CARTA DE BRAGA – “do corona e bofetões” por António Oliveira

Amigo e pupilo de George Steiner, Nuccio Ordine é, como ele próprio dá a entender, um filósofo da leitura e considera esta crise, mais do que alavancada por um vírus, uma consequência da política neoliberal ‘por ter descuidado e posto em risco os dois pilares da dignidade humana, o direito à saúde e o direito ao conhecimento’.

E o filósofo e professor italiano, afirma mais ‘na lógica neoliberal a economia vale mais que a vida humana’. Basta ver o que afirmou há dias o vice-governador do estado do Texas, Dan Patrick, ‘preferir morrer a ver as recentes medidas de saúde pública prejudicarem a economia dos EUA’. Acredita até, este político republicano de quase 70 anos, que ‘muitos dos avós em todo o país’ estarão de acordo com a sua opinião.

O que é certo e que este micróbio está a por em causa toda a organização financeira e política no mundo actual.

Aliás, muito comentadores fizeram notar que a pandemia poderia provocar uma nova versão do ‘colapso’ de 2008 e logo ‘se notou a culpabilidade dos banqueiros, a cobiça dos especuladores e os efeitos da desregulação neoliberal’ escreveu o economista Claudio Kazt no ‘Nueva Tribuna’ do dia 17 passado.

Mais acrescentou que esta crise só ‘acentuou a desaceleração de economia que tinha debilitado a Europa e posto em xeque os Estados Unidos. O divórcio ente a retracção e a continuada euforia das Bolsas antecipava o rebentamento da borbulha, que periodicamente «infla y pincha» Wall Street’.

Tenho algum receio em meter-me por estes caminhos porque a minha noção de Bolsa não vai além do meu porta-moedas e os únicos investimentos que faço, têm incluídos uma grande parte onírica, pois também não vão além do ‘milhões’, por desejar apenas ter um dinheirito para trocos!

Perdoem-me este desabafo, mas não vou continuar por este caminho. Prefiro assinalar uma eventual ‘sincronicidade’ entre o ‘corona’ e a peste negra no século XIV. A peste negra também ajudou a acabar com séculos do obscurantismo feudal, para dar a vez ao Renascimento e ao Humanismo.

Talvez que, depois deste recolhimento mais ou menos universal (tirando as reticências dos trumps e dos coronaboris), quando nos pudermos abraçar todos, o façamos com a energia da cultura, da sua importância social e ética, por só ela ser capaz de pôr um fim ao obscurantismo do individualismo e dos dividendos, por acreditar que só com a cultura, nos podemos salvar como humanidade!

Talvez a propósito André Malraux, o grande escritor francês do século passado, deixou escrito ‘Não se ensina a estender a outra face a pessoas que, desde há dois mil anos, só têm recebido bofetões’.

A única opção parecem ser os abraços!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

2 comments

  1. C. Leça da Veiga

    Como começa a saber-se a origem criminosa da aparição deste vírus, a mim, parece-me pouco aconselhável dar abraços a certas personalidades ligadas e seguidoras do pensamento político conhecido como “Destino Manifesto”. Abraço do CLV

  2. António Oliveira

    Assino por baixo!
    Grande abraço
    A.O.

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