CARTA DE BRAGA – “de deuses e mudanças” por António Oliveira

Se conseguíssemos andar para trás e aprender com os antigos deuses e guias dos gregos ou dos romanos, onde nos inspirámos também, destacávamos um deles simpático e bonacheirão, o deus Jano, adorado em Roma, mas talvez de origem indo-europeia, com dois rostos contrapostos, como se um deles estivesse a olhar o passado e o outro a olhar o futuro. Fizeram de Jano o deus das transições, da mudança, do momento da transformação, o deus que tutelava as portas e permitia a passagem do interior para o exterior, ou em sentido contrário. 

Dele nasceu também o nome do mês de Janeiro –Janua, Januarius-, para que fossem boas as iniciativas, as novas leis e todas as disposições administrativas, bem como para orientar as pequenas prendas que no solstício de Inverno lhe ofertavam para pedir protecção para o novo ano solar; também dirigia os nascimentos, os dos deuses, do cosmos, os dos homens e das sua acções. 

Este parece ser um desses momentos de transição em que, afirma um colunista europeu, ‘A pergunta que todos nos fazemos agora, é se será melhor continuar em sociedades confrontadas internamente, ou abandonar-se nos braços de salva-pátrias e populistas que nos prometem paraísos inexistentes’. Acrescenta ainda o cronista ‘É muito importante para o modo de vida ocidental, que Donald Trump não volte a ser presidente americano’.

E que poderemos dizer do boçalnaro e de todos os outros salva-pátrias que estes tempos nos fornecem à pazada, até porque, de acordo com as palavras do poeta Luís Castro Mendes, numa das suas crónicas no DN, ‘O Estado Social ou de Bem Estar é alvo, desde os anos 80 do século passado, da tentativa perseverante, e em muitos pontos conseguida, da sua imolação nos altares da religião neoliberal. Esse propósito coerente e constante, tem contribuído para fazer crescer um profundo descontentamento social, que cria as melhores condições para as aventuras da extrema direita.

Deve juntar-se a este panorama, já de si tão ‘apelativo’, o desinvestimento que tem sido feito na educação e cultura, principalmente no domínio das Humanidades, da História e da Filosofia, que deu origem a um comentário do filósofo francês Giles Lipovetski, em Janeiro último, Uma sociedade cujos eixos exclusivos são os ecrãs, o trabalho e a protecção social, é deprimente. Há que investir na educação. Um dos maiores fracassos nas sociedades ocidentais do pós-guerra, foi a democratização da cultura’.

Na verdade, como poderá ser constatado por um qualquer curioso, ‘Há, na sociedade, uma profunda falta de conhecimento, sensibilidade e apreço às condições da conivência política, das suas possibilidades e limites’ de acordo com o também filósofo Daniel Innerarity, até porque vivemos numa democracia em que o final das disputas políticas não se resolve em termos de conhecimento, mas pela contagem de votos.

É uma enorme contradição porque, nestes tempos de transformação e mudanças, a ver até pelas palavras do enorme poeta que foi Jorge Luis Borges, ‘Todos caminhamos para o anonimato, só que os medíocres chegam um pouco antes’. 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 
 
 
 
 
 
 

2 Comments

  1. Caro António. não posso estar mais de acordo, “o desinvestimento que tem sido feito na educação e cultura, principalmente no domínio das Humanidades, da História e da Filosofia” reflete-se e muito numa “profunda falta de conhecimento, sensibilidade e apreço às condições da conivência política, das suas possibilidades e limites”. Eu diria mesmo profunda falta de conhecimento em geral e a falta de perspetiva, com uma fobia pelo imediatismo .Já agora permite-me acrescentar ao rol das Humanidades a Economia. A economia é política, por isso se designa por Economia Política. E é uma ciência social, não é uma ciência exata como muitos querem fazer crer. O recurso ou utilização de métricas matemáticas é tão só um auxiliar de uma ciência que sobretudo trata e incide sobre a vida em sociedade.

    1. Concordo com tudo caro Francisco, mas a Economia não é a minha praia. Vou lendo o que posso, guardando o que mais me ‘toca’ para poder usar depois, mas sabendo muito bem como alguns ‘iluminados’ a querem transformar numa espécie de feitiçaria só para magos. De qualquer maneira, agradeço o comentário, pelo ânimo que transmite e pela vontade de tentar que as minhas Cartas, às vezes mais banais, não deixem de suscitar opiniões, mesmo que em sentido contrário, por a polémica também ser uma benção, e como se ‘praticava’ antigamente. Um abraço. A.O.

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