Site icon A Viagem dos Argonautas

“ANJO E DUENDE”, de Federico García Lorca por Clara Castilho

 

A editora Assírio & Alvim reuniu numa antologia, intitulada de “Anjo e Duende, parte da prosa poética, dois textos escritos para conferências e cinco exemplares de um  exercício poético em diálogos criados por Frederico Garcia Lorca.

São textos que nos procuram levantar a ponta do véu sobre a dimensão humana, terna, frágil e angustiante, de um dos maiores poetas de sempre de língua castelhana. Neles podemos ver a obsessão do jovem escritor pela morte, assim como o amor pela cultura popular do seu país (os touros, o flamenco, os ciganos andaluzes e a sua ancestralidade oriental). Também  as suas relações de amizade com os artistas da “Geração de 27, que habitaram a mesma residência de estudantes em Madrid, ( Pepín BelloLuis Buñuel e Salvador Dalí).

Apresenta-se como sinopse do livro:

Com vinte e um anos de idade e farto dos provincianismos de Granada, o jovem Lorca mergulhou de corpo inteiro no turbilhão cultural de Madrid. Lia tudo, ouvia tudo, via tudo, tinha vizinhos de quarto tão invulgares como poderiam sê-lo Luis Buñuel e Salvador Dalí, mas não frequentava as aulas: divertia-se e divertia, e em papéis soltos as suas poesias começavam a encher-se com uma Andaluzia essencial, de morte cantada como mutilação trágica da vida, de touros e homens num abraço de agonia flamenca, de santos com suores e lágrimas de sangue, de santas com rendas e rostos de mulher nocturna, de ciganos em estado de inocência. Os anos de vida que lhe sobravam, dezassete, foram vividos com uma escrita que o manteve à volta deste mundo saído da Espanha profunda; celebrada nos seus poemas com tiques que insistiram em cavalos com espumas do mar, em jacintos e lírios, em jardins com nardos, basiliscos e cicutas onde vivia a sombra fria dos homens da Guarda Civil, em céus onde uma lua maléfica tinha seios de estanho duro; com metáforas até ali desconhecidas na poesia espanhola, por vezes armadilhadas quando pediam auxílio aos sentidos menos conhecidos de palavras vulgares para fazer subir mais um degrau à surpresa das imagens; lembrando-se, por exemplo, de paje para dizer «toucador», de madera para sugerir «talento», de tortuga para designar uma «lira romana», ou de pan para referir uma delgada «folha de ouro».

“Desde o ano de 1918, quando ingressei na Casa de Estudantes de Madri, até 1928, quando a abandonei, ao terminar meus estudos de Filosofia e Letras, ouvi naquele refinado salão, para onde acorria a velha aristocracia espanhola com o fim de corrigir sua frivolidade de praia francesa, cerca de mil conferências.

No desejo de ar e de sol, me aborreci tanto que, ao sair, me sentia coberto por uma leve cinza, quase a ponto de se transformar em pó-de-mico.

Não. Eu não gostaria que entrasse na sala essa terrível mosca do aborrecimento que costura todas as cabeças com um fio tênue de sono e põe nos olhos dos ouvintes pequenos tufos de pontas de alfinete.

De um modo simples, com o registro que em minha voz poética não tem luzes de madeiras, nem curvas de cicuta, nem ovelhas que subitamente são facas de ironias, vou procurar dar-lhes uma simples lição sobre o espírito oculto da dolorida Espanha. Quem encontra-se na pele de touro que se estende entre os Júcar, Guadalete, Sil ou Pisuerga (não quero citar as torrentes junto às ondas cor de juba de leão que agitam o Plata), ouve-se dizer com certa freqüência: “Este tem muito duende”. Manuel Torres, grande artista do povo andaluz, dizia a alguém que cantava: “Tu tens voz, conheces os estilos, mas jamais triunfarás, porque tu não tens duende”.

Em toda Andaluzia, rocha de Jaén e búzio de Cádiz, as pessoas falam constantemente do duende e o descobrem naquilo que sai com instinto eficaz. O maravilhoso cantador El Lebrijano, criador da Debla, dizia: “Nos dias em que canto com duende não há quem possa comigo”; a velha bailarina cigana La Malena exclamou um dia, ao ouvir Brailowsky tocar um fragmento de Bach: “Olé! Isso tem duende!”, e aborreceu-se com Glück, com Brahms e com Darius Milhaud. E Manuel Torres, o homem com maior cultura no sangue que conheci, disse, escutando o próprio Falla tocar seu Nocturno del Generalife, esta esplêndida frase: “Tudo o que tem sons negros tem duende”. E não há nada mais verdadeiro.

Esses sons negros são o mistério, as raízes que penetram no limo que todos conhecemos, que todos ignoramos, mas de onde nos chega o que é substancial em arte. Sons negros, disse o homem popular da Espanha, e coincidiu com Goethe, que define o duende ao falar de Paganini, dizendo: “Poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica”.

Assim pois o duende é um poder e não um obrar, é um lutar e não um pensar. Eu ouvi um velho violonista dizer: “O duende não está na garganta; o duende sobe por dentro a partir da planta dos pés”. Ou seja, não é uma questão de faculdade, mas de verdadeiro estilo vivo; ou seja, de sangue; ou seja, de velhíssima cultura, de criação em ato.” […]

 

 

Exit mobile version