Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Os grossos silêncios de Jair Bolsonaro
O vice-presidente felicitou o vice-presidente eleito de Lula, e o resto foi ausência. Aqueles que votaram esperaram em vão por uma palavra do perdedor ultra-direitista, que se calou.
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Desde São Paulo – A epopeia bolsonarista é por agora apenas uma combinação de silêncio e cortes de estradas. O Brasil estava à espera de palavras que não vieram – pelo menos até segunda-feira 31 – do seu ainda presidente. O seu entorno político mais próximo está a pedir-lhe que fale. Mas a única reacção oficial do poder executivo ao resultado da eleição veio através do seu vice-presidente, o militar Hamilton Mourão. Sem se poder confirmar se agiu per se ou a mando do seu chefe político, o general reformado enviou uma mensagem ao vice de Lula, o médico Geraldo Alckmin. Foi uma mensagem muito formal que consistiu em felicitações e na sua disposição de contribuir para a transição para a mudança de governo. Também um dos filhos de Bolsonaro, Flavio, escreveu um tuit a agradecer àqueles “que rezaram” e despediu-se com um “Dios a cargo”. Não houve mais nada.
A narrativa de confronto do presidente em quatro anos no cargo deu lugar ao silêncio. Embora não dê sinais, um protesto de apoiantes fanáticos, uma mistura de camionistas, empresários do agronegócio e comerciantes, está a bloquear estradas e auto-estradas em algumas regiões do país. Por agora a situação não se agravou, mas é uma ameaça concreta à passagem de pessoas e bens entre vários dos centros nevrálgicos do país.
A PRF, a Polícia Rodoviária Federal, levou algum tempo a agir. A sua atitude parece ser muito mais flexível do que no dia das eleições, quando parou dezenas de autocarros com apoiantes do PT e seus aliados no seu caminho para votar no Nordeste.
Os primeiros efeitos após a vitória de Lula superam a queda inicial na bolsa – que mais tarde se recuperou – e a incerteza geral nos mercados sobre as medidas que ele irá tomar a partir de 1 de Janeiro. Mas as consequências dos bloqueios de estradas são mais imprevisíveis, embora estas acções se limitem a Estados com uma forte presença da extrema-direita brasileira. No sul, sudoeste e sudeste.
A mensagem de Mourão a Alckmin, um general opaco mas mais discreto e inteligente que o seu companheiro de candidatura nas eleições de 2018, foi seguida de um reconhecimento implícito da derrota nas redes sociais escrito por Flavio Bolsonaro, o coordenador da campanha presidencial do seu pai. “Obrigado a todos aqueles que nos ajudaram a resgatar o patriotismo, que rezaram, rezaram, tomaram as ruas, deram o seu suor pelo país que está a trabalhar e deram a Bolsonaro o maior voto da sua vida! Levantemos a cabeça e não desistamos do nosso Brasil! Deus no comando”, expressou no Twitter com o tom de sermão religioso que o clã familiar costuma usar nas suas intervenções públicas. Os seus irmãos Carlos e Eduardo, que ocupam diferentes cargos políticos, não difundiram o que pensam sobre a vitória de Lula.
O site de notícias UOL informou que o chamado Centrão – uma aliança de pequenos partidos de direita – e alguns ministros tinham tentado convencer o presidente a reconhecer a decisão do povo brasileiro, que lhe disse para regressar à sua casa na Barra da Tijuca. Um dos membros do seu gabinete, citado pela comunicação social, disse: “Bolsonaro precisa de agir em duas frentes. Precisa de cuidar pessoalmente de si próprio e dos seus filhos, que estão sob investigação. E do seu grupo político, que, apesar de derrotado, emergiu com força das eleições deste ano, ganhando o principal estado do país, São Paulo”.
Mas não houve nenhum caso. Bolsonaro nunca abandonou o silêncio, embora houvesse vozes que se faziam ouvir por ele e que não ocupam posições governamentais. Foram os que passaram à ação em várias auto-estradas do país quando decidiram cortá-las e deixar isoladas várias cidades do sudeste, centro-oeste e sul do Brasil. Nos piquetes onde os camionistas, empresários do agronegócio e comerciantes exerciam pressão, não havia uma táctica uniforme, embora houvesse o mesmo caminho de agitação que começou através das redes sociais.
A convocatória inicial veio de Telegram, espalhou-se para o Whatsapp e foi viral ao ponto de convocar pessoas para diferentes rotas do país. A mensagem dizia: “Atenção, juntem-se aos grupos nos vossos respectivos estados e organizem os vossos comícios. Primeiro nas estradas, depois nas estradas de acesso e finalmente nos centros das cidades. O prazo para a acção das forças armadas é de 72 horas. Não temos políticos, partidos ou financiamento. Nós somos o povo. Não seremos ultrajados na nossa pátria. Comunismo aqui, não. Lista de grupos de Telegram“. O texto veio do estado do Paraná, um dos três estados do sul, onde os bloqueios de estradas não passaram despercebidos nos meios de comunicação social nacionais.
O slogan era “Já” e correu ao longo de várias das principais estradas do Brasil, embora encontrasse resistência a partir da sua própria base. Wallace Landim, conhecido como Chorão, presidente da Associação Brasileira de Condutores de Automóveis (ABRAVA), deu a conhecer a sua posição contra as medidas através de um vídeo: “Estou aqui hoje para falar com o nosso segmento do sector dos transportes. Estamos a atravessar um período muito difícil. Há muitas pessoas que me telefonam, perguntando sobre a paralisação, com alguns pontos nas estradas já parados neste país. Quero vir aqui, através da ABRAVA, para reconhecer a eleição, a democracia, para felicitar o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela sua vitória“.
As suas palavras tinham uma certa legitimidade. É o homem que em 2018 tinha cortado estradas para reivindicações sectoriais que coincidiam com as exigências do eleitorado rural e dos transportes que apoiavam o então candidato presidencial Bolsonaro. “Este não é o momento de parar o país. Isto é Democracia. Um abraço a todos“, terminou este dirigente que se afastou assim das ações de protesto. Uma medida que ameaçava cortar a conectividade de um imenso país onde o bolsonarismo resiste à vontade eleitoral que foi expressa nas urnas.
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O autor: Gustavo Veiga [1957-] é um jornalista e escritor argentino e é redator em Página 12 e professor universitário na Universidade de Buenos Aires. É autor de “Donde manda la patota” (barrabravas, poder y política) (1998); “Fútbol limpio, negocios turbios” (2002); “Deporte, Desaparecidos y Dictadura” (2006); “La vuelta al fútbol en 50 historias” (2018). Em co-autoria: “Violencia y Medios de Comunicación 3” (2007); “La hinchada te saluda jubilosa” (2007); “Osvaldo Bayer, por otras voces” (2011); “Los clubes como asociaciones civiles. Una mirada desde la Economía Social y Solidaria” (2020); “Deporte y sociedad civil en tiempos de dictadura” (2020); “Tu grato nombre” (2022). (para mais detalhe, ver aqui)

