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Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 1 — Parte B: Texto 12 – “Piero Sraffa. Capítulo 4” (2/2). Por Alessandro Roncaglia

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos

Nota de editor:

Devido à extensão do presente texto, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a segunda.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

14 min de leitura

Parte B: Texto 12 – Piero Sraffa. Capítulo 4: Produtos básicos e produtos não-básicos (2/2)

 Por Alessandro Roncaglia

Edição  (ver aqui)

 

4.4 A relação salário-lucro

Ao considerar o salário como variável, Sraffa pode colocar a tónica no conflito de interesses entre capitalistas e trabalhadores sobre a distribuição do excedente económico. Um salário mais elevado corresponde (exceto em casos especiais) a uma taxa de lucro mais baixa [17]. Com a publicação de Produção de Mercadorias Através de Mercadorias, a curva que exprime a relação entre os salários e a taxa de lucro foi recolocada no centro da discussão da teoria económica (foi rebatizada pelos economistas neoclássicos como “fronteira dos preços dos fatores de produção (FPFP)”, numa tentativa de colocar o capital e o trabalho no mesmo plano, como “fatores de produção”). A existência de uma relação entre salário e taxa de lucro é naturalmente também reconhecida na tradição marginalista, mas como a sua abordagem estabelece valores de equilíbrio únicos para as duas variáveis da repartição, torna-se possível ignorar qualquer possível conflito de interesses, pois existe uma solução natural dotada do desejável atributo da otimização do sistema.  Esta solução é também equitativa, uma vez que cada fator de produção recebe o equivalente à sua contribuição para a produção. Em contraste nítido, Sraffa rejeita a possibilidade de determinar a repartição no âmbito da análise da teoria dos preços, o que permite que o conflito em torno da distribuição do excedente económico volte a ser colocado em primeiro plano na análise económica, embora numa outra “área analítica”, distinta da referente à determinação dos preços relativos [18].

A relação inversa entre o salário e a taxa de lucro, como sugerido anteriormente (ponto 3.3), está no centro da teoria de Ricardo e da sua crítica à teoria dos preços de Adam Smith. No entanto, para Ricardo e os seus seguidores mais próximos, esta proposição constitui a base para atacar as classes fundiárias e as rendas, e não para elucidar o conflito de interesses entre capitalistas e trabalhadores. A explicação reside, evidentemente, no facto de o salário ser considerado como fixo ao nível de subsistência. Não é, portanto, dos trabalhadores que os capitalistas têm de defender os seus rendimentos, mas da possibilidade de um aumento das rendas, o que implicaria um aumento dos custos de produção das mercadorias assalariadas e, portanto, dada a tecnologia, uma redução dos lucros dos capitalistas. Uma vez que os economistas clássicos supõem que os lucros são inteiramente destinados à acumulação, os lucros são também vistos como originando aumentos na procura de trabalho. Existe, assim, um interesse comum que serve para ligar capitalistas e trabalhadores na defesa contra o inimigo comum da acumulação de capital e do crescimento económico, os proprietários de terras. Apenas alguns anos após a morte de Ricardo, os socialistas ricardianos e alguns economistas clássicos (como Torrens, 1834) salientaram que existe também um conflito de interesses entre capitalistas e trabalhadores no que respeita à distribuição do rendimento nacional. Este conflito ocupa um lugar central na análise de Marx, ainda que o lugar de destaque esteja reservado à crítica do sistema capitalista no seu conjunto. A análise de Sraffa ilustra diretamente o conflito distributivo entre salários e lucros, conflito este que que é suavizado pela análise marginalista, mas que é, de facto, de importância fundamental para a compreensão da sociedade capitalista.[19]

 

4.5 Os bens de subsistência e a distinção entre bens básicos e não-básicos

Já se viu como o facto de se considerar o salário como variável – em vez de ser constituído por uma componente de bens de subsistência e outra componente variável, de excedente – esconde a importância dos bens de subsistência. A fim de ter em conta a posição particular destes bens, Sraffa sugere que o limite mínimo da taxa de salário seja determinado pelo preço do cabaz de bens de consumo de subsistência. As alterações nas condições de produção dos bens de subsistência influenciariam assim diretamente este limite mínimo da taxa de salário. Uma alteração nos métodos de produção dos bens de consumo dos assalariados afeta a repartição e o conjunto dos preços relativos se, e só se, a alteração da taxa de salário mínimo influenciar a taxa de salário real. No entanto, se a alteração das condições de produção disser respeito apenas a uma mercadoria salarial que não seja tecnologicamente bem básico, não haverá qualquer influência na curva salário-lucro quando o salário for medido em termos de um produto tecnologicamente de base. Se a mudança tecnológica em causa afetar a repartição do rendimento, o que se verifica é apenas um deslocamento ao longo da curva salário-lucro; se a taxa de lucro não se alterar, então os preços relativos de todos os produtos de base permanecerão inalterados.

