CARTA DO RIO – 54 por Rachel Gutiérrez

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Na última etapa de nossa viagem, passamos dois dias em Calais antes das sobrinhas rumarem para Londres, e minha irmã e eu, para Paris.

Hospedamo-nos no Hotel Meurice, que data de 1771 e parece ter tido seu grande esplendor durante os anos 1930.  No bar, cujas paredes são decoradas com velhas fotografias, quadros e caricaturas, há desenhos que muito se assemelham aos do nosso J.Carlos, o grande representante do estilo art-déco na história do design gráfico brasileiro. E entre as anedotas sobre os antigos clientes do hotel – duques, homens de negócios e até mesmo um “tsar” da Rússia – uma me chamou a atenção. Vê-se um rapaz vestido com um daqueles uniformes cheios de botões, que apresenta um ramo de flores a uma camareira e diz:

– Trago flores para uma dama que se hospeda em seu hotel. Ela canta, à noite, em nosso teatro. E se veste com bananas. Ao que a camareira responde:

– Quarto 120. Pergunte por Madame Joséphine Baker!

Os quartos, aliás, decorados com muito charme, são amplos e confortáveis e os banheiros de agora estão perfeitamente adaptados aos hábitos modernos. Esse hotel, conservado como uma joia, remonta ao tempo em que seu criador, Charles Meurice compreendeu, no final do século XVIII, que turistas ingleses gostariam de encontrar no continente o mesmo conforto a que estavam acostumados na Inglaterra.

Rodin - Los burgueses de Calais (1895)

A cidade de Calais, que só possui prédios baixos, é dominada pelo grande edifício da Prefeitura com sua torre e seu famoso relógio. E estão em seu principal Jardim, as estátuas originais do conjunto esculpido por Auguste Rodin para imortalizar o feito histórico dos salvadores da cidade: Os Burgueses de Calais. Em outra praça, uma estátua representa a Liberdade e há uma homenagem da Legião de Honra “aos calaisianos mortos pela França.”

Fomos então para Paris, onde pudemos rever duas queridas amigas francesas. A primeira é a jornalista e crítica literária Cella Minart que, em seu trabalho na Radio France Internationale, entrevistou todos os grandes escritores de seu tempo e foi amiga de Simone de Beauvoir. A outra, Claude Charon, trabalhou no Ministério das Relações Sociais, ao longo de muitos anos e deu assistência a incontáveis mulheres estrangeiras, entre as quais  latino-americanas e argelinas. Cella recupera-se de uma delicada operação na coluna e só pudemos fazer-lhe uma curta visita. Com Claude, fomos ao Bois de Boulogne, a uma Casa de Chá Chinesa, no Quartier Latin, onde escolhi um tipo de chá “que tem cheiro de terra após a tempestade.” Também almoçamos em sua casa, com todas as pausas e requintes de uma refeição leve e refinadíssima, como só os franceses sabem apreciar, coroada com maravilhosos morangos,  queijos e  vinho.

Alguns planos tiveram de ser adiados para uma próxima visita, como, por exemplo, o de conhecer a casa de Maurice Ravel, que fica em Montfort-Lamaury, a apenas quarenta quilômetros de Paris. Mas há uma grande distância entre a estação de trem e o museu e, num domingo, não havia táxis, nem ônibus para nos transportar. E por não ter feito reserva com antecedência, não pude ver Juliette Binoche no papel de Antígona, que faz tanto sucesso, no momento, no Théatre de la Ville. Mas só estar de novo em Paris e termos nos hospedado desta vez no Hotel des Arènes, junto às arenas da era galo-romana, que remontam aos anos 50 DC, quando Paris se chamava Lutécia, já foi uma festa.

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Também demos uma passada nas Galéries Lafayette, nós, que não somos de muitas compras, e almoçamos num bistrô simpático naquela efervescente região da Opéra.  E nossa amiga Claude ainda nos mostrou, na moderna região da Nova Biblioteca Nacional, agora Biblioteca François Mitterand, a Passarela Simone de Beauvoir que, sobre o Sena, simboliza tão bem o caminho percorrido e a percorrer pelas mulheres depois que a corajosa escritora e ativista, com seu livro O Segundo Sexo, de 1949, revolucionou para sempre a condição feminina no mundo.

Na última tarde em Paris, limitamo-nos a sentar na varanda de um outro bistrô,  em frente à Notre Dame, para  contemplarmos o entardecer bebendo um copo de vinho tinto .

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De volta à nossa amada Londres, para tomarmos o avião para o Brasil, ainda tivemos tempo de conhecer algumas lojas do Selfridges e de voltar ao Mercado do Covent Garden, onde a vida é agitada e alegre. A Primavera continuava no ar.

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