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A Guerra na Ucrânia — Os capitalistas, quais abutres, pairam sobre a Ucrânia, por Thomas Fazi

Seleção e tradução de Francisco Tavares

6 min de leitura

Os capitalistas, quais abutres, pairam sobre a Ucrânia

 Por Thomas Fazi

Publicado por  em 5 de Julho de 2023 (original aqui)

 

Zelenskyy em Davos. Fabrice Coffrini/AFP/Getty

Há duas semanas, milhares de representantes de empresas e governos de todo o mundo reuniram-se em Londres para “apoiar a recuperação da Ucrânia”. Mas será que a reunião de todas essas elites empresariais ocidentais na Conferência de Recuperação da Ucrânia foi inteiramente altruísta? Afinal de contas, a guerra está a criar enormes oportunidades de lucro.

No ano passado, o governo ucraniano subcontratou todo o processo de “reconstrução” do pós-guerra à BlackRock, a maior empresa de gestão de activos do mundo. Assinaram um acordo para “prestar apoio consultivo na conceção de um quadro de investimento, com o objetivo de criar oportunidades para os investidores públicos e privados participarem na futura reconstrução e recuperação da economia ucraniana”. Em Fevereiro, a J.P. Morgan também foi contratada.

Os dois bancos vão gerir o Fundo de Desenvolvimento da Ucrânia, que tem como objetivo angariar investimento privado em projectos com um valor potencial de centenas de milhares de milhões de dólares em sectores como a tecnologia, os recursos naturais, a agricultura e a saúde. A BlackRock e o J.P. Morgan estão a doar os seus serviços, mas, como refere o Financial Times, “o trabalho permitir-lhes-á ter uma visão antecipada dos possíveis investimentos no país“. As oportunidades são significativas, sobretudo no sector agrícola: A Ucrânia possui um quarto do chernozem (“terra negra”) do mundo, um solo extraordinariamente fértil, e antes da guerra era o maior produtor mundial de farinha, óleo e sementes de girassol e um dos maiores exportadores de milho e trigo.

De certas perspectivas, a guerra é claramente boa para os negócios: de facto, quanto maior for a destruição, maiores serão as oportunidades de reconstrução. Em Davos, este ano, Larry Fink, diretor executivo da BlackRock, disse esperar que a iniciativa transformasse o país num “farol do capitalismo”. David Solomon, diretor executivo da Goldman Sachs, também falou com entusiasmo do futuro da Ucrânia no pós-guerra. “Não há dúvida de que, à medida que o país for reconstruído, haverá bons incentivos económicos para um verdadeiro retorno e um verdadeiro investimento”.

Vendo uma oportunidade no meio da tragédia, 500 empresas globais de 42 países já assinaram o Ukraine Business Compact “para ajudar a concretizar o seu enorme potencial” – ou garantir a sua fatia do bolo ucraniano. “A maioria está a manter-se à margem por enquanto, dada a ameaça à segurança”, refere o FT. “Mas já há empresas prestes a entrar no país, especialmente nas indústrias de construção e materiais, processamento agrícola e logística.”

Ao longo dos anos, através de uma série de eventos semelhantes, os governos ocidentais e os líderes empresariais não esconderam o seu entusiasmo em utilizar o regime pós-Maidan – e agora a guerra – para alterar radicalmente a economia política da Ucrânia. A agenda: abrir o país e torná-lo seguro para o capital ocidental, transformando-o numa zona económica especial. Esta terapia de choque neoliberal deveria, na sua opinião, incluir “o reforço da economia de mercado”, “a descentralização, a privatização, a reforma das empresas públicas, a reforma agrária, a reforma da administração do Estado” e a “integração euro-atlântica”, bem como uma “desregulamentação” generalizada e a redução da “legislação laboral desactualizada que conduz a processos complicados de contratação e despedimento, regulamentação das horas extraordinárias, etc.”. Em suma, o Consenso de Washington em esteróides.

Este programa está, indiscutivelmente, em curso desde meados dos anos noventa, quando o Ocidente utilizou os empréstimos do FMI e as suas condicionalidades para impor à Ucrânia, tal como fez com a Rússia, uma série de reformas radicais orientadas para o mercado livre que paralisaram a economia. Como salientou o economista indiano Prabhat Patnaik, o FMI desempenhou um papel fundamental na precipitação da crise de 2014: O então Presidente ucraniano, Viktor Yanukovych, recusou-se a aceitar as exigências do FMI no sentido de reduzir os salários, cortar nas despesas sociais e acabar com os subsídios ao gás para se integrar na UE, e voltou-se para a Rússia para um acordo económico alternativo. Este foi o pano de fundo para os protestos Euromaidan apoiados pelo Ocidente e, em última análise, para a mudança de regime de 2014.

