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«Nó Cego» é o nosso «Por Quem os Sinos Dobram» – por Rui de Azevedo Teixeira

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Nó Cego é hoje um clássico da literatura portuguesa. É objecto de estudo e de atenção nos meios universitários, mas é, continua a ser, antes de tudo, um grande e poderoso romance dos nossos dias. É um romance essencial para as actuais gerações de portugueses viverem o período crucial da nossa História que foram os anos da guerra e o fim do regime de ditadura, mas é-o também para conhecer os dramas, as angústias, as alegrias e as tristezas duma geração que fez a guerra e que a terminou, duma geração de portugueses que abriram Portugal à modernidade. Nó Cego transformou-se num romance de culto duma geração que esteve envolvida na guerra colonial e que, a partir dela, entrou em ruptura com o regime português de ditadura. Carlos Vale Ferraz fez, nesta edição, uma profunda revisão. Mantendo a estrutura da obra, tornou a narrativa mais intensa, com uma linguagem mais depurada, com as situações mais definidas na sua complexidade. Um texto onde o leitor se sinta melhor situado dentro da acção. E é assim que Nó Cego participa simultaneamente do documento e do monumento, do poderoso testemunho e da excelente literatura.

Nó cego é um murro no estômago. A partir da leitura de deste livro percebemos a origem do massacre de Wyriamu. O grande massacre da guerra colonial, descoberto e descrito em toda a imprensa internacional como um dos crimes de guerra portugueses.

O protagonista central de Nó Cego é uma companhia de Comandos. Na guerra descrita, a tropa macaca (normal) não faz saída defendendo apenas a sua zona geográfica. As companhias de tropas especiais, Comandos, Páras e Fuzileiros é que iam para o mato à procura e combatendo os turras (diminutivo de terroristas) .

Os comandante da companhia é a outra personagem, vamos dizer, mais principal. Do principio ao fim do livro, nunca sabemos o seu nome. É simplesmente o Capitão. Junto com o Capitão, ficamos a conhecer alguns outros elementos da companhia, desde um maricas (gay), um filho da puta, literalmente falando, ou um filho de uma das famílias principais da época que se alistou e logo nos Comandos, para mostrar aos amigos que não tinha medo de ir à guerra.

A companhia que acompanhamos é levada ao extremo. Por desprezo e desejos superiores. Desprezo por oficiais que vêm do povo e os seus desejos de subirem na hierarquia, por resultados dos combates. Tornam-se animais de guerra. Já não respeitam ninguém. E o resultado? O que referi ao início. Quem aparece à frente é morto. Seja mulher, seja criança.

Este é um romance de guerra. A guerra brutal e sem rodriguinhos. A guerra que foi travada no mato entre soldados portugueses e os seus opositores. Entre as cúpulas mandantes e os que são mandados.

Imperdível a quem quer saber mais do período a que diz respeito.

O autor foi Comando e embora a obra seja um romance, não tenho a menor dúvida que os acontecimentos narrados neste livro, de uma forma ou de outra, aconteceram.

Do prefácio ‘…Nó Cego é o nosso Por Quem os Sinos Dobram’. (Rui de Azevedo Teixeira)

 

 

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