Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 1 — Parte B: Texto 8 – “Piero Sraffa. Introdução”. Por Alessandro Roncaglia

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5 min de leitura

Parte B: Texto 8 – Piero Sraffa. Introdução

 Por Alessandro Roncaglia

Edição  (ver aqui)

 

Piero Sraffa é, juntamente com Keynes, provavelmente o maior economista do século XX, e está entre as figuras proeminentes da cultura europeia do seu tempo. Este livro pretende substanciar esta afirmação, que está longe de ser universalmente aceite.

De facto, com exceção dos anos 30 e do período de 1960-1970 em que a controvérsia girou em torno do núcleo central da análise económica – a teoria da empresa e da indústria e a teoria do capital e da distribuição – as contribuições de Sraffa pareceram suscitar o interesse apenas de especialistas, não lhes sendo atribuído qualquer papel substantivo no debate económico atual. No entanto, esta é uma forma fácil de contornar algumas dificuldades cruciais na área da economia que têm de ser ultrapassadas ainda. De facto, a teoria económica dominante não demonstrou a existência de erros na análise da Sraffa (como veremos houve tentativas neste sentido, mas todas falharam) nem se ajustou aos seus resultados, o que teria implicado uma mudança drástica no rumo da investigação, com o abandono do seu núcleo central, nomeadamente a abordagem marginalista do valor e da distribuição. A estratégia seguida pelo pensamento dominante (ortodoxo) foi simplesmente ignorar e contornar estes resultados, com a consequente fragmentação de análises “elitistas”, internamente consistentes mas baseadas em hipóteses irrealistas, incapazes de fornecer resultados claros e, portanto, irrelevantes quando se trata de lidar com questões do mundo real; e um conjunto de análises “simplistas”, desarticuladas, sobre questões específicas, como as teses que constam dos manuais escolares de macroeconomia dominantes, cujos fundamentos teóricos são irremediavelmente defeituosos.

A distinção entre as análises “elitista” e “simplista” foi explicitamente invocada por Paul Samuelson (1962: 193-4) em resposta às críticas sraffianas às principais linhas teóricas do pensamento económico dominante das décadas do pós-Segunda Guerra Mundial. Se a preocupação principal for garantir a consistência interna de uma abordagem, escolhem-se as análises “elitistas” (ou seja, a teoria pura do equilíbrio geral) enquanto se for relativamente à relevância prática da análise, escolhem-se os modelos simplificados ou “simplistas”. No entanto, as análises deste último tipo são prejudicadas por se basearem em hipóteses simplificadoras, indefensáveis, com recurso, por exemplo, a modelos macroeconómicos de um só bem ou análises de equilíbrio parcial, cujo papel é contornar questões como as levantadas por Sraffa.

O resultado foi a acentuada fragmentação da teoria económica atual, com investigadores especializados cada um numa área separada. Com este grau de fragmentação, a “ciência normal” é desenvolvida em cada área, fingindo-se que se estabelecem ligações entre elas e as visões gerais sobre como funciona a economia de mercado. No entanto, as pistas vagas relativamente à existência de uma estrutura básica (a teoria do equilíbrio geral do valor e da distribuição) não são suficientes para estabelecer a ligação necessária, uma vez que o modelo do equilíbrio geral é, pela sua própria natureza, demasiado geral e abstrato para ser aplicado a qualquer questão específica. De facto, as hipóteses introduzidas no modelo a fim de o adaptar para lidar com as questões específicas em causa incorporam regularmente elementos da teoria tradicional marginalista que tinham sido alvo de críticas devastadoras por parte da Sraffa. Confrontada com esta situação, pode muito bem  reconhecer-se que a reconstrução da economia sugerida por Sraffa com base numa abordagem Clássico-Keynesiana proporciona melhores fundamentos para cada área específica da investigação económica.

Para fundamentar a tese acima resumida, precisamos de analisar as contribuições de Sraffa com algum pormenor. Fazem parte de um grande projeto que tem por objetivo desviar o carro da ciência económica numa direção oposta àquela para que tem sido conduzida pela abordagem marginalista/neoclássica/subjetiva dominante. Assim, o projeto precisa de ser ilustrado, juntamente com o contexto em que foi concebido.

Alguns esclarecimentos terminológicos podem ser muito úteis agora. Qualquer simples bipartição do campo de batalha teórico acarreta diferenças dentro de cada um dos lados. Nas páginas seguintes, concentramo-nos obviamente na variedade sraffiana da abordagem Clássica, ilustrando-se as suas características distintivas. Inversamente, a abordagem mainstream/marginalista/neoclássica/subjetiva, a que Sraffa se opõe, abrange diferentes correntes, desde a corrente dominante do período em que o livro de Sraffa foi publicado (representada, por exemplo, pelo influente livro de Samuelson de 1948) até aos “austríacos” explicitamente criticados por Sraffa, ou a Wicksteed, referido como “o purista da teoria marginal” (Sraffa 1960: v). O facto é que as críticas de Sraffa se aplicam a todas elas mesmo que, ocasionalmente, por vias diferentes.