Depois de 2014, a agenda económica do Ocidente foi novamente intensificada. As multinacionais ocidentais há muito que estavam de olho na vasta riqueza agrícola da Ucrânia, mas a moratória de 2001 sobre a venda de terras a estrangeiros sempre representou um obstáculo à privatização desenfreada. Quando os governos pós-Maidan se voltaram novamente para o FMI para obter financiamento, a ajuda foi condicionada a uma série de reformas agrárias que permitiriam finalmente que as empresas estrangeiras adquirissem vastas extensões de terras agrícolas do país. Na série televisiva de 2015, Servo do Povo – protagonizada por Zelenskyy como o presidente fictício, Goloborodko – as condições exigidas pelo FMI para um novo empréstimo são rejeitadas e a delegação ocidental é expulsa. Mas, na realidade, as coisas passaram-se de forma bastante diferente. Em 2020, Zelenskyy cedeu às exigências do FMI e acabou por revogar a moratória.

“Os interesses do agronegócio e os oligarcas serão os principais beneficiários desta reforma”, afirmou Olena Borodina, da Rede Ucraniana de Desenvolvimento Rural. “Isto só irá marginalizar ainda mais os pequenos agricultores e arrisca-se a separá-los do seu recurso mais valioso”. Mas o Banco Mundial mal conseguiu conter o seu entusiasmo, dizendo esfuziantemente: “Este é, sem exagero, um acontecimento histórico”. Apesar de a nova lei só entrar em vigor no próximo ano, as empresas agrícolas dos EUA e da Europa Ocidental já compraram milhões de hectares de terras agrícolas na Ucrânia – com 10 empresas privadas a controlar a maior parte delas.

Com o alastrar da guerra, os apelos do Ocidente às “reformas estruturais” na Ucrânia só se intensificaram. Em meados de 2022, o Center for Economic Policy Research (CEPR), um influente grupo de reflexão americano, publicou um relatório intitulado Macroeconomic Policies for Wartime Ukraine (Políticas macroeconómicas para a Ucrânia em tempo de guerra), no qual defendia que o objetivo da Ucrânia deveria ser “prosseguir uma desregulamentação radical e extensiva da atividade económica“. Ainda mais preocupante, de acordo com o observatório económico do Oakland Institute, a ajuda financeira ocidental “está a ser utilizada como uma alavanca pelas instituições financeiras para conduzir a reconstrução pós-guerra no sentido de novas reformas de privatização e liberalização“. A União Europeia, por exemplo, deixou claro que a decisão do bloco de suspender os pagamentos de juros sobre os empréstimos da Ucrânia só seria activada se houvesse “cumprimento dos pré-requisitos políticos” no que diz respeito às reformas laborais, por exemplo, e à privatização dos activos do Estado.

Por isso, não foi surpresa quando, no ano passado, o governo ucraniano adoptou legislação em tempo de guerra para reduzir drasticamente a capacidade dos sindicatos de representarem os seus membros. Deu aos empregadores o direito de suspender unilateralmente os acordos colectivos e isentou efetivamente a grande maioria dos trabalhadores da legislação laboral ucraniana – um retrocesso dramático para os trabalhadores, mas uma vantagem para o capital global. Os governos ocidentais consentiram silenciosamente com as reformas e, de facto, documentos divulgados em 2021 indicam que o Reino Unido, através do seu braço de ajuda ao desenvolvimento, UK Aid, e da sua embaixada em Kiev, estava a financiar consultores para ajudar o governo ucraniano a vender as reformas do mercado de trabalho à população.

À medida que o Governo ucraniano simplificou e acelerou a privatização das empresas públicas, Zelenskyy parece ter-se esforçado por exprimir da mesma forma a “abertura” do país ao capital ocidental. Em Setembro passado, abriu virtualmente a Bolsa de Valores de Nova Iorque, tocando simbolicamente a campainha através de vídeo. Aproveitou a ocasião para apresentar “Advantage Ukraine“, a nova iniciativa de investimento do seu governo (que conta com outra empresa britânica, a WPP, para a sua vertente de marketing). Zelenskyy afirmou que o seu país estava “aberto para negócios”, ou seja, para as empresas estrangeiras virem explorar os seus recursos e a sua mão de obra barata. “Comprometi a minha administração a criar um ambiente favorável ao investimento que faça da Ucrânia a maior oportunidade de crescimento na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, escreveu no Wall Street Journal. Como era de prever, o presidente do Grupo NYSE, Lynn Martin, saudou vivamente a decisão da Ucrânia de oferecer “um acesso sem restrições ao capital”.

Em Janeiro deste ano, dirigindo-se aos participantes na reunião da Associação Nacional das Câmaras de Comércio do Estado, Zelenskyy descreveu as empresas americanas como a “locomotiva que irá mais uma vez impulsionar o crescimento económico global”. Ninguém pode censurar Zelenskyy por ter escolhido o menor de dois males: Os bancos ocidentais em vez dos tanques russos. No entanto, o facto sombrio é que, mesmo que a sua nação consiguisse anular a invasão russa, o futuro reservado à Ucrânia não é necessariamente de soberania e autodeterminação mas, muito provavelmente, de tutela económica ocidental.

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O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista, tradutor e investigador. Autor de “The Battle for Europe: How an Elite Hijacked a Continent – and How We Can Take It” Back (Pluto, 2014) e o seu mais recente livro é “Reclaiming the State; A Progressive Vision of Sovereignty for a Post-Neoliberal World” em co-autoria com Bill Mitchell, editado por Pluto 2017.

 

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