Há uma deslocação equi-proporcional e uniforme da curva que exprime a relação entre salário e taxa de lucro somente se o salário for medido em termos de um produto tecnologicamente não básico cuja técnica de produção mudou (ou em termos de um cabaz de mercadorias de que a mercadoria em questão é uma das suas componentes). Neste caso, os preços relativos medidos em termos desta mercadoria específica alteram-se todos na mesma proporção. As mercadorias que compõem o “excedente” de consumo dos trabalhadores, tal como os bens de luxo consumidos pelos capitalistas, não têm sequer esta influência indireta nos preços uma vez que não entram na determinação do limite mínimo da taxa de salário.

É muito difícil distinguir entre os bens que podem ser considerados parte do consumo de subsistência e os que podem ser considerados parte do consumo excedentário dos trabalhadores. No entanto, a análise efetuada acima indica que é possível uma definição mais flexível, sem alterar as relações analíticas básicas do sistema. Alterações na técnica de produção e, por conseguinte, no preço de um produto não básico consumido pelos trabalhadores implicarão, de facto, um impacto diferente nos salários, consoante a maior ou menor importância atribuída ao produto pelos trabalhadores no cabaz de bens de consumo. Por outro lado, a situação geral – económica e social – em que tais mudanças ocorrem também será de grande importância para determinar a extensão da mudança real no salário.

Os resultados apresentados em Produção de Mercadorias Através de Mercadorias são, como Sraffa confirma, independentes do facto de o salário ser tratado da forma aí sugerida, ou de se dividir o salário numa parte fixa que representa a pura subsistência e numa parte variável que representa a participação do trabalho na distribuição do excedente económico [20]. No entanto, neste ponto, deve ser evidente que a distinção de Sraffa entre produtos básicos e não básicos assenta em fatores inteiramente tecnológicos e é independente dos hábitos de consumo dos trabalhadores, que tinham fornecido a base para a distinção dos economistas clássicos entre bens necessários (de subsistência) e bens de luxo.

 

4.6 A relação com a teoria do crescimento proporcional de von Neumann

Para compreender melhor a definição de produtos básicos, especialmente no que se refere ao problema dos bens salariais discutido na secção anterior, é útil fazer uma comparação entre as abordagens semelhantes de Sraffa e a de von Neumann (1945-6).

O objeto da Produção de Mercadorias Através de Mercadorias é o estudo da relação entre o salário e a taxa de lucro e a relação entre estas duas variáveis distributivas e os preços relativos. A distinção entre produtos básicos e não básicos deriva, portanto, da necessidade de identificar as mercadorias que influenciam estas relações de uma forma geral. O sistema desenhado por von Neumann, por seu lado, propõe uma descrição das características essenciais de um sistema económico partindo da hipótese de as técnicas de produção serem dadas e os rendimentos à escala serem constantes. Como é sabido, na abordagem de von Neumann o sistema económico expande-se de forma equilibrada a uma taxa de crescimento igual à taxa de excedente (a relação, calculada para cada mercadoria separadamente, entre o excedente de produção e as quantidades da mesma mercadoria utilizadas na produção), que é uniforme para todas as mercadorias, incluindo as salariais. Assim, a solução proposta por von Neumann permite determinar as condições para se obter a taxa máxima de crescimento do sistema, nas hipóteses acima referidas. Para técnicas de produção dadas e rendimentos à escala constantes, uma dada taxa de crescimento da produção exige uma expansão proporcional da quantidade de trabalho empregue e, por conseguinte, com uma taxa inalterada de salários reais, uma expansão proporcional equivalente do fundo de salários ou, por outras palavras, da quantidade de bens salariais. Estes bens, no entanto, como vimos acima, não se incluem na categoria de produtos básicos, tal como definidos por Sraffa.

