CARTA DE BRAGA – “da sobrevivência e da cultura” por António Oliveira
clara castilho
A Carta de hoje tem por base uma afirmação do filósofo basco Daniel Innerarity, ‘Se a teoria clássica do contrato social implicava uma aceitação da autoridade para impedir o caos e a guerra de todos contra todos, o actual contrato social pede uma autolimitação da liberdade pessoal, para assegurar a sobrevivência da humanidade neste planeta’, afirmação feita num dos artigos que vai deixando nalguns jornais daqui ao lado.
É uma verdade absoluta que o mundo de hoje parece estar virado para resultados imediatos, para um curto prazo castrador a impedir a análise e a racionalidade do estudo de todos os componentes, até os externos a qualquer problema, como a maioria das questões com que nos defrontamos nestes dias demonstra à saciedade e, acrescenta Innerarity, ‘a racionalidade cooperativa’ pode contribuir para encontrar a solução para tudo o que tenha começado apenas como processo de negociação interessada.
Um problema que hoje se reveste da maior acuidade, até porque a desigualdade impera no planeta, milhões de pessoas movem-se à procura de sobreviver, e ‘milhões’ encobrem-se –para não prestar contas a ninguém, de como se conseguiu, de como se aumentou, porque se escondem– e, diz Luís Castro Mendes, numa das suas crónicas no DN, ‘Um grande amigo meu dizia, “Chateia-me estar sequestrado”. Estamos sequestrados pelos bancos e pelos seus lucros excessivos, pelos gestores e pelas suas indemnizações excessivas, e cá vamos empobrecendo, a ouvi-los dizer, ainda por cima, que nos falta respeito pelo capital…’
Mas também ouvi dizer, há já alguns dias, a um amigo meu, já entradote, ‘Até sofro, e muito, de um “síndrome de pobre”!’, quando se falava destas coisas e dos problemas do SNS, agora bem presentes em tudo o que é comunicação.
Para Manuel Sobrinho Simões, investigador e professor universitário, talvez o patologista mais influente deste mundo, como foi reconhecido pela revista ‘The Pathologist’, também em entrevista ao DN, ‘Reconheço que não é fácil ligar o “excesso” de pobreza e o “excesso” de longevidade com a “escassez” de trabalho, enquanto vértices de um triângulo, mas penso que existe uma base comum. A sociedade portuguesa está cada vez mais assimétrica, com crescentes níveis de pobreza’.
Assimetrias várias, potenciadas pela chegada de emigrantes –e necessitamos de uma “chegada” anual de 172.000emigrantes até 2050!–, para manter o ratio entre população em idade laboral e os maiores de 65 anos, de acordo com os dados do Departamento de População das Nações Unidas, (UNDESA), divulgados já em 2020.
Sobrinho Simões talvez tenha também uma explicação para este facto, ‘A perda “do” trabalho estende-se desde o trabalho braçal (este cada vez mais realizado por imigrantes) às profissões mais ou menos intelectuais, inseridas num sistema com baixa recompensa salarial, além de outros tipos de recompensa também enfraquecidos: carreiras desleixadas, sobrecarga de impostos, prestígio diminuído. E estas limitações ocorrem num contexto generalizado de informalidade/corrupção que aumentam, e muito, a fragilidade da sociedade’.
Está bem claro que tudo isto nos obriga a ver, a estudar e a aprender ‘Até que ponto os nossos destinos estão comprometidos com algo comum que amplia e limita a nossa liberdade’, diz ainda Innerarity, de algum modo de acordo com o já centenário sociólogo francês Edgar Morin, ao afirmar que para se compreender aquilo a que ele chama ‘a crise da humanidade’, devemos ter em atenção que ‘A série de crises que estamos a viver é a ambiguidade da globalização: por um lado, se os problemas contemporâneos agora são globais, por outro, as nações nunca antes foram tão interligadas numa mesma comunidade de destino’.
E, depois de tais sábios ter chamado para esta Carta, não ficaria bem, comigo mesmo sem avocar a afirmação de um outro ‘sábio’, mas da vida e da política, o ex-presidente uruguaio, José Mujica, feita ao diário ‘El País’ já em Novembro último, referindo a cultura, como uma constante dos seus discursos, ‘A cultura é o conjunto de conhecimentos que nos ensina a captar as chaves fundamentais do que nos rodeia e da existência, que fazem a vida. Respeitá-las é integrarmos esse mundo, não nos sentirmos alheios. É uma necessidade latente, um bem não material que nos ajuda a viver. É o amor à vida’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor