Site icon A Viagem dos Argonautas

OS EUA DEVERIAM SER UMA FORÇA PARA A PAZ NO MUNDO – por DENNIS FRITZ, MATTHEW HOH, WILLIAM J. ASTORE, KAREN KWIATKOWSKI, DENNIS LAICH, DENNIS LAICH, TODD E. PIERCE, COLEEN ROWLEY, JEFFREY SACHS, CHRISTIAN SORENSEN, CHUCK SPINNEY, WINSLOW WHEELER, LAWRENCE B. WILKERSON e ANN WRIGHT

 

Eisenhower Media Network, 16 de Maio de 2023

Selecção de Thomas Palley e Júlio Marques Mota 

Tradução de Júlio Marques Mota

 

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia tem sido um desastre absoluto. Centenas de milhares de pessoas foram mortas ou feridas. Milhões de pessoas foram deslocadas. A destruição ambiental e económica foi incalculável. A devastação futura poderá ser exponencialmente maior à medida que as potências nucleares se aproximam cada vez mais de uma guerra aberta.

Deploramos a violência, os crimes de guerra, os ataques indiscriminados com mísseis, o terrorismo e outras atrocidades que fazem parte desta guerra. A solução para esta violência chocante não é mais armas ou mais guerra, com a garantia de mais morte e destruição.

Como americanos e especialistas em segurança nacional, instamos o Presidente Biden e o Congresso a usarem todos os seus poderes para pôr rapidamente fim à Guerra Rússia-Ucrânia através da diplomacia, especialmente tendo em conta os graves perigos de uma escalada militar que pode ficar fora de controlo.

Há sessenta anos, o Presidente John F. Kennedy fez uma observação que é crucial para a nossa sobrevivência hoje em dia. “Acima de tudo, enquanto defendemos os nossos próprios interesses vitais, as potências nucleares devem evitar os confrontos que levem o adversário a escolher entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear. Adoptar esse tipo de atitude na era nuclear seria apenas uma prova da falência da nossa política – ou de um desejo coletivo de morte para o mundo.”

A causa imediata desta guerra desastrosa na Ucrânia é a invasão pela Rússia. No entanto, os planos e as acções para expandir a NATO até às fronteiras da Rússia serviram para provocar os receios russos. E os líderes russos defenderam este ponto de vista durante 30 anos. O fracasso da diplomacia levou à guerra. Agora, a diplomacia é urgentemente necessária para acabar com a guerra Rússia-Ucrânia antes que destrua a Ucrânia e ponha em perigo a humanidade.

 O potencial para a paz

A actual ansiedade geopolítica da Rússia é alimentada por memórias de invasões de Carlos XII, Napoleão, o Kaiser e Hitler. As tropas americanas faziam parte de uma força de invasão aliada que interveio sem sucesso contra o lado vencedor na guerra civil russa do pós-Primeira Guerra Mundial. A Rússia vê o alargamento e a presença da NATO nas suas fronteiras como uma ameaça direta; os EUA e a NATO veem-nos  apenas como uma preparação prudente. Na diplomacia, devemos tentar ver com empatia estratégica, procurando compreender os nossos adversários. Isto não é fraqueza: é sabedoria.

Rejeitamos a ideia de que os diplomatas, que procuram a paz, têm de escolher lados, neste caso a Rússia ou a Ucrânia. Ao favorecer a diplomacia, escolhemos o lado da sanidade. Da humanidade. Da paz.

Consideramos que a promessa do Presidente Biden de apoiar a Ucrânia “o tempo que for preciso” é uma licença para perseguir objetivos mal definidos e, em última análise, inatingíveis. Pode revelar-se tão catastrófica como a decisão do Presidente Putin, no ano passado, de lançar a sua invasão e ocupação criminosas. Não podemos e não vamos apoiar a estratégia de lutar contra a Rússia até ao último ucraniano.

Defendemos um empenhamento significativo e genuíno na diplomacia, especificamente um cessar-fogo imediato e negociações sem quaisquer condições prévias, desqualificantes ou proibitivas. As provocações deliberadas deram origem à guerra Rússia-Ucrânia. Da mesma forma, a diplomacia deliberada pode pôr-lhe termo.

As ações dos EUA e a invasão da Ucrânia pela Rússia

Quando a União Soviética entrou em colapso e a Guerra Fria terminou, os líderes dos EUA e da Europa Ocidental garantiram aos líderes soviéticos e russos que a NATO não se expandiria para as fronteiras da Rússia. O Secretário de Estado dos EUA, James Baker, disse ao líder soviético Mikhail Gorbachev em 9 de Fevereiro de 1990: “Não haverá extensão da… NATO nem um centímetro para leste“. Garantias semelhantes de outros líderes americanos, bem como de líderes britânicos, alemães e franceses, ao longo dos anos noventa, confirmam este facto.

Desde 2007, a Rússia tem avisado repetidamente que as forças armadas da NATO nas fronteiras russas eram intoleráveis – tal como as forças russas no México ou no Canadá seriam intoleráveis para os EUA agora, ou como eram os mísseis soviéticos em Cuba em 1962. A Rússia também apontou a expansão da NATO para a Ucrânia como especialmente provocadora.

Ver a guerra através dos olhos da Rússia

A nossa tentativa de compreender a perspetiva russa sobre a sua guerra não apoia a invasão e a ocupação, nem implica que os russos não tivessem outra opção senão esta guerra.

No entanto, tal como a Rússia tinha outras opções, também os EUA e a NATO tiveram outras opções até este momento.