Analisemos algumas implicações desta diferença. Podemos considerar, como exemplo, uma economia centralmente planeada com rendimentos à escala constantes. Imagine-se que o Conselho de Planeamento Económico pretende elaborar um plano que gere um crescimento proporcional [21] com preços que tenham associada uma taxa de lucro uniforme em todos os sectores.

O sistema de Sraffa parece sugerir que o planeador central que se ocupa da fixação dos preços poderia limitar a sua intervenção, numa primeira fase, apenas nos produtos de base do sistema. No entanto, estes devem ser considerados em conjunto, devido à interdependência que existe entre os seus vários processos de produção. A determinação dos preços dos produtos não básicos, incluindo os produtos salariais, pode então ser considerada numa segunda fase, tendo em conta os preços já determinados para os produtos básicos. Além disso, se, por qualquer razão, o preço de qualquer mercadoria for fixado a um nível diferente do seu “preço de produção”, tal afetará direta ou indiretamente o custo de produção de todas as outras mercadorias, se a mercadoria em questão for um produto de base. Se, pelo contrário, o bem for não-básico, não haverá efeitos sobre os custos de produção dos outros bens ou, no máximo, tê-los-á sobre os custos de um número limitado de bens não básicos conexos. Pelas mesmas razões, os impostos e subsídios de produtos não básicos numa economia de mercado não devem, por si só, repercutir-se em todo o sistema de preços relativos. Poderá haver apenas efeitos indiretos se esses impostos ou subsídios induzirem alterações na repartição do rendimento.

Voltemos ao sistema de planeamento centralizado em que o objetivo é obter uma taxa de crescimento uniforme em todos os sectores. Neste caso, a planificação da quantidade de bens salariais a produzir não pode ser negligenciada (nem, em geral, a quantidade de bens de consumo), mesmo numa primeira fase. Com efeito, como já se viu, a quantidade de trabalho utilizada deve aumentar ao mesmo ritmo dos outros meios de produção; se o salário real for constante, é também necessário um acréscimo do consumo igual à taxa geral de crescimento do sistema no seu conjunto.

Se o objetivo de crescimento uniforme em todos os sectores for abandonado, o problema pode restringir-se à determinação dos níveis de produção correspondentes a um produto líquido alvo composto pelas várias mercadorias. Neste caso, podemos utilizar um modelo dual bem conhecido como o que se aplica à determinação dos preços. Com efeito, os níveis de atividade das indústrias não básicas necessários para obter uma dada produção líquida destes bens podem ser determinados antes dos níveis de atividade das indústrias dos produtos de base, que podem então ser determinados em função dos níveis fixados para o primeiro grupo de indústrias [22]. O que deve ser salientado neste contexto é que, no planeamento das produções, os bens salariais podem ser tratados como produtos de base, uma vez que o trabalho é necessário em todos os processos produtivos: os níveis de produção dos sectores que produzem bens salariais são determinados simultaneamente com os níveis de produção das indústrias tecnologicamente básicas, subordinados aos níveis de atividade das indústrias que produzem bens de luxo, quando a estas forem fixados os objetivos de produção.

O mesmo exemplo pode ser utilizado para compreender os limites de aplicabilidade da distinção entre produtos básicos e não básicos. A hipótese crucial é a de a tecnologia ser dada. Se houver uma mudança na técnica adotada numa ou mais indústrias, a composição do grupo de produtos básicos pode mudar. Os produtos que anteriormente eram considerados básicos podem tornar-se não básicos nas novas condições tecnológicas e vice-versa.

Consideremos, por exemplo, um sistema que produz dois bens, trigo e carvão. Cada uma destas mercadorias é necessária como meio de produção para ambas as mercadorias. Se houver uma mudança na técnica de produção utilizada na indústria que produz trigo de tal forma que este pudesse ser produzido nas novas condições sem a utilização de carvão como fator de produção, então o trigo tornar-se-ia o único produto de base do sistema. O carvão, que anteriormente era um produto de base, passaria a ser considerado um produto não-básico. Se o exemplo for invertido, com a técnica de produção de trigo a mudar de modo a exigir novamente o carvão como meio de produção, a mudança passa de um sistema com um produto de base (trigo) para um sistema com dois produtos de base (trigo e carvão).

É igualmente possível que a técnica utilizada num produto de base seja alterada com a introdução, por exemplo, de uma nova máquina que não existisse anteriormente no sistema. Nesse caso, a máquina é introduzida no sistema como bem básico.

