas técnicos e certamente jurídicos numa primeira fase. Há uma forte aposta, nomeadamente, em que os alemães se opõem e solicitarão o parecer do Tribunal de Karlsruhe para se pronunciar sobre o assunto.
Christopher Dembik, sítio Huffingtonpost, La BCE doit-elle larguer des liquidités par hélicoptère? Texto disponível em: