Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos
Nota de editor: devido à extensão e nível de abstração deste texto, o mesmo será publicado em oito partes. Hoje a oitava e última parte.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
12 min de leitura
Parte C: Texto 6 – A solidão do corredor de maratona (8/8)
Sraffa, Marx e a crítica da teoria económica
(conclusão)
Conclusões
É agora altura de puxar os cordelinhos deste longo capítulo, lembrando as diferentes leituras à luz das novidades trazidas pelos Sraffa Papers, e sintetizando o que sinto a necessidade de vos propor. Faço-o, partindo da convicção de que Claudio Napoleoni tem substancialmente razão quando afirma que o projeto cultural de Sraffa, que ele “prosseguiu com tenacidade e extrema coerência ao longo de toda a sua vida, tanto no seu comportamento prático como na sua produção teórica”, pode ser definido da seguinte forma: “Sraffa foi, antes de mais, um comunista, no sentido “negativo” em que esta palavra é usada por Marx, no sentido de uma crítica ao processo histórico em curso. Era-o, e sempre o quis ser; mas era um comunista convencido, ao mesmo tempo, de que a crítica do processo histórico em curso tinha de ser refeita desde o início, porque o que tinha sido feito já não era suficiente” [109].
O “significado” das equações do seu esquema teórico é claramente antecipado por Sraffa nos anos 40, numa nota intitulada Man from the Moon:
O significado das equações é, simplesmente, o seguinte: se um homem caísse da lua sobre a terra e anotasse a quantidade de coisas consumidas em cada fábrica e a quantidade produzida por cada fábrica durante um ano, deduziria a que valores as mercadorias devem ser vendidas, se a taxa de juro fosse uniforme e o processo de produção se repetisse. Em suma, as equações mostram que as condições de troca são inteiramente determinadas pelas condições de produção [110].
Isto não impediu, evidentemente, a emergência de conflitos radicais de interpretação, bem como de genealogias teóricas alternativas, que este capítulo testemunhou, e que põem em causa toda a tradição da economia política e a relação com Marx
Pier Luigi Porta [111] é um autor que, a partir de uma perspetiva muito diferente da delineada neste capítulo, defendeu com veemência que Sraffa era um ‘marxista’, distorcendo as suas conclusões analíticas para se adequar à sua própria ideologia, lendo Ricardo através das lentes de Marx. A tese de uma tal distorção ideológica não tem, a meu ver, qualquer fundamento, e é de qualquer modo paradoxal que Porta partilhe a convicção dos neoricardianos, com quem polemiza, de que o debate científico demonstrou conclusivamente a falsidade das proposições marxianas, a começar pela teoria do valor trabalho. No entanto, vimos nestas páginas como a referência a Marx é, de facto, central no percurso de Sraffa que o conduz à Produção de Mercadorias: e vimos também como, de certo modo, Sraffa se torna mais, e não menos, marxiano depois de reler o primeiro livro de O Capital, em 1940.
Uma circunstância que é particularmente relevante, porque documentámos como muitas interpretações de Sraffa correspondem, mais às notas do final da década de 1920, do que às de fases posteriores. Uma posição sobre as notas inéditas, que foi progressivamente articulada e aperfeiçoada, é a de Kurz e Salvadori, a que já nos referimos, que defendiam que Sraffa teria partido de um Marshall que se queria ver compatível com Marx. No final de 1927, ocorre o ponto de viragem de que fala Garegnani. Para estes autores, de facto, o jogo situa-se sobretudo nesta primeira fase de preparação do livro de 1960. No final da década de 1920, Sraffa começará a construir a abordagem do excedente com base numa visão da produção como um processo circular que remete para a abordagem dos clássicos, o que, ao mesmo tempo, abre uma crítica ao marginalismo e é a proposição positiva de uma sólida teoria económica alternativa. No entanto, estes desenvolvimentos implicariam uma rutura com a teoria do valor do trabalho, que é lida, pelo primeiro Sraffa, como uma “corrupção” de Petty e dos Fisiocratas, que realçavam antes os “custos físicos reais” e os verdadeiros custos absolutos das mercadorias (true absolute costs of commodities). A teoria do valor é vista como uma abordagem dualista e não monetária dos preços individuais, e não – à maneira das abordagens marxianas mais recentes -, como uma teoria não dualista (sistema único) e imediatamente monetária.