A distinção entre produtos básicos e não-básicos é, portanto, estritamente válida apenas dentro dos limites da hipótese de técnicas de produção inalteradas, pelo que só pode ser utilizada no contexto de um problema dinâmico com a maior prudência. A utilização rigorosa da distinção de Sraffa só é possível dentro dos limites do problema teórico proposto por Sraffa, nomeadamente a determinação dos preços de produção e da sua relação com as variáveis distributivas.

 

4.7 O efeito dos impostos sobre os produtos básicos, não-básicos e salariais

Em conclusão, a noção sraffiana de produtos de base, embora tenha as suas raízes na economia política clássica britânica, implica uma modificação substancial da conceção em que os produtos de base eram simplesmente identificados com os bens salariais. Um passo na direção certa foi dado por autores intermédios entre os clássicos e Sraffa, como Dmitriev e Bortkiewicz, que construíram sistemas em que os produtos básicos incluíam não só as mercadorias salariais, mas também todas as mercadorias direta ou indiretamente necessárias à sua produção (um ponto que tinha sido ignorado na conceção mais simplificada dos clássicos) – ou seja, incluindo todos os produtos tecnologicamente básicos. A definição de Sraffa só satisfaz o seu objetivo operacional (nomeadamente a especificação das mercadorias que têm uma influência generalizada nos preços relativos) quando se excluem as mercadorias consumidas pelos trabalhadores que não são tecnologicamente básicas. Esta modificação pode ser ilustrada através do exame dos efeitos de um imposto cobrado sobre um determinado bem, um dos principais problemas em que os economistas clássicos utilizaram a distinção entre bens básicos e não básicos.

Um imposto que incida sobre uma mercadoria de base desloca para o interior a curva da taxa de salários e, se essa mercadoria for utilizada em proporções diferentes nos ramos de atividade, produz uma variação nos preços relativos de todas as mercadorias. Pelo contrário, um imposto que incide sobre um produto não básico deixa inalterada a curva salários-taxa de lucro (sempre na condição de a mercadoria não ser utilizada ou não entrar nem direta nem indiretamente na mercadoria que serve de unidade de medida. Se não houver uma influência direta sobre a repartição, esse imposto também deixa os preços relativos inalterados (exceto, evidentemente, a variação do preço, depois de impostos, da mercadoria em questão e, eventualmente, de todos os outros produtos não básicos para os quais constitui um fator de produção, relativamente ao preço de todas as outras mercadorias).

Em comparação, quais são os efeitos de um imposto que incide sobre um bem salarial? No sistema de Ricardo, com o salário fixado no nível de subsistência, um imposto sobre um bem salarial não pode induzir uma redução do salário real e deve, portanto, ser deduzido nos lucros, de modo que a taxa de lucro diminui. Nesta base, Ricardo criticou o imposto especial sobre o consumo de milho (trigo), bem que representava, por excelência, os bens salariais e propôs que, em vez disso, fosse tributada a renda, quer direta quer indiretamente, através de um imposto sobre os bens de luxo. Uma vez que os salários não podem ser reduzidos, qualquer imposto sobre os bens assalariados incidiria, de facto, sobre os lucros, dificultando assim a acumulação e reduzindo a taxa de crescimento da economia.

No quadro do sistema de Sraffa, pelo contrário, um imposto cobrado sobre um bem salarial recai inicialmente sobre os trabalhadores enquanto a taxa de lucro, determinada pelas condições de produção dos produtos de base e pelo nível do salário (dado), não se alteram. A possível reação dos trabalhadores a uma redução do seu poder de compra real só pode ser explicitamente considerada numa segunda aproximação; isto só pode ser feito tendo em conta as exigências e concessões de aumentos dos salários em dinheiro e as consequentes alterações nos salários reais e nos preços relativos. O resultado final depende, portanto, de muitos fatores e só pode ser considerado idêntico ao de Ricardo na condição de os trabalhadores conseguirem repor o seu poder de compra real ao nível original.

 

4.8 Sobre a existência de preços positivos das mercadorias não básicas

A categoria de produtos não básicos adquire obviamente maior relevância, uma vez que se reconhece que inclui os bens salariais em consequência do facto de o salário total ser considerado como variável. No entanto, os economistas muitas vezes assumem, por hipótese, que não são considerados produtos não básicos no sistema. Tal hipótese é útil como uma primeira aproximação se levar à determinação de resultados iniciais, que são posteriormente verificados em modelos analíticos que tomam explicitamente em conta bens não-básicos. O pressuposto não deve ser utilizado para evitar dificuldades analíticas diretamente associadas à existência de produtos não básicos.

