CARTA DE BRAGA – “do trabalho e da dignidade” por António Oliveira

Uma das expressões que mais confusão me provocou quando tive necessidade de me ‘empregar’, foi encontrar-me e saber-me só mais um número no ‘mercado do trabalho’. 

Sei que eram outros tempos, mesmo antes de Abril, onde o termo ‘partilha’ não tinha significado para muita gente, a que ignorava que o sorriso e a dor, da mesma maneira que o pão, também se podem e devem partilhar pois, diz o filósofo Santiago Alba Rico, ‘Luxuosa é a vida que não se reduz à necessidade económica’.

Percebi isso bem quando, no final dos anos setenta, as necessidades da vida me arrastaram para uma terra onde, sempre manhã cedo, apareciam e se alinhavam, numa rua de um dos extremos da cidade, os mais necessitados para aquele dia, à espera de um contratador que os chamasse, pela cara ou pelo jeito, para um dia de trabalho.

Fui lá duas ou três vezes, para assistir àquele ‘mercado’ e ver bem, como corpos e mentes demonstravam e se integravam perfeitamente na antropologia capitalista, porque uma criatura com dois braços e duas pernas, a amparar alma e mente, de certeza sofredoras, por outras que teria deixado atrás, se sujeitava a àquele ‘mercadejar’, sem sequer pôr preço à oferta de si mesma, limitando-se a seguir o seu novo ‘amo para aquele dia’. 

Ali estava o ‘mercado’, o lugar físico à beira da cidade, onde as pessoas assumiam o lugar de ‘mercadoria’, para trocarem, nem que fosse por um só dia, corpo e vontade por coisas tão comezinhas como pão, água, lume e ar, para si e para os que tinham deixado atrás! Ar também sim, por haver penúrias que nem deixam respirar!

Não sei bem se posso transportar aquelas imagens, dos anos setenta para estes dias, mas creio que as sociedades muito dependentes das tecnologias, como as de agora, transformam, (com nossa permissão), as alcovas das casas onde vivemos, num lugar idêntico ao daquele extremo da cidade, sujeitando-nos aos algoritmos que ocuparam alegre e sub-repticiamente o lugar do contratador, que nem sequer precisa de mostrar, indicar ou apresentar, o amo ou o mandador. 

Nem sei também, se não deverei aqui acrescentar o termo ‘dignidade’, por Kant ter deixado escrito ‘No reino dos fins, tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem preço, pode ser substituída por algo equivalente; por outro lado, a coisa que se acha acima de todo preço e, por isso, não admite qualquer equivalência, compreende uma dignidade’.

E ainda estou bem longe de saber, se a dimensão instrumental que o capitalismo e as tecnologias, especialmente as portáteis e de fácil manuseamento, deram um valor de troca ao ser humano, ou se limitaram a pôr-lhe um preço à dignidade, por ser mais complicada de catalogar nos labirínticos registos do Deve e do Haver, que qualquer organização de compra e venda deve ter, seja qual for a sua dimensão. 

No ensaio ‘A busca do ideal’, Isaiah Berlin, um dos grandes pensadores do século vinte, escreveu ‘Todas as formas de perversão ligadas aos seres humanos, de intromissão, de os moldar contra sua vontade segundo o nosso modelo, todo o controlo e condicionamento do pensamento, é a negação do que no homem faz dele um homem e torna os seus valores fundamentais’.

É tudo isto, que faz do indivíduo livre de Kant e Berlin, um ser transcendente, para além da causalidade natural, mesmo pisando um ‘mercado’ de rua, num dos extremos de qualquer cidade! 

A terminar, avoco um dos meus ‘heróis’ actuais, reais e terrenos, o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, ‘Ocupamos o tempo com o deus Mercado, o que nos organiza a economia, a política, a vida e até nos financia as quotas do cartão da aparência de felicidade’, (e mantenho Mercado com maiúscula! porque será?).

É apenas isto e é tanto, tantíssimo! 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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