Começamos, no Capítulo 1, por apresentar alguns elementos de fundo, úteis mas também de não pouco interesse em si mesmos, ilustrando brevemente a vida de Sraffa e os seus primeiros escritos. Isto inclui as suas primeiras opiniões sobre moeda e banca, que o levaram a entrar em contacto com Keynes; a ligação política com Antonio Gramsci, líder do partido comunista italiano; e os célebres artigos em que pôs em questão os fundamentos da teoria marshalliana da empresa. No capítulo 2, “Um italiano em Cambridge”, analisamos os antecedentes do seu livro de 1960, Production of Commodities by Means of Commodities. Tal implica olhar para o ambiente cultural de Cambridge dominado por personalidades como Keynes e Wittgenstein e as suas relações com Sraffa; os extenuantes esforços empreendidos na edição crítica das obras e correspondência de Ricardo, com o objetivo de repropor a abordagem Clássica nas suas características originais, baseada nas noções de divisão de trabalho e de excedente, após décadas de interpretações erradas. No capítulo 3 descrevemos a principal contribuição de Sraffa, o pequeno livro – pouco mais do que um panfleto – com potencial explosivo mas críptico na sua concisão, Production of Commodities by Means of Commodities (Produção de Mercadorias Através de Mercadorias). Os capítulos 4 e 5 são dedicados a discutir com maior detalhe alguns dos aspetos mais importantes da análise da Sraffa: respetivamente, a distinção entre produtos básicos e não básicos e a mercadoria padrão. A crítica das abordagens marginalistas do valor e da distribuição é considerada no Capítulo 6. No Capítulo 7 apresento a minha interpretação do quadro conceptual que constitui uma parte integrante – de facto, os fundamentos – do livro de Sraffa de 1960, incluindo as importantes ligações com o pensamento de Wittgenstein e Keynes. Finalmente, as contribuições pós-1960 para a reconstrução de uma abordagem Clássica-Keynesiana são brevemente analisadas no Capítulo 8, onde a variedade de vias abertas à investigação económica pela obra de Sraffa é ilustrada através de um artifício, nomeadamente a distinção de três “escolas sraffianas”.

Estou grato a Tony Thirlwall e à Palgrave Macmillan por me terem induzido a reconsiderar as minhas opiniões sobre a revolução criada com Sraffa e a tentar apresentá-las de novo de forma sistemática. Sraffa disse uma vez a um colega meu: “Demorei mais de trinta anos a escrever este livro, obviamente que é preciso mais do que alguns meses para o compreender”. Já passaram cerca de 40 anos desde que comecei a estudar as obras de Sraffa, e mais de 30 anos desde que publiquei pela primeira vez sobre o assunto (Roncaglia 1975); é claro que isto não é garantia em si mesmo de uma interpretação correta, mas posso dizer que fiz o meu melhor.

Neste longo período, acumulei uma série de dívidas. Primeiro, a Paolo Sylos Labini, que me introduziu ao pensamento de Sraffa (e, com uma carta de apresentação, ao próprio Sraffa) pouco depois de me ter iniciado na investigação económica como uma atividade não estranha ao mundo real. Em segundo lugar, ao próprio Piero Sraffa, que conheci no Verão de 1970 e sob cuja orientação estudei em 1971-3, discutindo com ele – na altura e posteriormente – o livro que estava a escrever, bem como muitas outras questões. Para a maioria dos estudantes italianos em Cambridge na altura, ele era uma figura familiar e amiga, interessada nos nossos estudos e nas nossas vidas, ansiosa por discutir a política italiana. Exerceu uma forte influência sobre muitos de nós, de formas diferentes – mas nunca nos mostrando “a verdade”, ou simplesmente as suas opiniões sobre qualquer assunto: preferia ouvir as nossas ideias e discuti-las de modo a que se gerassem novas ideias a partir das suas incessantes críticas. Estou igualmente grato a Richard Arena, Krishna Bharadwaj, Marcella Corsi, Geoff Harcourt, Jan Kregel, Luigi Pasinetti, Bertram Schefold, Luigi Spaventa, Ian Steedman, Josef Steindl, Roberto Villetti e muitos outros por discussões e críticas ao longo dos anos.

Ao escrever este livro, recorri ao que escrevi em 1975 e aos ensaios (Roncaglia 1990, 1994, 1998) recolhidos na minha publicação de 1999, mas com pequenas e grandes alterações e adições, demasiado numerosas para as detalhar aqui. Estou grato a Rob Langham e à Routledge pela permissão de utilizar partes da edição inglesa do meu livro de 1999. Os meus agradecimentos (mas sem implicações para o resultado final) são também devidos aos amigos e colegas que, muitas vezes depois de discutirem estes tópicos comigo durante anos, suportaram a tarefa adicional de ler e comentar os primeiros esboços de partes deste livro: Carlo D’Ippoliti, Nerio Naldi, Annalisa Rosselli, Neri Salvadori, Tony Thirlwall e Mario Tonveronachi. Agradecimentos são também devidos a Graham Sells pelos seus esforços em melhorar o meu pobre inglês.

 


O autor: Alessandro Roncaglia [1947-] foi professor catedrático de Economia Política na Faculdade de Ciências Estatísticas da Universidade de Roma La Sapienza (1981-2017), sócio correspondente da Academia dei Lincei, diretor das revistas Moneta e credito e PSL Quarterly Review e presidente da Sociedade Italiana de Economistas. Autor de Breve História do Pensamento Económico, Economistas que se Equivocam, As raízes culturais da crise (2015), A era da desagregação: história do pensamento económico contemporâneo, A riqueza das ideias, Uma história do pensamento económico (2005), Economistas Clássicos, O mito da mão invisível (2011), Sraffa e a teoria dos preços (1978), Piero Sraffa, his life, thought and cultural heritage (2000).

 

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