Na verdade, esse tipo de procedimento foi adotado para a solução de uma importante questão analítica – a demonstração da existência de preços positivos num sistema capaz de se reproduzir com um excedente [23]. Numa exposição matemática da Parte I da Produção de Mercadorias Através de Mercadorias, Newman (1962) mostra que, em alguns casos, os preços dos bens não básicos podem ser negativos. Incapaz de encontrar um significado económico para a restrição matemática necessária para que o sistema só admita preços não negativos, Newman (1962: 66-7) sugere que a hipótese da inexistência de produtos não básicos seja geralmente aceite em tais sistemas.

Na verdade, este problema já tinha sido investigado por Sraffa num apêndice ao seu livro. O caso de preços negativos para produtos não básicos só pode surgir para produtos deste tipo necessários como inputs para a sua própria produção. Mais precisamente, este caso surge quando o ‘rácio do excedente’ da mercadoria não básica em questão é inferior à taxa de lucro no conjunto das indústrias de base. (O rácio excedentário ou do excedente de uma mercadoria é dado pelo quociente da divisão do produto excedentário – ou seja, a quantidade produzida menos a quantidade utilizada na produção – pela quantidade necessária na produção; é, portanto, igual à taxa de lucro na indústria considerada no pressuposto de os preços de todos os meios de produção que não a mercadoria produzida na indústria serem iguais a zero). No exemplo do apêndice de Sraffa (Sraffa 1960: 90-1), isso ocorre quando 100 unidade de trigo, além do trabalho e outros meios de produção, forem necessárias para produzir 110 umidades de trigo e a taxa de lucro no sistema de indústrias básicas for maior que 10%. O significado económico desta condição pode ser facilmente compreendido. Como Zaghini (1967a: 261) explicou,

porque a taxa de lucro é, por hipótese, uniforme no sistema, as indústrias não básicas são obrigadas a aceitar a taxa de lucro que foi determinada independentemente no grupo das indústrias básicas. No entanto, o facto de terem de o aceitar não significa que o possam aceitar. Eles podem aceitá-lo se, e somente se, sua estrutura satisfaz [as condições mencionadas acima] [24].

O problema também foi examinado numa troca de cartas entre Sraffa e Newman. Nessas cartas, Sraffa aponta não apenas o significado económico dessa condição, mas também a extensão de sua plausibilidade [25].

É da natureza (ou, se você quiser, da definição) dos bens básicos serem interligados e formarem um sistema. É, por outro lado, devido à peculiaridade do bem não-básico estarem desligados uns dos outros e de eles serem incapazes de formar um sistema independente. Na melhor das hipóteses, cada um destes bens pode ser formalmente tratado como constituindo um único sistema de mercadorias separado, com a sua própria taxa de lucro: essa taxa (para cada separado não-básico) pode ser comparada com a taxa do sistema básico. A priori, é extremamente improvável que qualquer taxa individual seja menor do que a do sistema básico, composto, como este último é, de muitos produtos, todos usados direta ou indiretamente na produção uns dos outros.

Em qualquer caso, embora possamos, em princípio, imaginar casos como os ‘beans’ de Sraffa, a implicação óbvia é que tais mercadorias não-básicas não serão produzidas, uma vez que os empresários envolvidos em sua produção serão incapazes de conseguir obter a taxa concorrencial de lucro, por mais elevado que seja o preço do seu produto e, consequentemente, os seus capitais serão investidos noutras indústrias.

A existência de produtos não básicos não coloca problemas intransponíveis para a teoria de Sraffa dos preços de produção. Pelo contrário, como a nossa discussão no presente capítulo implica, constitui um elemento de notável interesse. A distinção entre produtos de base e não básicos também permite clarificar uma série de problemas relativos aos efeitos da tributação indireta. Assim, podemos concluir que a distinção entre produtos básicos e não básicos é, de facto, indiscutivelmente, o aspeto da teoria de Sraffa de maior interesse direto em termos de potencial aplicação a problemas de política económica.