Os russos deixaram bem claras as suas linhas vermelhas. Na Geórgia e na Síria, provaram que usariam a força para defender essas linhas. Em 2014, a tomada imediata da Crimeia e o apoio aos separatistas do Donbas demonstraram que estavam seriamente empenhados em defender os seus interesses. A razão pela qual isto não foi compreendido pelos líderes dos EUA e da NATO não é clara; incompetência, arrogância, cinismo ou uma mistura traiçoeira dos três fatores são fatores que provavelmente contribuíram para isso.

Mais uma vez, mesmo com o fim da Guerra Fria, diplomatas, generais e políticos americanos alertavam para os perigos da expansão da NATO até às fronteiras da Rússia e da interferência maliciosa na esfera de influência da Rússia. Os antigos responsáveis do Gabinete Robert Gates e William Perry lançaram estes avisos, tal como os muito respeitados diplomatas George Kennan, Jack Matlock e Henry Kissinger. Em 1997, cinquenta peritos de topo em política externa dos EUA escreveram uma carta aberta ao Presidente Bill Clinton aconselhando-o a não expandir a NATO, chamando-lhe “um erro político de proporções históricas”. O Presidente Clinton optou por ignorar estes avisos.

Mais importante para a nossa compreensão da arrogância e do cálculo maquiavélico na tomada de decisões pelos EUA em torno da Guerra Rússia-Ucrânia é a rejeição dos avisos emitidos por Williams Burns, o atual diretor da Agência Central de Inteligência. Num telegrama enviado à Secretária de Estado Condoleezza Rice em 2008, quando era Embaixador na Rússia, Burns escreveu sobre a expansão da NATO e a adesão da Ucrânia[1]:

“As aspirações da Ucrânia e da Geórgia de integrarem a NATO não só são muito sensíveis para a Rússia, como suscitam sérias preocupações quanto às consequências para a estabilidade na região. A Rússia não só se apercebe do cerco e dos esforços para minar a influência da Rússia na região, como também receia consequências imprevisíveis e descontroladas que afetariam seriamente os interesses de segurança russos. Os especialistas dizem-nos que a Rússia está particularmente preocupada com o facto de as fortes divisões na Ucrânia sobre a adesão à NATO, com grande parte da comunidade étnica russa contra a adesão, poderem levar a uma grande divisão, envolvendo violência ou, na pior das hipóteses, guerra civil. Nessa eventualidade, a Rússia teria de decidir se interviria; uma decisão que a Rússia não quer ter de enfrentar.”

Porque é que os Estados Unidos persistiram na expansão da NATO apesar de tais avisos? O lucro com a venda de armas foi um fator importante. Perante a oposição à expansão da NATO, um grupo de neoconservadores e de executivos de topo dos fabricantes de armas dos EUA formou o U.S. Committee to Expand NATO. Entre 1996 e 1998, os maiores fabricantes de armas gastaram 51 milhões de dólares (94 milhões atualmente) em lobbies e mais outros milhões em contribuições para campanhas eleitorais. Com esta generosidade, a expansão da NATO tornou-se rapidamente um negócio fechado, após o que os fabricantes de armas dos EUA venderam milhares de milhões de dólares em armas aos novos membros da NATO..

Até agora, os EUA enviaram 30 mil milhões de dólares em equipamento militar e armas para a Ucrânia, com uma ajuda total à Ucrânia superior a 100 mil milhões de dólares. A guerra, já se disse, é um negócio altamente lucrativo para uns poucos selecionados.

A expansão da NATO é, em suma, uma característica essencial da política externa militarizada dos EUA, caracterizada pelo unilateralismo, com mudanças de regime e guerras preventivas. As guerras fracassadas, mais recentemente no Iraque e no Afeganistão, produziram massacres e mais confrontos, uma dura realidade criada pelos próprios Estados Unidos. A guerra Rússia-Ucrânia abriu uma nova arena de confrontos e massacres. Esta realidade não é inteiramente da nossa autoria, mas pode muito bem ser a nossa ruína, a menos que nos dediquemos a forjar um acordo diplomático que ponha fim à matança e desanuvie as tensões.

Façamos da América uma força de paz no mundo.

Leia mais em: www.EisenhowerMediaNetwork.org

[1] Informação já não disponível na Internet como o leitor pode confirmar. Penso que não será por acaso.

Assinado por:

Dennis Fritz, Director, Eisenhower Media Network; Command Chief Master Sergeant, US Air Force (retired)
Matthew Hoh, Associate Director, Eisenhower Media Network; Former Marine Corps officer, and State and Defense official.
William J. Astore, Lieutenant Colonel, US Air Force (retired)
Karen Kwiatkowski, Lieutenant Colonel, US Air Force (retired)
Dennis Laich, Major General, US Army (retired)
Jack Matlock, U.S. Ambassador to the U.S.S.R., 1987-91; author of Reagan and Gorbachev: How the Cold War Ended
Todd E. Pierce, Major, Judge Advocate, U.S. Army (retired)
Coleen Rowley, Special Agent, FBI (retired)
Jeffrey Sachs, University Professor at Columbia University
Christian Sorensen, Former Arabic linguist, US Air Force
Chuck Spinney, Retired Engineer/Analyst, Office of Secretary of Defense
Winslow Wheeler, National security adviser to four Republican and Democratic US
Lawrence B. Wilkerson, Colonel, US Army (retired)
Ann Wright, Colonel, US Army (retired) and former US diplomat


Para ler este texto no original clique em:

Russia-Ukraine War: The U.S. Should Be a Force for Peace – Eisenhower Media Network

Exit mobile version