E AGORA O QUE PENSAR E FAZER? por Luísa Lobão Moniz
clara castilho
É tão fácil culpabilizar a escola de muitos dos males sociais.
É tão fácil apontar o dedo às famílias.
É tão fácil dizer que os professores faltam e não querem trabalhar.
É tão fácil dizer “a escola não ensina”, não ensina o quê?
Há anos que os portugueses são considerados ótimos cientistas, médicos, enfermeiros, engenheiros, o que quer que seja…porquê, porque a escola ensina. Muitos deles andaram na Escola Pública, muitos deles pertencem a famílias ricas…e…. onde está o Estado e a comunidade, em geral, a reconhecer que temos boas escolas e excelentes professores tanto na Escola Pública como na Escola Privada.
Está consignado na Constituição Portuguesa o direito ao ensino a todas as crianças. O direito ao ensino não é só o entrar nos portões da escola, é doar todas as crianças com as mesmas possibilidades de aprendizagens formais, não formais e de Cidadania.
A questão de Cidadania (que parece que foi descoberta agora) é uma questão central para que cientistas ou empregados de caixas dos supermercados possam perceber o mundo, saber que no nosso planeta há seres humanos todos diferentes culturalmente, mas que isso não faz nenhum povo melhor do que o outro.
Há muitos povos no mundo, hoje e sempre, mas não se pode considerar que vivam todos no mesmo tempo.
Cada um criou a sua própria cultura que, por vezes, são compatíveis com outras, mas outras vezes não. A Humanidade resolveu qua a melhor maneira de todos conviverem, nem que fosse à força, era subjugar uns a favor de outros, pela escravatura, por barbaridades que já todos sabemos, exterminando, gaseando, fuzilando povos, assassinando, torturando quem ousava ser diferente culturalmente. Hoje é o dia do Armistício, dia em que acabou a 1ª Guerra Mundial.
Faz 103 anos que se acreditou que não haveria mais guerras, mas apesar disso as guerras não acabaram nas várias partes do Mundo e seguiu-se a II Guerra Mundial, e surgiram guerras aqui, ali em todos os continentes. Estaremos a caminhar para uma III Guerra Mundial?
E o que tem a ver isto com a Escola Portuguesa?
Tem a ver com todas as Escolas do mundo. É preciso que a diversidade cultural seja um bem a conservar e não um problema a bombardear.
Digo como a Professora Luiza Cortezão, a Cidadania não se ensina, vive-se.
A Escola e alguns professores mais conscientes do mundo em que vivíamos foram dando pequenos passos individualmente nas suas salas de aulas, mesmo em tempos de Ditadura que tentavam encontrar métodos pedagógicos que pudessem demonstrar aos seus alunos que era possível ter opinião, colaborar na organização da escola, logo na sociedade. Muitos foram presos por isso.
Depois de instaurada a Democracia em Portugal viveu-se o grande sonho de que a Escola ia mudar o mundo para melhor, ia humanizar as relações entre os povos.
Começaram medidas educativas para dar as mesmas oportunidades a todas as crianças. Criaram-se as Escolas Prioritárias para as escolas situadas em zones pobres e degradadas. Deu-se mais um passo e a Secretária de Estado Drª Ana Benavente, com conhecimento profundo do que era e para que servia a Escola, criou os Territórios Educativos de Intervenção Prioritária. Iniciativa acarinhada por muitas escolas, mas também com pouca adesão por outras.
Pertenci a um Agrupamento TEIP e a diferença de ambiente de responsabilidade de todos por todos, o sucesso educativo escolar ia dando os seus frutos, mas…
Deixo uma pergunta no ar?
Quantas escolas conhecem os seus alunos nas suas vidas privadas, fora da escola, no dia a dia?
Quem já ouviu os alunos sobre a escola que frequentam e não a Escola em geral?
Apenas alguns depoimentos de uma escola multicultural, que se queria intercultural, do 1º ciclo durante o tempo em que funcionou o TEIP.
É fácil fazeres amigos com os alunos que consideras diferentes?
· É fácil fazer amigos …… uma pessoa fala com eles, cumprimenta, não é à porrada que a gente se entende. Eles cumprimentam ou não, se cumprimentarem ficamos amigos se não cumprimentarem ficamos inimigos. Tenho muitos amigos. Quando quero fazer amigos pergunto se querem jogar à bola ou ao berlinde, às cartas e às tantas é mais um amigo, olha, vamos entrar nesta brincadeira.
Menino luso 14 anos – 4º Ano de escolaridade
· Tenho facilidade em fazer amigos com os outros meninos que são diferentes porque brinco com eles
Menino moçambicano 11 anos – 2º Ano de escolaridade
· Não é fácil fazer amigos ……………estar ao pé deles …sinto-me bem ……mas não sei explicar.(Com ar confuso)
Menina sãotomense 7 anos – 2º Ano de escolaridade
Consideras que tratam de outra maneira os alunos que consideras diferentes?
· … acho que tratam da mesma maneira. Para compreender porque é que os meninos fizeram aquilo.
Menino guineense 7 anos – 2º ano de escolaridade
· Tratam para os meninos aprenderem, para não fazerem o que aprontaram. Ralham a falar.
Menina guineense 9 anos – 3º ano de escolaridade
. Não, quando ralham não tem a ver com a cor da pele…ralham para ralhar ………Ah! É para compreender melhor , para os meninos não se portarem mal.
Menina angolana 8 anos – 2º ano de escolaridade
In Não sei se sou diferente…A (In)visibilidade da Diversidade Cultural , Luísa Lobão Moniz, Livros Horizonte, 2008, Lisboa