UMA TURMA SÓ DE CIGANOS. PORQUÊ? Por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Porque mais uma vez os ciganos são vistos como a origem dos problemas de aprendizagem, de comportamento e não parte da solução. Para não recordar que a constituição de turmas obriga a inclusão de todos os alunos nas diversas turmas. Há 14 ciganos, pois distribuem-se conforme o ano de escolaridade, 48 caboverdeanos, pois distribuem-se pelas diferentes turmas e sempre assim até que todas as turmas estejam constituídas, respeitando as diferenças e implementando a educação intercultural.

É difícil? É.

Mas quem disse que era fácil conviver com diferentes culturas se se formarem grupos por etnias?

Uma turma só de ciganos para quê?

Porque diminuiu o absentismo, ainda bem. Mas foi porque a turma era só de ciganos ou porque a Assistência Social lhes cortava o Rendimento Mínimo de Inserção Social se faltassem sem justificação. O que acontece com todas as famílias que recebem o RMIS.

Porque a turma era só de ciganos tiveram mais sucesso escolar, ou porque a professora se empenhou mais, porque todos eram ciganos? Como justificar um insucesso escolar numa turma “tão bem constituída”?

Os professores dizem que querem turmas com alunos no mesmo nível de escolaridade e com as mesmas idades, mas na turma só de ciganos já isso não era importante.

Será que constituir turmas só com a mesma etnia vai melhorar o sucesso escolar?

Os meninos ciganos têm dificuldade em aprender o Português, porque essa não é a sua língua materna assim como não é para os alunos africanos, para os alunos da Ucrânia e para alguns de diferentes partes do país que têm uma iniciação à linguagem materna com pouquíssimo vocabulário, que respondem com frases mal construídas e com pronuncias diferentes….

O ser humano é por si só um indivíduo diferente de todos os outros que o rodeiam.

A Escola não quer pôr os alunos todos iguais a papaguiarem em uníssono as aprendizagens, quer sim que na diferença se estabeleçam pontos de contacto relativamente às diferentes culturas.

É separando os meninos ciganos que se faz a integração, melhor dito a inclusão?

Quanto tempo mais temos que esperar para vermos uma professora cigana, um apresentador de televisão cigano, um empregado de escritório cigano….. presidente da Junta de Freguesia cigano, um deputado cigano?

Se não o querem ser por escolha própria, é a sua opção, mas não poder ser porque são sempre separados dos outros é exclusão.

bia 14.2

Os meninos, na escola, vão aprendendo que todos temos dificuldades e facilidades para aprender, que todos nos comportamos de maneira diferente, mas com respeito pelos os outros.

1 Comment

  1. Esta é uma confusão habitual: os portugueses ciganos têm o português como sua língua materna e, no máximo, conhecem duas dezenas de termos ‘calon’, que usam quando querem não ser entendidos pelos ‘gadjé’ (os ‘brancos’). Não são estrangeiros, como os paquistaneses ou os ucranianos; são portugueses. Não se sentem identificados com os romenos ciganos, são muito menos pobres, mais de 90% estão realojados e já não andam a pedir esmola há décadas. A diferença ‘étnica’ é cultural e identitária; e a dificuldade de adaptação à escola vem da ausência de escolaridade das gerações anteriores, forçadas ao nomadismo pela GNR e pelas populaçãos xenófobas. Esta é a primeira geração sedentarizada e escolarizável – o erro é histórico, nunca foram ‘nómadas’, sempre foram alvo de tentativas de eliminação – excluídos, degredados, espoliados, torturados, condenados à morte e à perda dos filhos, antes dos 9 anos, marginalizados e alvo de tentativas de genocídio ou de extinção cultural. A questão cigana (que representa uns escassos 1% da população de Portugal) só não é resolvida porque os portugueses nunca se empenharam em a resolver – dos católicos aos ateus, dos monárquicos aos republicanos, da direita à esquerda, dos comunistas aos democratas-cristãos, dos socialistas aos sociais-democratas – porque é um facto vexatório: quem proteger os portugueses ciganos, com o plano de discriminação positiva que a história claramente justifica (como Gandhi percebeu na Índia, para poder transformar os ‘intocáveis’ em ‘haridjans’ – filhos de Deus, que hoje governam Estados e chegaram à presidência da União Indiana), será punido pelo eleitorado nacional (é essa, pelo menos, a explicação conhecida para tão drástico silêncio e omissão). O facto é que as sondagens são claras – em Portugal, o racismo contra os ciganos é pelo menos duas vezes mais elevado do que o racismo ‘clássico’, contra os africanos, e atinge cerca de 70% da população. Parte das ‘medidas originais’ – como a desistência das gerações adultas e dos homens e a ‘aposta’ na escolarização da nova geração, que dará poucos resultados e só daqui a duas décadas, ficando os outros abandonados ou ‘subsidiados’ até lá para 2050; a escolaridade separada; os parques nómadas; ou a não exigência de uma escolarização completa, não passam de expressões encapotadas de racismo – o racismo generoso que tanto gosta de passar à acção sem a mínima informação e reflexão. O problema é político, não é racial ou ‘cultural’. A Constituição ‘Democrática’ – que parte irreflectidamente – ou hipocritamente – do conceito uniformista de ‘cidadão’ – esmaga ou escamoteia os factos decorrentes da diversidade cultural, que tendem a aumentar – e os governantes que nada fazem sabem bem que seja a escolaridade a que for, os portugueses que são ciganos ou se tornam feirantes e vendedores ambulantes, como os seus pais, ou irão aumentar o desemprego – a nova forma de marginalização social.

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