CARTA DE BRAGA – “ideologia do perdedor” por António Oliveira
clara castilho
Tudo aquilo a que a maioria da humanidade está a assistir hoje –por ver, ouvir ou ler– mesmo sem qualquer culpa, leva a que se possa questionar se a maldade é inseparável da condição humana, ou uma característica aprendida e adquirida com o passar dos séculos, pela a diferenciação geográfica, com as tonalidades da pele, ou pela necessidade que os povos e culturas tiveram de se explicar e justificar.
Maquiavel afirmava o ser humano mau por natureza, e Kant haver um mal radical na natureza humana; Rousseau garantia que a sociedade corrompia o ser humano e, mais no nosso tempo, para não fazer desta Carta um ensaio sobre maldade e bondade, Hanna Arendt dizia estar a maldade ligada a grupos sociais e ao próprio Estado, por o mal não ser natural, nem uma categoria metafísica, mas motivado pelas pessoas, e manifestado quando encontra espaço estrutural para o fazer.
Analisado de outra maneira, e tomando por ponto de partida os milhares de pessoas violentamente abatidas –e da mais diversas formas, nas ruas das cidades, em regiões e países– quase ninguém negará que matar é um mal, explícita e claramente condenado pelas maiores e mais poderosas religiões destes tempos –quinto mandamento católico, sexto do judaísmo e protestantismo, sura 4 do Corão– apesar das interpretações e manipulações, a que tais acções têm sido sujeitas, através dos tempos.
E a dar ainda um ar mais complicado e tenebroso –ao tal espaço estrutural onde ele se pode manifestar–, parece já não haver capacidade para o controlar, pois o seu Secretário Geral declarou recentemente a um órgão de comunicação social, ‘Não tenho poder nenhum. Nem sobre as decisões, nem sobre o financiamento. Tenho apenas o poder da palavra’; as divisões entre as grandes potências, diz António Guterres, são de um grau ‘a que nunca assistimos antes’ e, aquelas potências, os membros permanentes do Conselho de Segurança e os únicos com direito de veto na origem de tais divisões, ‘paralisam quase todas as iniciativas da ONU para tentar minorar os males do mundo, mas também poder intermediar a favor da paz’.
Pérez Andújar, filólogo e escritor, olha para esta situação com algum cinismo ‘Cada época tem os seus monumentos. Os monumentos são as sílabas do tempo e, até por isso, falam sozinhos, por si próprios. Às vezes creem que a gente os escuta, mas só se comunicam entre eles’.
Na verdade, a vida acabou por se transformar num espaço competitivo em todos os domínios, da confusão à má qualidade, em que as coisas que os homens e os tempos prometem, nunca chegam, e todos os dias vemos aumentar as dificuldades e os preços –monetários e outros– que temos de pagar para conseguir algum sossego, por ser já a única coisa a que podemos aspirar.
Não há muito tempo, um amigo resumia a vida que vai levando com profundo desencanto, neste conjunto de ideias, ‘Já sei que um dia qualquer vou ter de conviver com outras práticas, talvez proibições (as do próximo vencedor), outros deuses (os dele também), outra História e outro passado (os dele que, com certeza não vou aprender) e passarei a ser um outro número (também por ele atribuído); só assim poderei viver no domínio dele, por também deixar de ser eu!’
Isto dava uma boa e curta estória para estes tempos pois, afirma no blog ‘Ponteiros Parados’, o professor José Ricardo Costa, ‘Nunca foi tão fácil e rápido ler como no século XXI e, graças a isso, atingir um invejável nível de cultura literária, para poder brilhar durante o jantar, ou no bar às duas da manhã, com um gin tónico na mão e um cigarro na outra’.
E até poderia mostrar a minha sabedoria, abrilhantando uma palavra se a conseguisse dizer sem gaguejar, ‘Parascevedecatriafobia’, apenas o medo patológico de sexta-feira dia 13! Até há gente que sofre disso!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor