CARTA DE BRAGA – “da prosperidade, da pobreza e do liberalismo” por António Oliveira
clara castilho
Mais uma Carta para estes dias, independentemente do que se passa no leste da Europa, que não é simples nem se pode pôr de lado, por se tratar da maior ameaça à paz deste século, talvez por causa dos artistas e megalómanos que nos ‘saíram nas rifas’ dos últimos anos – são as palavras mais soft que consigo escrever nesta sexta feira, 25 de Fevereiro – até por ‘Vladimir Putin pensar que está a fazer manobras no pátio traseiro da sua casa’ como escreveu um cronista num jornal de hoje.
Era um jovem oficial da KGB que viu ruir a URSS e, pegando apenas nas suas palavras, ‘Foi a maior catástrofe política do século XX’ pelo que a sua obsessão é apenas ‘Refazer, com luvas de ferro, o império russo, para o que se impôs controlar sem escrúpulos, as grandes empresas, a Duma, os meios de comunicação e os partidos da oposição’, disse, no dia seguinte, outro cronista.
Escreve também o jornalista e escritor John Carlin – dez minutos depois de começar invasão, Putin diz na televisão que o propósito era só ‘desnazificar’ a Ucrânia, cujo presidente, o democraticamente eleito Vilodimir Zelenski, é judeu e por isso, ‘O objectivo é defender a gente que foi vítima de abuso e genocídio pelo regime de Kiev’.
Ainda no sábado, um outro artista, o também megalómano trumpa penteada do outro lado do charco, afirmou alto e bom som, ‘Putin é um génio. Conquistou um país por dois dólares em sanções; um país inteiro com muitíssima gente. Eu diria que é uma pessoa muito esperta!’
Apesar de tudo e porque a vida continua por cá, mas –et pour cause– com gravíssima tendência para piorar, creio que deveríamos meditar sobre esta sentença: ‘Nenhuma sociedade pode ser feliz e próspera, se a maior parte dos seus cidadãos forem pobres e miseráveis’, por até e de algum modo, estar ligada a esta tragédia.
A sentença é do filósofo e economista britânico Adam Smith, que viveu no século XVIII, considerado por muitos o mais importante teórico do liberalismo económico. Parece dirigida aos liberais do mundo, deste, onde todos penamos agora, por já termos sido confrontados com a manutenção e aumento dos padrões de desigualdade, da impunidade e da corrupção, mais dolorosas e insuportáveis por fazerem os títulos da maioria dos órgãos de comunicação com uma regularidade espantosa, a mostrar como o império económico e, por arrasto, o cultural, só terem e nos darem, respostas egoístas e insolidárias.
Não é apenas a dramatização do que está a acontecer, pois a confrontação ideológica, a perda de confiança nas instituições, a crise da democracia representativa com o aparecimento de partidos reaccionários e revivalistas, a autocracia, o populismo e a negação da realidade, o abandono das regiões a mais de uma dezenas de quilómetros do litoral ou das grandes cidades, tanto por cá como na maioria dos países, mostrarem bem como a exclusão social é um quadro com que nos deparamos sempre que saímos de casa, seja qual for o sítio do nosso destino.
Como afirma Cândido Milan, professor e analista político, ‘No programa neoliberal há três ideias básicas: um estado forte para proteger o mercado, antepor as liberdades económicas às políticas, e o privado sempre mais eficiente e moralmente superior ao público’. Nunca esta situação foi discutida seriamente e não arranjamos nenhuma alternativa, mas recusá-la é notoriamente muito pouco.
Só um grande reforço democrático, demonstrando como os poderes económicos passarão a estar submetidos ao interesse comum e à prossecução de um plano europeu que ponha de lado os micro-escritórios das grandes empresas, criados e a operar fora dos países onde deveriam pagar impostos, acabar com os offshores onde se armazenam consciências e capitais, poderá abrir oportunidades aos excluídos do sistema e evitar a decadência para onde nos conduz o neoliberalismo.
Talvez valha a pena citar aqui o Papa Francisco, na abertura da Conferência da OIT, em Maio o ano passado, ‘Sempre a par do direito à propriedade privada está o princípio mais importante, que a precede: o princípio da subordinação de toda a propriedade privada ao destino universal de todos os bens da Terra. E, portanto, o direito de todos ao seu uso. Às vezes, quando falamos de propriedade privada, esquecemos que é um direito secundário, que depende deste direito primordial, que é o destino universal dos bens’.
Também o investigador e escritor bielorusso Evgeny Morozov criticou, não há muito tempo, toda esta situação, ‘O tabu que proibia Estados de gastar caiu. Para evitar, a todo custo, que se examinem as causas da tragédia, os ultrarricos e corporações buscam saídas “tecnológicas”. Vale tudo – excepto contestar a supremacia dos mercados sobre as sociedades’ .
Afirmação incluída no trabalho ‘Solucionismo, nova aposta das elites globais’, originado pelo debate sobre a resposta tecnológica para o covid-19, aparentemente sufocado, por não haver qualquer política solucionista no horizonte, publicado no blog ‘Outras palavras’, já em Abril de 2020.
A terminar esta Carta, até por a Economia estar muito longe de ser ‘a minha praia’, deixo dois aforismos de Eduardo Galeano (na sua própria língua), por também poderem ser a minha ‘voz’, uma linguagem que consigo entender, ‘Al fin y al cabo, somos lo que hacemos para cambiar lo que somos’ pelo que teremos de olhar em volta, para ver e saber de todos os que não conseguem falar, ‘Sólo los tontos creen que el silencio es un vacío. No está vacío nunca’.
Tudo porque, agora pegando nas palavras do padre e professor Anselmo Borges, no DN, de 12 de Fevereiro, ‘A autoridade do sofrimento dos humilhados, dos destroçados, de todos aqueles e aquelas a quem foi negada qualquer possibilidade é ineliminável. Trata-se de uma autoridade que nada nem ninguém pode apagar, a não ser que o sofrimento não passe de uma função, ou preço a pagar, para o triunfo de uma totalidade impessoal’, e meditemos sobre o drama diário da putinação televisada da Ucrânia. Talvez possa vir a assinalar o fim da ordem mundial determinada e marcada pelo liberalismo.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor