(Ao fim de uma longa vida, nunca pensei ser possível assistir, em directo para todo o mundo, a tão incomensurável barbárie, a tão macabra carnificina, a tão cruel genocídio como aquele que acontece em Gaza. Um holocausto não escondido, como o outro, mas a céu aberto. Não consigo, e penso que será muito difícil a quem quer que seja, expressar literariamente tão desumana tragédia, mesmo deitando mão do mais amargo sabor da poesia. Por isso aqui vos deixo um poema já antigo, do tempo da Intifada, mas que traduz tanto quanto possível a vida na Palestina desde os princípios do século XX).
PALESTINA
Não há sol nos céus da Palestina
não há luz nos olhos da Palestina
roubaram o sorriso à Palestina.
São de sangue as gotas de orvalho da madrugada
e o vento só é vento quando as balas assobiam
roubaram as manhãs à Palestina.
O céu de chumbo esmaga as almas e os ossos
e é de lágrimas a chuva quando cai
não há sol nos céus da Palestina.
Do ventre da lua cheia
cheia de aço e de amargura
nasce a cada hora um menino com bombas à cintura
mataram a infância na Palestina.
Rasgam as mães os seios com arroubos de ternura
para alimentar a raiva
por cada filho que perdem outro nasce da sepultura
semearam a dor na Palestina.
Nas casas esventradas
rompem por entre as pedras leitos de sofrimento
onde à noite se acoitam os amantes
queimando a dor na paixão de um momento
fizeram em pedaços o amor na Palestina.
Cada instante é uma vida na vida da Palestina
cada momento uma taça de vingança clandestina
cada gesto um vulcão de raiva que nem a morte amansa