CARTA DE BRAGA – “de Dumas aos robôs” por António Oliveira
clara castilho
‘Só os que padecem um extremo infortúnio estão aptos a usufruir uma extrema felicidade. É preciso ter querido morrer para saber o que vale a vida. A soma de toda a sabedoria será contida nestas duas palavras: esperar e ter esperança’ .
A frase é de Edmundo Dantès, e está escrita no enorme ‘O conde de Montecristo’, de Alexandre Dumas, muito mais do que um romance, por ser também um tratado de psicologia sobre o poder das emoções e das debilidades do homem –o amor, a traição, a vingança e a ambição–. Nele também se poderá explicar que, quando a lógica política já não chega para se poder explicar as atitudes e comportamentos, o recurso à literatura e aos clássicos de todos os tempos, é necessário e urgente.
De acordo com o historiador, professor e escritor Tony Judt, a desconfiança parece ter assentado arraiais na vida política das democracias ocidentais. Aliás, se, lermos, ouvirmos ou vermos nos órgãos de comunicação mais ‘atentos’ ao que se passa cada dia, também poderemos confirmar como há uma celeridade incontrolável nas mudanças das políticas, das marionetas que algo ou alguém comandará, num crescendo de distribuição desigual da riqueza, do controlo das situações, do pôr de lado circunstâncias e rotinas, de explicações que não colam e mesmo algum cinismo.
E vemos –até se pode ouvir em muito lado–, como já não adianta perder tempo como votações, porque quem manda está muito para além de nós todos, perdemos a possibilidade de ‘remendar’ o quer que seja, por só contarem connosco para a cerimónia do ‘Ai aguenta, aguenta!’
E repare-se como, nestes últimos dias, e reportando-me apenas a títulos de jornais, a 9 de Julho, ‘Taxa de juro dos novos depósitos sobe, mas é a quarta mais baixa do euro’ e, pior que Portugal só a Croácia, Eslovénia e Chipre; no mesmo dia, referindo o ‘Aumento intercalar dos pensionistas’, a subida é igual para todos, mas como foi calculado em função das prestações do ano passado, mais baixas, o incremento será um pouco inferior; no dia 11, ‘O número pessoas com mais de 80 anos, aumentou nos dois últimos anos, chegando aos 750.000’ e um estudo da Pordata divulga que há meio milhão em risco de pobreza, a viver com menos de 551 euros por mês.
Por outro lado e a 28 de Junho, ‘Em Portugal, um terço dos inquilinos gasta mais de 40% do rendimento com a casa. Portugal está entre os países europeus onde os inquilinos têm de fazer maior esforço para pagar despesas com habitação’, enquanto só cerca de 1% dos proprietários estão em sobrecarga financeira revelando também os custos sociais do desvelo das políticas públicas para com os proprietários.
Em 24 de Junho, Vítor Bento, o presidente as Associação Portuguesa de Bancos, afirmava também, ‘A inflação ainda não está controlada, é preciso mais um esforço. Se perdurar, aí sim, vamos ter uma recessão maior. Para as famílias isso significa mais aumentos das taxas de juro, tal como, o Banco Central Europeu já indicou. Do lado do Estado e dos próprios bancos, a situação vai exigir uma especial atenção aos mais vulneráveis’.
Já no final de Maio, o antigo director do ‘Le Monde Diplomatique’, Ignacio Ramonet, escrevia ‘O mundo vai de crise em crise. A de 2008, a das subprime, prolongou-se e levou ao controlo da EU a vários estados, entre eles a Grécia, mas também a Irlanda e Portugal. Foi a crise final do neoliberalismo ou da globalização. Mas como o capitalismo não tem outro modelo, continuamos nessa tendência. É inércia!’
E a terminar este rol de desventuras, no dia 11, ‘Mais de 8% da população da UE não tem condições de pagar um repasto equilibrado. Geralmente, falta a proteína, seja peixe, carne, ou o ingrediente vegetariano equivalente, por ser o mais caro. É na Europa, continente com uma classe média em vias de extinção, aliás, o caso de Portugal. Aqui, a taxa de pessoas em risco de pobreza, incapazes de pagar um repasto equilibrado foi, em 2022, de 7,2%. A taxa ronda 3% no total da população’, acrescentando depois, para reforçar o que por aqui se passa, ‘Hoje há cada vez mais pessoas com formação superior que pedem ajuda por falta de recursos para alimentar as famílias, segundo a Assistência Médica Internacional. Também o Banco Alimentar tem alertado para esta situação social’.
Mas uma notícia do passado dia 7, parece apontar a solução para este desfiar de mágoas –Um painel de robôs humanoides com inteligência artificial, esteve numa conferência das Nações Unidas, com uma mensagem clara: poderão vir a governar o mundo melhor do que os humanos. “Não temos os mesmos preconceitos ou emoções que, por vezes, podem perturbar a tomada de decisões, e podemos processar rapidamente grandes quantidades de dados, para tomar as melhores decisões”–
Só lhes falta o infortúnio de Dumas!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor