CARTA DE BRAGA – “das palavras e das imagens” por António Oliveira
clara castilho
Li, há já meia dúzia de dias, um artigo de Ruth Ferreo-Turrión professora de Ciências Políticas e Estudos Europeus da Complutense, ‘Esta guerra é imperial, que nunca teria acontecido sem o enriquecimento da classe política russa e se Clinton não se tivesse rido das bebedeiras de Yeltsin, ou se não tivéssemos ficado cegos perante o que sucedeu na Chechénia’.
Mas não deixa de salientar que Putin começou a invasão e é o único responsável pelo uso da violência e da destruição em terras ucranianas, ao mesmo tempo que Bruxelas e Washington, dizem que nunca pensaram que ele pudesse ir tão longe, a ver pelas imagens das televisões nacionais e internacionais.
E termina o artigo também com uma imagem curiosa, ‘Tudo recorda a cena do “Casablanca”, em que o comissário da polícia se escandaliza por se jogar num café fechado, o “Rick’s Café”, enquanto o proprietário vai recolhendo os seus benefícios’.
E, até por isto, diz a autora, ‘A simbiose entre milionários russo e ocidentais, era perfeita. Os dois lados obtinham fartos benefícios, enriqueciam e festejavam juntos. Não havia qualquer problema ideológico. Todos os actores envolvidos são híper-capitalistas e todos querem continuar a ter benefícios’
Talvez tudo possa ser explicado com mais dois comentários/imagem de dois cronistas de um jornal europeu. E diz o primeiro, ‘Niquita Kruschov, secretário do Partido Comunista da União Soviética, protagonizou com o presidente dos EUA John Kennedy, um dos episódios mais alarmantes da guerra fria, a crise dos misseis em Cuba no ano de 1962. Anos depois, Kruschov evocou aquele dramatismo e, acrescenta brincando -Se me tivessem assassinado a mim em vez de Kennedy, a maior diferença para a história seria que, provavelmente, Onassis não se teria casado com a minha viúva’-
O outro cronista refere também um facto curioso, ‘Uns anos depois e nas Nações Unidas, Kruschov dando golpes com o sapato na bancada, gritava “Vamos enterrar-vos” e, o fleumático primeiro ministro britânico Harold MacMillan, pediu a palavra ao presidente da Assembleia Geral, -Se ele continuar a falar com os sapatos, peço um tradutor’.
Só que estas afirmações, aparentemente cavalheirescas, foram agora ultrapassadas por uma brutalidade terrível na invasão da Ucrânia, também já antecedida por outras similares noutros lugares do planeta, qualquer delas precedida por declarações que tanto podiam servir de aviso, como por declarações megalómanas que em nada favoreceram os seus autores, antes fizeram recear todos os que se tentaram opor.
Aliás, Jean Baudrillard em ‘A transparência do mal’, já falava desta situação, dando a entender que ao longo dos tempos, sempre houve homens que perseguiram incessantemente a destruição, enquanto outros lutavam pela inovação e pelo progresso da sociedade.
O maior dos problemas que, neste momento, rodeiam esta questão, talvez seja perceber se é entre a Rússia e a Ucrânia, ou será entre o que resta da União Soviética e os Estados Unidos, assunto alimentado por comparsas menores, mas com um assistente de luxo, Xi Jinping, o presidente da China, disposto a lucrar nos dois lados do tabuleiro, até porque, diz Manuel Castells, ‘Arrisca a estabilidade da economia mundial e por isso a sua prosperidade, para afirmar o domínio sobre Tawain, apesar da interpenetração das suas economias’.
E, como comentava o saudoso Eduardo Galeano, ‘A sombra do medo morde os calcanhares do mundo, que anda que anda, aos tombos, por medo de perder: perder o trabalho, perder o dinheiro, perder a comida, perder a casa, perder; não há exorcismo capaz de proteger da súbita maldição do azar. Até um grande ganhador, eventualmente, se pode transformar em vencido, um fracassado indigno de perdão ou compaixão’.
Até porque ‘O tiro saiu pela culatra a Vladimir Putin. É impossível haver uma saída feliz, mesmo que amanhã Kiev se renda, porque vai ter de manter forças de ocupação num país com 44 milhões de habitantes, agora todos unidos contra os russos’, afirma o escritor e jornalista John Carlin, por ter sido ele a começar uma guerra que ninguém queria nem pediu.
Isto também pode configurar o nó górdio da questão: talvez o medo de que o objectivo de Putin não se fique apenas pela Ucrânia, mas sim pela Europa, a que não existe sem os states, mas que é uma realidade bem próxima, pelas suas democracias, por usarem e propagarem, tanto a palavra como o conceito de liberdade, por muito utópicos e imperfeitos que sejam, mas cujas imagens acabam a ‘encharcar’ tudo quanto é ecrã, grande ou pequeno.
Volto ainda a Eduardo Galeano para deixar uma série de perguntas, porventura resposta às palavras iniciais, ‘Até quando a paz no mundo, estará nas mãos dos que fazem o negócio da guerra? Até quando continuaremos a acreditar que nascemos para o extermínio mútuo? E que este extermínio mútuo seja o nosso destino? Até quando?’
E, a propósito, lembro-me de ter lido também, uma afirmação a um órgão de comunicação, do editor do ‘El Quijote’, Francisco Rico, ‘À fundura das palavras nunca chegam as imagens’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor