CARLOS MATOS GOMES E A LITERATURA DA GUERRA COLONIAL – por MANUEL SIMÕES

carlos de matos gomesEmbora a literatura da guerra colonial seja um “género” ainda com grande vitalidade, podemos já hoje avaliar – ainda que provisoriamente – qual o peso específico que o tema adquiriu na literatura portuguesa, a partir da data mítica do 25 de Abril de 1974, como libertação da palavra e como memória de um esquecimento, na realidade só aparente.

Diga-se, porém, que já nos anos 60 a poesia tinha assumido o tema da guerra como matéria de alguns dos melhores produtos literários: os textos de Fernando Assis Pacheco, Manuel Alegre, Fiama Hasse Pais Brandão, sobretudo, sem esquecer o romance de Álvaro Guerra, O Disfarce (1967), a primeira obra narrativa a confrontar-se com uma realidade, escamoteada pelo sistema, de modo francamente corajoso. É neste contexto que aparece a antologia poética Vietname (1970), com coordenação e prefácio de Carlos Loures e Manuel Simões, «um manifesto de repúdio e de repulsa pela guerra, por todas as guerras» em que o agressor pretende aniquilar o processo histórico decorrente, o que incluía, entre as linhas do texto, as guerras coloniais.

Mas é depois de 1974, como se compreende, que se inscreve plenamente na literatura portuguesa o tema da guerra colonial, então elevado a referente privilegiado na tentativa de remover a má consciência – uma espécie de inconsciente colectivo – e de restituir à ficção narrativa aquela parte de denúncia que a poesia tinha encontrado modo de efectuar já nos anos 60.

Limitando o campo de observação aos casos mais conhecidos, deve mencionar-se Fernando Assis Pacheco com o seu romance Walt (1978), provavelmente escrito algum tempo antes porque se trata ainda de uma obra mimetizada com a sobreposição narrativa: partida dos soldados americanos para o Vietname e análoga experiência vivida pelos soldados portugueses. António Lobo Antunes é um outro autor a mencionar, com os seus romances Memória de Elefante (1979), Os Cus de Judas (1980) e Conhecimento do Inferno (1980). Em 1981 Wanda Ramos publica o romance Percursos – do Luachimo ao Luena, que assinala a primeira voz feminina sobre o tema, enquanto João de Melo publica três narrativas sobre a experiência da guerra colonial, de que a mais significativa é talvez Autópsia de um mar de ruínas (1984).

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Do ano anterior (1983) é o primeiro romance de Carlos Vale Ferraz (pseudónimo de Carlos Matos Gomes), Nó Cego, mais tarde profundamente revisto pelo Autor (4.ª edição, 2008), tornando a narrativa mais fluente e com uma linguagem mais elaborada, isto é, esteticamente mais conseguida. O romance evidencia um saber experimentado da máquina da guerra e, ao mesmo tempo que narra o teatro das acções de uma Companhia de Comandos, em Moçambique, no final dos anos 60, tem igualmente a função documental no sentido de que, com ele, também se foi construindo a História.

Sendo, portanto, um testemunho importante dos anos da guerra colonial, Nó Cego foi justamente saudado pela frescura da escrita, capaz de “entusiasmar” o leitor pela opção estratégica de privilegiar os diálogos, ou seja, a narração, em detrimento de suspensões descritivas. Autor de outras obras significativas no âmbito da literatura da guerra colonial (Fala-me de África ou Os lobos não usam coleira, por exemplo), as suas ficções baseiam-se na dolorosa experiência e reúnem fragmentos da memória de uma guerra tão marcante no tecido social português que seria impossível não ter sido (e continuar a ser) adoptada como matéria literária.

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