Hoje quero falar de amenidades. E, para começar, recordo uma anedota sobre a antiquíssima sabedoria dos chineses. Pois ouvi dizer, há muitos anos, que na velha China, quando um parente ou amigo chegava de viagem, ou reaparecia após longa ausência, o anfitrião, a fim de criar um clima acolhedor sem grandes estardalhaços, depois das saudações iniciais costumava dizer: “- Vamos tomar chá e falar de absurdos.” Mas eu acredito que pode ter havido algum erro de tradução na trajetória que a anedota fez para chegar até nós, e que a palavra certa seria banalidades, ou amenidades, numa possível alusão às coisas simples do cotidiano. E penso naquele “Adeus! Ó Esteves”, do final do poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, que Antonio Tabucchi considerava o grande poema do século XX, e que em sua comovente simplicidade opera um milagre. Pois ao longo do poema, Pessoa (ou seu heterônimo Álvaro de Campos), questiona angustiadamente o sentido de sua existência, assim como o da própria vida neste mundo de incertezas, para chegar a estes versos surpreendentes:
(… ) :
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das
calças?)
Ah! conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe “Adeus ó Esteves!”, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria
sorriu.
Outra anedota “chinesa” que circulava entre estudantes universitários nos anos 1960, foi contada em livro por Vilém Flusser, filósofo tcheco naturalizado brasileiro: num encontro de cientistas e filósofos do Ocidente e do Oriente, um chinês em conversa com um amigo teria exclamado: “Esses ocidentais querem nos ensinar a pensar, mas eles nem sabem passear direito…”
E podemos perguntar: quem sabe passear hoje em dia?
Foi pensando nisso que escrevi este pequeno poema, quando costumava dar longas caminhadas nas primeiras horas das manhãs, no calçadão da praia do meu bairro:
Leme
A espuma rasga suas rendas
sobe a névoa da noite
passam pernas que correm
braços, passos ritmados
– cegos olhares
só as asas de pombos frenéticos
aplaudem o sol.
Agora, que já não caminho tanto, costumo nadar na piscina do clube que fica ao lado do meu prédio e verifico que até os pássaros já são mais raros. E o guardião da piscina, possível salva-vidas, nem sequer olha para o céu, não creio que se dê conta quando às vezes lá no alto passam sereníssimas gaivotas flanando, flanando, com as asas paradas. Ou quando um bem-te-vi vindo de longe pousa num galho de árvore e canta. O rapaz, todo encasacado, usa fones nos ouvidos e olha e escreve, sem cessar, num tablet ou telefone celular.
Quando eu caminhava, o meu espanto era perceber que ninguém via os navios ao largo, um barquinho a vela ou qualquer embarcação. Daí ter escrito o pequeno poema sobre os cegos olhares dos colegas de caminhada. Lembro, porém, que um dia um bêbado, que parecia ter dormido ali mesmo na praia, balbuciou comovido: – Que bonito! Obrigado, meu Deus! diante de um sol todo vermelho que brotava do mar.
De outra feita, um sol dourado e rosa inspirou outros versos:
Dia
Luz de palavras líquidas
– levíssimas castanholas
– rumor de asas – rocio
quem me acorda é o poema
enquanto um sol feminino
vem nascendo do mar.
E é percorrendo meu velho livro Comigos de Mim que percebo o quanto tenho amado as manhãs e as cores da aurora. Como minha mãe, sou matutina e gosto de saudar o dia.
Alba
Poema da manhã
Tua chegada sabe a pão fresco
a começo – leite materno
te sei do útero e da morte
e das profundezas
onde mais longe
só a Vida é lei.
Pensei em amenidades e percorri meus modestos versos.