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CARTA DE BRAGA – “de eleições e de Abril” por António Oliveira

O que estamos actualmente vivendo e sofrendo, não é apenas uma borbulhagem fugaz, destinada a passar como tantas coisas passam, sem deixar sinal; é, muito pelo contrário, uma época de transição, uma ponte de passagem entre aquilo que desaparece e o que vai surgir. E nessa ponte de passagem chocam-se todas as correntes, coexistem todas as contradições, fazendo dela aparentemente uma feira de desvarios e, na realidade, um formidável laboratório de vida’.

Esta palavras pertencem Bento de Jesus Caraça, filho de um feitor a quem a patroa ajudou para ele conseguir estudar, e acabou por se transformar num expoente da Matemática em Portugal e na Europa, também presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática e, em 1945 e ao mesmo tempo, participa na comissão executiva do MUD –Movimento de Unidade Democrática– o que o leva a ser expulso da carreira universitária e proibido de exercer a docência.

Também fundou a Biblioteca Cosmos e editou centenas de livros de divulgação científica, colaborou com as revistas ‘Seara Nova’, ‘Vértice’ e fundou o ‘Jornal Globo’ depois fechado pela censura, e marcou uma época no ensino, especialmente por ser naqueles tempos, de controlo férreo sobre tudo o que pudesse significar ‘Liberdade’.

Mas aquelas palavras têm hoje pleno cabimento, tanto mais que, escreve Guilherme de Oliveira Martins no ‘DN’ de 5 de Março, ‘A cidadania é um compromisso permanente e o serviço público é muito mais do que a acção do Estado, exigindo a participação no espaço público como afirmação da sociedade civil. Essa a marca de democracia, como sistema de valores e como demonstração da participação cidadã ativa e responsável, assente na liberdade igual e na igualdade livre’.

Uma situação que também assume particular importância porque amanhã, domingo dia 24, se realiza a segunda volta das eleições presidenciais em França, entre um Macron da ‘direitinha’ liberal e uma Le Pen da ‘direitona’ pura e dura, afastados que foram os gaulistas originários, da associação liberal-conservadores, o que resta dos socialistas, todos eventuais alternativas a um progressismo tremente, que nem o terceiro lugar de Melenchon consegue disfarçar. 

Já vai longe o tempo em que o francês era a língua da cultura e, só tive a confirmação de que isso era verdade, quando o arguente de uma tese que eu tinha de defender, teve o ‘cuidado’ de me dizer,  com a maior tranquilidade, ‘Gilles Deleuze, Michel Foucault e Derrida não percebem nada de comunicação’, quando os três pensadores eram o sustentáculo de parte importante daquela tese.

Agora, alguns e bons anos depois, sou obrigado a subscrever o que escreve Luís Castro Mendes no ‘DN’ de 22 de Fevereiro, ‘A minha geração passou de um tempo em que a cultura e o espírito falavam ainda francês, para um ambiente em que a língua francesa é tida por uma esquisitice que ninguém partilha e em que muitos consideram, sem sequer os ler, que nenhum dos escritores franceses do presente merece o nosso tempo e a nossa paciência’.

Mas aquela França onde corremos o risco de ver a Le Pen no lugar cimeiro, também contribuiu para deixar de ser o laboratório político da Europa, com os franceses cada vez mais a ‘olhar para dentro’ e um nacional populismo em crescimento, ao mesmo tempo que direita conservadora desaparece e a esquerda é já e só, uma recordação, mesmo tendo em atenção as manifestações anti extrema-direita que se verificaram nos últimos tempos. 

Vivemos muitos anos na crença de que as consequências destruidoras das duas guerras mundiais, mais as das duas bombas atómicas lançadas pelos Estados Unidos no Japão, seriam o suficiente para deixar na consciência dos povos deste planeta, a recusa definitiva das guerras e a negação de quem as usa para cimentar poder e domínio. 

Talvez tenha sido verdade enquanto viveram as testemunhas de tais factos, os filhos e talvez os seus netos, mas com a lenta desaparição das Humanidades e a consequente ignorância histórica, preenchida pela ‘sabedoria’ do dr. Google e pela acção dos sectores mais reaccionários e poderosos, para ‘alisar e normalizar’ tudo, abater valores e apelar a um passado lendário e mítico, a querer resolver problemas hodiernos, temo bem que as calamidades passadas não sirvam para nada!

Com este panorama, a maioria das pessoas sente-se impotente frente à opacidade dos poderes destrutivos e, diz Manuel Castells, ‘Assim e, devido a tudo isto, o melhor é esquecer e buscar consolo, com panem et circenses”, como no tempo da Roma imperial ou, mais vulgarmente, um copo de cerveja e umas tapas’ porque, a propósito, e evocando o filósofo Ortega y Gasset da ‘A rebelião das massas’, referindo a falta de consciência geral sobre os problemas diários em tempos de crise, ‘No sabemos lo que nos passa, y eso es precisamente lo que nos pasa’.

E, depois de amanhã, o que passou e passa, é Abril!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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