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SAUDADE, PALAVRA MÁGICA QUE NÃO SE EXPLICA, sente-se por Luísa Lobão Moniz

Os portugueses sentem-se orgulhosos quando se diz que a palavra Saudade é única, em mais nenhuma língua se consegue dizer com o mesmo sentimento.

Têm uma apetência especial para recorrer ao tema Saudade seja em prosa, em poesia ou em fado que a canta até à exaustão.

A Saudade é um sentimento único. Se sentirmos Saudade isso significa que vivemos tão plenamente quanto possível, que vamos voltar a viver da mesma forma quando a Saudade passar.

Será que a Saudade passa?

A Saudade é universal, todos os povos têm Saudade: A Saudade não tem dono, é sentida de maneira diferente pelas gentes do Planeta. A natureza humana nasceu com essa capacidade de sofrer, de ser feliz ou não, como diz Dinis Borges A Saudade não chora.

A Saudade corre-nos nas veias e quando o sentimento desperta de alguém que nos deixou, de um lugar onde crescemos, ou mesmo do nada, a Saudade toma conta de nós.

A saudade não se nega, não se pede, simplesmente aparece…

Os Açorianos são muito saudosos das suas ilhas, das suas famílias e amigos, dos verdes campos, do mar mesmo que revolto, dos seus pássaros, das suas vacas, das iguarias que não se esquecem. Contam e recontam as mesmas histórias antigas como se fossem de hoje. O passado é o presente e o futuro logo se verá no marulhar das águas, no silêncio das ruas, no bom dia e no boa tarde…

E o presente? O presente é já a saudade do que há-de vir.

Pablo Neruda, poeta Chileno, perguntou um dia

“ Saudade o que será…não sei

……………………………….”

In Crepusculário, Vitorino Nemésio, poeta açoriano, escreveu:

Tenho Uma Saudade Tão braba

Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.                 

Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso

Morrer lá com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

Quando se diz «Seja feita»
Eu sentirei na garganta
A mão da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.

Vitorino Nemésio in Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga

Os nove açorianos iguais e diferentes, em nove ilhas nascidos, iguais e diferentes cantam as suas saudades iguais e diferentes acompanhados pela Viola da Terra.

E assim, na Ilha Graciosa, o povo canta Saudade:

Saudade

São tantas as saudades

São tantas as saudades

São tantas, ai são tantas as saudades

Que as nem posso contar

 

São tantas como as estrelas

São tantas como as estrelas

São tantas, ai são tantas como as estrelas

Como as areias do mar

 

A saudade é um luto

A saudade é um luto

A saudade é um luto

Uma dor uma dor uma aflição

 

São um cortinado roxo

São um cortinado roxo

São um cortinado roxo

Que me cobre que me cobre o coração

 

A saudade é um luto

Uma dor, uma aflição

Ai, um cortinado roxo

Que me cobre o coração

 

Vira e volta a saudade

Vira e volta a saudade

Ai, vira e volta a saudade

 Para os lados do meu peito

 

Não cabe um amor tão grande

Num palácio tão estreito

Ai, não cabe um amor tão grande

Saudade, num palácio tão estreito

 

A ausência tem uma filha

Que se chama saudade

Ai, eu sustento mãe e filha

Saudade, bem contra a minha vontade

 

 Saudade não é de ninguém, é de todos, e assim Vergílio Ferreira, in ‘Conta-Corrente 1’

Fímbria de Melancolia

Fímbria de melancolia,
memória incerta da dor,
ouço-a no gravador,
no fado que não se ouvia
quando ouvia o seu clamor.

Porque era já no passado
o presente dessa hora
e que me ressoa agora
a um outro mais alongado.

Assim a dor que se sente
no outro obscuro de nós
nunca fala a nossa voz
mas de quem de nós ausente,
só a nós próprios consente
quando não estamos nós
mas mais sós do que ao estar sós.

Onde então estamos nós?

 Saudade é algo que já não está ou até que nunca esteve…

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

 Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro, in Obra Poética

 Saudade é uma mistura de muitos sentimentos: melancolia, nostalgia, monotonia, tédio, esperança, desespero, tristeza, conforto, etc. Alegrar-se de sofrer, sofrer por se sentir alegre…que todos os povos são capazes de sentir, assim a vida seja vivida em relação com os outros, com a Natureza…

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessôa
Que fôsse misteriosamente minha.

Álvaro de Campos (Ode Marítima)
                                                                                

 E mais Saudade através do mundo…

Da Saudade nasceu Cabo Verde depois da sua descoberta, quando começou o povoamento das ilhas, com europeus e escravos trazidos da costa de África, para assegurar a continuidade das Descobertas.

 Tanto o Europeu como o Africano, longe das suas terras, das suas famílias e amigos, desenvolveram um sentimento de perda e de Saudade.

Foram, ao longo do tempo de convivência da diferença e da igualdade, misturando as saudades de continentes diferentes, e assim surgiram as cantigas crioulas, que deram origem à morna, de tom dolente e nostálgico, qual Saudade.

 

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