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GIRO DO HORIZONTE – BREXIT – por Pedro de Pezarat Correia

          Três dias depois, que dizer do Brexit que ainda não tenha sido dito?

            O melhor é começar por um lugar-comum, aquilo que, afinal, todos disseram: foi profundo o golpe na UE.

        Um jornal diário fazia cartoon com um avião, o Reino Unido, apontando a sua trajetória a duas torres gémeas, a UE. Não é uma imagem feliz, ficando-se sem se saber se a autora pretende classificar o voto dos britânicos como um ato terrorista, ou equiparar o ataque da Al Qaeda em Nova Iorque, em 11 de Setembro de 2001, a um voto democrático. Provavelmente pretenderá, tão só, comparar os efeitos demolidores que de ambos resultarão. Também aí será excessivo. Não estou a ver o sr. Juncker e o sr. Tusk a reunirem-se, nas Lages, Acores, com a sr.ª Merkel e o sr. Hollande, a combinarem a invasão das Ilhas Britânicas, em busca das armas de destruição maciça apontadas a Bruxelas. Nem estou a ver os decisores militares da UE (??) a lançarem os drones e os comandos especiais para liquidarem o sr. Boris Johnson e o sr. Nigel Farage, localizados por GPS enquanto saboreiam, com britânica fleuma, o chá das cinco.

            Há um aspeto que merece reflexão séria. Será o Brexit o início da inversão de uma tendência na construção europeia?

            Desde a fundação da CEE, até há três dias, já reformulada em UE, a tendência foi sempre do crescimento, do alargamento, que atingiu o ponto culminante em 2013, com a entrada da Croácia. As perspetivas ainda eram de continuação do alargamento, com as candidaturas da Turquia, da Sérvia, da Macedónia, da Albânia e de outros. E com os provocatórios – para a Rússia – acenos à Ucrânia, à Moldávia, à Geórgia. Será o Brexit o início da tendência inversa, da retração, do estreitamento? Multiplicam-se os alertas para o efeito do dominó que essa inversão arrastaria, com olhos postos na França, na Itália, na Holanda, na Dinamarca, na Suécia e, até, na Alemanha.

            Em 1991, com a euforia da vitória na guerra-fria e a implosão da URSS, a UE, em período de arranque para a expansão e para a sua afirmação como parceiro dos EUA no núcleo duro da globalização, empenhava-se no apoio ao desmembramento dos sistemas federais na periferia, na URSS, na Jugoslávia, na Checoslováquia. Colaborava na abertura de uma caixa de Pandora de que não previu as consequências. A dinâmica centrífuga, uma vez consumada a separação das várias repúblicas federadas, transferiu-se progressivamente para o interior das próprias repúblicas, com as tragédias que se sucederam na Croácia, na Bósnia, na Sérvia (Kosovo), com o desmembramento da Jugoslávia. E também no Azerbaijão (Nagorno-Karabakh), na Geórgia (Abecázia e Adjária), na Rússia (Tchetchénia) e na Ucrânia, em consequência da desintegração da URSS. Na maioria destes casos reivindicações separatistas confundiram-se com ambições irredentistas de Estados vizinhos.

            Acumulam-se receios de que efeitos semelhantes se possam projetar em países da UE. Com o Brexit anuncia-se a saída da Escócia e da Irlanda do Norte do Reino Unido sendo que, em relação à Irlanda, não estão ausentes aspirações irredentistas da vizinha República da Irlanda. Com outros hipopépticos exits que poderão seguir-se, teme-se por cisões na Catalunha e no País Basco em Espanha, na Córsega em França, na Liga do Norte em Itália. São dinâmicas centrífugas que, a experiência nos diz, só se sabe como começam.

            Há alguma dramatização em torno do Brexit que, confesso, entendo mal. Por exemplo, por ser a maior potência militar da UE. Não me tenho apercebido qual tem sido a vocação e o papel da UE enquanto ator militar na cena internacional. Tanto quanto se tem verificado toda a intervenção militar europeia, às vezes bem pouco recomendável, tem-se processado através da OTAN e, daí, não há brexit a recear. Na OTAN o Reino Unido é o parceiro privilegiado dos EUA, a potência liderante sem contestação.

            Aliás, se transportarmos essa relação para o interior de UE, quando surge entre os Estados membros algum conflito entre mais atlantismo (interesses norte-americanos), ou mais europeísmo (interesses europeus), Londres tem-se distinguido por alinhar, sistematicamente, com Washington. O Reino Unido tem sido sempre o fiel defensor dos pontos de vista e das posições dos EUA, dentro da UE. Há quem diga, os mais céticos, que foi para isso que aderiu.

           Enfim, o Brexit lançou um enorme ponto de interrogação sobre a UE, nisso estou de acordo. Não sou de antever cenários sobre o futuro. Procurarei estar muito atento e tentar compreender o que se vai passando. Com a convicção do que aprendi com a obra clássica, O processo histórico, do grande historiador cubano Juan Clemente Zamora, «O relógio da história nunca marcha para trás.»

27 Junho 2016

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