 

__________

Notas

[17] Não há exceções à relação inversa entre salário e taxa de lucro no caso de um sistema de produção simples, ou seja, em que cada indústria produz uma única mercadoria. Para uma demonstração, ver Sraffa (1960: 38-9). No caso de um sistema de produção conjunta, é possível que o salário, medido em termos de alguns produtos específicos produzidos conjuntamente, esteja positivamente relacionado com a taxa de lucro. Mais uma vez, veja-se Sraffa (1960: 61-2).

[18] Este ponto é desenvolvido por Roncaglia (1993).

[19] Recordemos, no entanto, que a curva salário-lucro é construída com base numa dada tecnologia e num dado nível de produção: a relação dinâmica entre salários e lucros é muito mais complexa. A teoria marginalista tradicional determina os valores de equilíbrio das variáveis de repartição (correspondentes a um ponto da fronteira salário-lucro) através da comparação entre as funções da procura e da oferta dos “fatores de produção” capital e trabalho. Como veremos mais adiante (capítulo 6), Sraffa critica esta teoria negando assim a existência de um ponto de equilíbrio na fronteira salário-lucro. Sobre as análises dinâmicas da repartição do rendimento num quadro na linha de Sraffa ver o ponto 8.6.

[20] Para uma análise dos efeitos dos diferentes tratamentos do salário (como totalmente variável ou como constituído por uma parte fixa -em bens de subsistência e outra ligada aos bens colocados na categoria de bens de luxo), ver Roncaglia (1975, capítulo 5).

[21] Suponhamos que o sistema económico já se encontra nessa trajetória no momento considerado.

[22] Veja-se, por exemplo, Zaghini (1967a: 262–3).

[23] Naturalmente, um tal problema não se coloca num sistema na situação de reprodução simples; isto é, um sistema capaz de reproduzir-se, mas incapaz de produzir um excedente. Num tal sistema, os produtos não básicos não podem existir porque a sua produção exige como input(s) algum(ns) produto(s) básico(s), o que criaria uma carência do produto de base para ser utilizado numa indústria de base ou a disponibilidade ‘a partir do exterior’ do sistema do produto de base a utilizar na produção de produtos não básicos.

[24] Zaghini (1967a: 263–6) considera igualmente o caso dos grupos interligados de produtos não básicos em que alguns produtos não básicos são utilizados na produção de outros produtos não básicos

[25] Piero Sraffa, carta a P. Newman datada de 19 de junho de 1962, e publicada como um apêndice em Bharadwaj (1970: 428). Em termos matemáticos, o que Sraffa diz pode ser expresso da seguinte forma. A taxa máxima de lucro (e a taxa de lucros para um determinado salário) é uma função inversa da raiz característica da matriz dos coeficientes técnicos das indústrias básicas. A raiz característica, por sua vez, é uma função positiva de cada um dos elementos da matriz, dado que estes são todos não negativos. Assim, tenderá a subir com um aumento na característica da matriz ou, por outras palavras, quando se passa de uma matriz composta de apenas um elemento positivo (que é a posição de um sistema com uma única mercadoria) para uma matriz com mais de uma linha e mais de uma coluna não linearmente dependentes; isto é, com mais de um elemento positivo (a matriz relevante para um sistema de produção interligado com todas as mercadorias usadas direta ou indiretamente na produção de todos os outros bens). É, portanto, improvável que a raiz característica de uma matriz de característica 1 deve ser superior à de uma matriz de característica n, sendo n m número razoavelmente grande. Em consequência, é improvável que a taxa de lucro ‘individual’ de um sistema formado a partir de um único produto não básico (atribuindo um preço zero a todos os meios de produção diferentes da mercadoria produzida) deve ser inferior à taxa de lucros do sistema básico formado por muitas indústrias interligadas .

 


O autor: Alessandro Roncaglia [1947-] foi professor catedrático de Economia Política na Faculdade de Ciências Estatísticas da Universidade de Roma La Sapienza (1981-2017), sócio correspondente da Academia dei Lincei, diretor das revistas Moneta e credito e PSL Quarterly Review e presidente da Sociedade Italiana de Economistas. Autor de Breve História do Pensamento Económico, Economistas que se Equivocam, As raízes culturais da crise (2015), A era da desagregação: história do pensamento económico contemporâneo, A riqueza das ideias, Uma história do pensamento económico (2005), Economistas Clássicos, O mito da mão invisível (2011), Sraffa e a teoria dos preços (1978), Piero Sraffa, his life, thought and cultural heritage (2000).

 

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