Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O plano B de Varoufakis ? “Uma espécie de muro de Berlim financeiro”
Maxime Brigand
Le Figaro, 31 de julho de 2015
Alguns dias depois da publicação na imprensa de um plano B imaginado pelo antigo ministro das Finanças da Grécia, Christopher Dembik, economista no Saxofone Bank, explica ao Figaro os contornos desta solução alternativa e analisa as suas consequências para o futuro da Grécia.
A fuga de informação teve o efeito de uma bomba mediática, uma deflagração na paisagem política grega, já de si sujeita a uma desestabilização crónica. Há já alguns dias, o Fórum oficial das instituições monetárias e financeiras (OMFIF) publicava uma conversação telefónica de Yanis Varoufakis, antigo ministro das Finanças grego, sacrificado sobre o altar das negociações com Bruxelas, com os fundos soberanos e os fundos de pensões. Um registo extraído de uma conferência telefónica organizada a 16 de Julho em Londres e no decurso da qual, o antigo ministro sabia que tudo estava a ser gravado. Durante uma vintena de minutos explica o seu plano B estabelecido para o caso de um malogro das negociações com Bruxelas relativamente a um terceiro plano de ajuda. A linha directora do plano alternativo é agora conhecida e o Le Figaro decidiu passar em análise a famosa criação “de um sistema bancário paralelo” imaginada por Yanis Varoufakis.
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“Queríamos criar contas de reserva ligadas a cada número fiscal”
Desde o início, o antigo ministro das Finanças evoca “a criação, discretamente, de contas de reserva ligadas a cada número de identificação fiscal, e permitir seguidamente a cada um de aceder facilmente à dita conta de reserva”. O objectivo é então de instalar um meio para transferir fundos do contribuinte às organizações sem estar a passar pelo compartimento financeiro, sem passar pelos bancos, ou seja um sistema paralelo para pôr a Grécia ao abrigo do encerramento dos estabelecimentos bancários.
Christopher Dembik: “É um sistema muito pouco ortodoxo, mas ao fim e ao cabo bastante lógico para escapar ao controlo das instituições europeias. Neste caso, existiam dois instrumentos para a Grécia se esta seguisse executar o plano de Varoufakis: utilizar os números de segurança social, salvo que as sociedades não o têm, ou utilizar os números de identificação fiscal. Esta última solução pode, por conseguinte, permitir que seja posto em funcionamento e de modo progressivo um sistema monetário paralelo.
Um sistema que fecharia a Grécia sobre si-mesma.
Neste caso, a Grécia encontrar-se-ia em face a dois problemas. O primeiro seria a aceitação deste sistema de pagamentos. No país, não haveria nenhum problema mas para os pagamentos no estrangeiro os Gregos seriam bloqueados porque as sociedades estrangeiras não têm números fiscais na Grécia. Estar-se-ia por conseguinte perante a criação de um muro de Berlim financeiro. O segundo, na sequência lógica, é que isso bloquearia as trocas financeiras entre os bancos gregos, o Banco central grego e os estabelecimentos financeiros estrangeiros”.
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“Teríamos podido fazer uma transferência instantânea de uma conta para outro graças a um número de código”
Yanis Varoufakis explica, dando o exemplo de um laboratório farmacêutico a quem o Estado deve um milhão de euros, que um tal sistema permitiria então “fazer imediatamente uma transferência para a conta deste laboratório graças ao número de conta que ficaria ligado ao seu número de identificação fiscal pois dar-lhe-iam em seguida acesso com um número de código de modo a que, a seguir, a empresa pudesse utilizar esse dinheiro como um mecanismo de pagamento paralelo”.
Christopher Dembik: “Varoufakis utiliza o exemplo dos laboratórios porque há hoje um grande problema com os medicamentos [desde o dia 17 de Julho, a agência grega do medicamento proibiu a exportação de 73 tipos de medicamentos para evitar uma escassez]. Com um tal sistema, ter-se-ia muito rapidamente um sistema financeiro autocentrado e à imagem do que se faz na Coreia do Norte. A Grécia isolar-se-ia, não teria nenhumas trocas com o resto do mundo e as operações para o estrangeiro seriam realizadas clandestinamente. Caminhar-se-ia para uma saída da Grécia e muito rapidamente.
Uma administração fiscal sob vigilância?
Para pôr em prática este sistema, o ministro das Finanças deveria então ter acesso à plataforma da administração fiscal, por conseguinte aos edifícios e aos sistemas informáticos. Problema, a Direcção-Geral dos impostos está sob controlo da Troika. É aí que houve bloqueio, ainda que o Comissário europeu, Pierre Moscovici, fale “de uma mentira absoluta” sobre a rádio Europa 1.
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“Este sistema teria conduzido a procedimentos judiciais muito pesados”
Christopher Dembik, economista no banco Saxo Bank.
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Christopher Dembik: “No caso da Grécia, está-se num funcionamento normal. O que é surpreendente, primeiro, é que Yanis Varoufakis agiu com o acordo do seu primeiro ministro, Alexis Tsipras, que se retraiu quando viu a amplitude da montagem. Este sistema teria conduzido ao impeachment e teria havido procedimentos judiciais muito pesados. Para o caso da troika, é necessário ter cuidado. Não há controlo total, mas há uma vigilância desde 2010, o que é lógico, para verificar se as reformas estão a ser aplicadas. Esta vigilância acentuou-se desde 2012”.
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“Embora calibrado em euros, o sistema pode ser alterado para dracmas de um momento para outro”
Teria sido necessário para Yanis Varoufakis piratear o software do seu próprio ministério para copiar os números fiscais registados. O antigo ministro explica igualmente que “embora calibrado em euros, o sistema poderia ser alterado para dracmas rapidamente”. Tão simples como apoiar apenas num simples botão.
Christopher Dambik: “Introduzir uma nova moeda é simples, uma divisa instala-se numa noite. Pode-se fazê-lo com um simples carimbo e a Grécia poderia rapidamente poderia imprimir novas notas em dracmas. Hoje, fala-se em desvalorizar o euro de 70% mas estas mudanças incessantes estariam muito longe da lógica de uma economia viável. Sobretudo, o que é surpreendente, é que Varoufakis nunca exprimiu claramente uma vontade de levar a Grécia a sair da zona euro, bem antes pelo contrário”
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“Querem fazer-me cair por traição e pôr no caixote de lixo cinco meses de História”
A fuga na imprensa desta hipótese alternativa preparada desde longos meses nos escritórios de Atenas provocou uma onda de protestos no Parlamento grego. Duas queixas foram já apresentadas contra Varoufakis e uma terceira estaria em preparação. Uma votação está igualmente prevista para levantar a imunidade parlamentar do deputado e levá-lo a julgamento [por alta traição].
Para o economista Christopher Dambik, se um tal plano “nunca for evocado e nunca posto em prática na Europa”, permanece no entanto “relevante, viável sobre o papel, e a economia tem hoje necessidade de soluções alternativas aceitando ao mesmo tempo as regras políticas”. Segundo ele, o único problema estaria “na pirataria de um sistema informático governamental: um número fiscal pode negociar-se hoje, e joga-se aí com a preservação de interesses estratégicos. A especificidade da ideia de Varoufakis é que é inclassificável, [não se conhece nada de semelhante]. Já se têm visto sistemas bancários paralelos mas vê-se geralmente uma emissão de créditos por parte do Estado, ou mesmo o aparecimento de moedas alternativas. Nesse caso, a introdução eventual de um tal sistema teria conduzido à uma saída em boa ordem da Grécia da zona euro, seria essa a interpretação que lhe dariam os meios financeiros
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