Esperando por Mathias Ferguson, morto com o seu regimento
Aquele poema em que acabei por dizer
que o inverno traria notícias do norte, não resolveu
as minhas dúvidas. Nem a sua conclusão, nem o meu estado
de espírito, me puderam
esclarecer sobre a verdadeira natureza
da profecia; e se bem que hoje, passados muitos dias sobre o fim
do outono, algo me possa dizer que mathias ferguson,
o trombeteiro, tocou a madrugada, não ouço o tropel dos cavalos
nem reconheço, nas cores indecisas do horizonte, as cores
vitoriosas do regimento. Que terá sucedido entretanto? Que planície
dá guarida aos corpos
dos soldados mortos? Quem, na solidão, terá congeminado
a desgraça para um país, e a dúvida obsessiva
para um poeta,
a sul?
Júdice, Nuno (1972)
A noção de poema. Lisboa: Dom Quixote, p. 57.
Caem bombas em Israel, chovem balas mortíferas em Gaza…
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Acendem-se as luzes de Natal nas ruas e praças das cidades europeias.
Na Ucrânia o Povo defende o seu território invadido pela Rússia.
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Viaja-se pelos países do mundo que estão em paz.
Os bebés, as crianças e os adultos choram – não sabem dos seus familiares.
Em Espanha, em França há tumultos nas ruas contra os governos.
Na troca de reféns o Hamas só entrega crianças, bebés e mulheres. Os homens ficam.
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As crianças vão para a escola sem saberem o que são as sirenes em tempo de guerra.
Crianças andam sozinhas pelas estradas sem ninguém que as ajude.
Mães não têm comida para dar aos filhos que choram deitados nos colos maternos ou de mulheres que os encontram.
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As crianças em países sem guerras comem guloseimas.
As famílias pobres são apoiadas pelos serviços sociais.
Pais choram a morte das suas famílias, ficaram órfãos e ficaram sem mulher e sem filhos.
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Mães e pais choram pelo sofrimento dos filhos que foram abusados sexualmente por adultos.
Prédios caem como baralhos de cartas, caem e transformam o chão em poças de sangue, em corpos despedaçados.
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As famílias pobres são apoiadas pelos serviços sociais.
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Fazem-se manifestações com milhares de pessoas sobre a crise climática e exigem dos governos que se tomem medidas eficazes em defesa do ambiente.
Não há guerra ou conflitos políticos sem violências que ultrapassam a nossa imaginação.
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Perguntamo-nos como é possível este lado selvagem da Humanidade, com que espírito vivem estes detentores do Poder no seu dia-a-dia? Como dormem descansados, como conseguem comer, como conseguem pegar nos seus filhos ao colo?
A Humanidade sempre viveu com guerras como nós, agora, no século XXI. As armas é que se foram aperfeiçoando tornando-se cada vez mais destruidoras. Não havia os meios de comunicação social para nos mostrar em direto todas as atrocidades cometidas pelos beligerantes.
Mas a Humanidade não tem só esta faceta de total falta de respeito pela dignidade humana. A Humanidade é capaz de viver em paz e em democracia, fazer investigação para proteger as pessoas de doenças, de construir bairros sociais para os mais pobres, de escolarizar a maior parte das crianças, de criar organizações para tratar das vítimas de violências várias.
Seremos capazes de viver em paz e em harmonia, sem bombas, sem torturas, mas quando? A população mundial está cada vez mais vulnerável, cada vez há mais pobres, mais desastres na natureza que sustenta a nossa existência…
Contra a tirania, contra a repressão, Adolfo Casais Monteiro faz versos para um mundo novo, de paz e liberdade. Ele, que era um resistente ao fascismo, que fora preso e impedido de leccionar, obrigado ao exílio, abria horizontes ao sonho futuro. “Europa” foi lido aos microfones da BBB em 1945, mas os portugueses não escutaram o grito do poeta. A emissão estava fechada pela censura.
https://ensina.rtp.pt/artigo/mario-viegas-contra-a-guerra-em-palavras-ditas/

