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CARTA DE BRAGA – “da inteligência artificial… se” por António Oliveira

Os maiores avanços tecnológicos os que marcaram de algum modo as revoluções industriais, mas não só também originaram mudanças sociais e geopolíticas de vastíssimo alcance em todo o planeta. 

Repare-se que a primeira revolução industrial, máquina a vapor, mecanização e telégrafo no Reino Unido, nos séculos dezoito e dezanove, deu origem à hegemonia britânica que se aguentou até à Primeira Guerra Mundial; a segunda electricidade, combustíveis fósseis, aviação marcou o século vinte e deu origem às potências EUA, Alemanha e Japão, embora esta últimas tenham perdido a vantagem tecnológica com a Segunda Grande Guerra; a terceira revolução, em que estamos mergulhados e atascados até ao nariz, tecnologias da informação e comunicação, automatização, energias renováveis acabou por fazer passar, de alguma maneira, o fulcro geopolítico mundial para o Pacífico, com a subida da China e da Índia, a uma dimensão equivalente à dos EUA. 

Parece também que o desenvolvimento desta terceira revolução, está a coincidir com a interiorização da ‘quarta’, marcada talvez –o futuro o irá dizer– pela importância e, se calhar, pelo comando já assumido pelas empresas tecnológicas de colha e movimentação de dados de todo o tipo, pela Inteligência Artificial (IA) que, creio bem a ver pelos comentário de todo o tipo, se irá alargar a todos os ramos da actividade humana, dos sectores primário ao terciário, educação, saúde e serviços, defesa e segurança e, tudo isto é mundo empresarial. 

Não quero nem posso por falta de conhecimento sustentável, debruçar-me sobre esse mundo, mas não é preciso ser um expert para olhar os ‘dados’ como o combustível da inteligência artificial, que a vai levar a impor-se sobre a natural; esta parece estar a encolher, de tal modo que me leva a considerar estarmos já a perder parte importante do ‘equipamento de série que fazia parte da espécie humana; há uns dias li um cínico, mas oportuno comentário, a dizer qualquer coisa como isto, ‘IA ter-se-á imposto definitivamente, quando o robot autónomo que engole pó, ao deambular pelos quartos das nossas casas, nos parar um dia à frente e, com troça nos atirar à cara, cambada de porcos’.

Não há dúvida de que o maior potencial da IA somos nós mesmos, mas a tecnologia também se serve dos seus ‘truques’ para nem sequer repararmos nas suas limitações; e são variadas as desculpas a querer dizer ‘sinto, mas não posso ajudar’ a começar pelo banalíssimo ‘404, error’ ou um mais limitativo ‘sem resultados’, todos a passar a responsabilidade para o cliente, como se aquilo não passasse de um amontoado de cabos e circuitos potentíssimo, mesmo se o tal cliente pensar, só estar à frente de um qualquer Google melhorado. 

Mas não podemos esquecer, ‘IA tem como objectivo principal igualar ou exceder a lógica do pensamento humano na sua forma comunicativa e criativa, e obtém o poder de se alimentar do que está disponível na net, os milhões de textos produzidos pelos humanos, a ser combinados para se adaptarem ao diálogo com o “cliente”. Dá impressão de que tarefas de conteúdo intelectual podem ser levadas a cabo por máquinas, mas será assim?’, pergunta-se o filósofo e sociólogo Daniel Innerarity. 

E Innerarity acrescenta ‘Uma rede neuronal nem sequer sabe o que as palavras representam. Os aparelhos de IA são produtos incrivelmente capazes de processar informação e linguagem sem saber porquê, mas só até àquele limite em que começa a compreensão do mundo’.

Evgeny Morozov, norte-americano formado por Harvard, mas de origem bielorussa, colunista no ‘The Guardian’ e um dos principais estudiosos da tecnologia, escreveu há dias ‘Precisamos pensar para além da regulação das tecnologias digitais. A regulamentação é importante, mas não podemos apenas discutir o que fazer com relação ao WhatsApp ou ao Facebook. Precisamos pensar o que fazer a respeito dessas enormes infraestruturas digitais que empresas privadas estão vendendo de volta às instituições públicas e aos cidadãos’.

O filósofo sueco Nick Bostrom, fundador e director do Instituto para o Futuro da Humanidade de Oxford, vai mais longe ‘IA vai obrigar-nos a rever todas as ideias sobre a identidade, o tempo, a democracia ou a morte. Se a conseguirmos controlar e sobrevivermos à era da superinteligência das máquinas, pode converter-se na ferramenta para conjurar outros perigos para a existência humana’. 

Há sempre um “se” e, por isso, mais vale rezar para que tudo corra bem! Mas a quem? 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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