CARTA DO RIO – 110 por Rachel Gutiérrez

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Hoje quero falar de amenidades. E, para começar, recordo uma  anedota sobre a antiquíssima sabedoria dos chineses. Pois ouvi dizer, há muitos anos, que na velha China, quando um parente ou amigo chegava de viagem, ou reaparecia após longa ausência, o anfitrião, a fim de criar um clima acolhedor sem grandes estardalhaços, depois das saudações iniciais costumava dizer: “- Vamos tomar chá e falar de absurdos.” Mas eu acredito que pode ter havido algum erro de tradução na trajetória que a anedota fez para chegar até nós, e que a palavra certa seria banalidades, ou amenidades, numa possível alusão às coisas simples do cotidiano. E penso naquele “Adeus! Ó Esteves”, do final do poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, que Antonio Tabucchi considerava o grande poema do século XX, e que em sua comovente simplicidade opera um milagre. Pois ao longo do poema, Pessoa (ou seu heterônimo Álvaro de Campos), questiona angustiadamente o sentido de sua existência, assim como o da própria vida neste mundo de incertezas, para chegar a estes versos surpreendentes:

(… ) :

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira

Talvez fosse feliz.)

Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das

                                                                                  calças?)

Ah! conheço-o; é o Esteves sem metafísica.

(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)

Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.

Acenou-me adeus, gritei-lhe “Adeus ó Esteves!”, e o universo

Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria

                                                                                  sorriu.

  

Outra anedota “chinesa” que circulava entre estudantes universitários nos anos 1960, foi contada em livro por Vilém Flusser, filósofo tcheco naturalizado brasileiro: num encontro de cientistas e filósofos do Ocidente e do Oriente, um chinês em conversa com um amigo teria exclamado: “Esses ocidentais querem nos ensinar a pensar, mas eles nem  sabem passear direito…”

E podemos perguntar: quem sabe passear hoje em dia?

LEME - VISTA

Foi pensando nisso que escrevi este pequeno poema, quando costumava dar longas caminhadas nas primeiras horas das manhãs, no calçadão da praia do meu bairro:

Leme

A espuma rasga suas rendas

sobe a névoa da noite

passam pernas que correm

braços, passos ritmados

– cegos olhares

 

só as asas de pombos frenéticos

aplaudem o sol.

 Agora, que já não caminho tanto, costumo nadar na piscina do clube que fica ao lado do meu prédio e verifico que até os pássaros já são mais raros. E o guardião da piscina, possível salva-vidas, nem sequer olha para o céu, não creio que se dê conta quando às vezes lá no alto passam sereníssimas gaivotas flanando, flanando, com as asas paradas. Ou quando um bem-te-vi vindo de longe pousa num galho de árvore e canta. O rapaz, todo encasacado, usa fones nos ouvidos e olha e escreve, sem cessar, num tablet ou  telefone celular.

Quando eu caminhava, o meu espanto era perceber que ninguém via os navios ao largo, um barquinho a vela ou qualquer embarcação. Daí ter escrito o pequeno poema sobre os cegos olhares dos colegas de caminhada. Lembro, porém, que um dia um bêbado, que parecia ter dormido ali mesmo na praia, balbuciou comovido: – Que bonito! Obrigado, meu Deus! diante de um sol todo vermelho que brotava do mar.

De outra feita, um sol dourado e rosa inspirou outros versos:

Dia

Luz de palavras líquidas

– levíssimas castanholas

– rumor de asas – rocio

quem me acorda é o poema

enquanto um sol feminino

vem nascendo do mar.

E é percorrendo meu velho livro Comigos de Mim que percebo o quanto tenho amado as manhãs e as cores da aurora. Como minha mãe, sou matutina e gosto de saudar o dia.

Alba

Poema da manhã

Tua chegada sabe a pão fresco

a começo – leite materno

te sei do útero e da morte

e das profundezas

onde mais longe

só a Vida é lei.

Pensei em amenidades e percorri meus modestos versos.

É bom terminar por aqui:

Amor

Manhã de prata

sacodes meu corpo

como amado que penetra

entranhas de sua amada.

 

e com olhos que cintilam

de saciedade e cansaço

 

após o embate amoroso

 

olhamo-nos com ternura

eu e minhas palavras.

 

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