O esquema teórico alternativo de Sraffa veria na tentativa de Marx e, antes dele, na de Ricardo, um valioso precedente, porque a teoria do valor-trabalho teria sido, na altura, o único instrumento analítico disponível para a construção de uma teoria objetiva dos preços: um instrumento, no entanto, até então inadequado e, em qualquer caso, não correspondente à complexidade teoricamente sofisticada e empiricamente rica dos conceitos de Ricardo e Marx. Acontece que, de acordo com esta reconstrução, os valores do trabalho não teriam qualquer relevância na análise. A chave de tudo estaria no programa “fisicalista”, no objetivismo como ponto de vista “naturalista”: uma verdadeira “ciência das coisas”. Sraffa é apresentado como um seguidor de James Mill, aquele Mill que defendia que os agentes da produção seriam as próprias mercadorias.
De um ponto de vista crítico, podemos observar que uma tal posição – se não corrigida, paradoxalmente, pela lente do Marx hegeliano que vê em O Capital o Sujeito e o Fetiche a serem automaticamente reconhecidos e desmistificados -, aparece, de facto, fortemente marcada por aquilo que o próprio Sraffa, (nas suas notas contra Bortkiewicz acima referidas), qualifica como fetichismo da mercadoria. Para manter a tese de uma forte continuidade entre as três fases de redação do livro de 1960, estes autores – já o vimos – têm de esterilizar as novidades intermédias, e deixar em segredo os espiões que conduzem a uma leitura marxiana de certas passagens da investigação de Sraffa.
A esterilização em causa é bem patente na conclusão do ensaio dos dois autores na Festschrift em honra de Steedman, que citamos (o itálico é meu). Começa por proclamar: “A interpretação de Steedman é plenamente corroborada pelos trabalhos até agora inéditos de Sraffa”, o que, no entanto, como vimos, só é parcialmente verdadeiro, para o primeiro subperíodo, que vai de 1927 a 1931. Isto é um facto que os autores, que são académicos sérios, não podem deixar de reconhecer. Com efeito, não podem deixar de acrescentar logo a seguir: “As provas apresentadas, sobretudo no primeiro período das suas obras reconstrutivas e interpretativas, documentam com algum pormenor a atitude crítica de Sraffa em relação à LTV e a sua defesa dos custos reais físicos”, o que é indiscutível. Mas isso não invalida o facto de, a certa altura, ser necessário explicar uma mudança significativa de atitude: “No entanto, quando, no final do primeiro período, Sraffa começou a discutir o sistema com um excedente e a participação dos trabalhadores na partilha do excedente, estava disposto a incluir as quantidades de trabalho entre os dados objectivos”. É neste ponto que deve intervir a esterilização das surpresas trazidas pelo arquivo depois de 1940, com a Value/Statistical Hipo, e a chave passa a ser a mercadoria padrão como construção auxiliar [112].
Bem diferente é o raciocínio de De Vivo, para quem a referência fisicalista ao pão de Petty e aos fisiocratas foi uma orientação passageira numa fase muito inicial, quase uma espécie de reação a Marshall. O mérito da reconstrução de De Vivo e Gilibert, a que dedicámos particular atenção, reside em considerar com algum detalhe o segundo período, que vai sensivelmente de 1942 a 1945, da construção sraffiana do seu livro. Contrariando Garegnani, argumenta-se que não houve um ponto de viragem radical em 1927 e, contrariando Kurz, argumenta-se que o ponto de partida para escrever Produção de Mercadorias foi Marx. Em 1927, Sraffa teve a oportunidade de ler (em francês) Teorias da Mais-Valia. As “equações” de Sraffa baseiam-se em padrões de reprodução, essa é a tese. No início da década de 1940, e especialmente em 1942-1943, Sraffa desenvolveu a Value Hypothesis, que também pode ser chamada de Statistical Hypothesis. Na altura, o economista de Turim acreditava que a sua investigação só poderia conduzir ao Velho Mouro. Foi uma tentativa que falhou em 1943, quando se deu o colapso do Hipo. Vimos, no entanto, que este “fracasso”, embora conduza Sraffa à construção do sistema padrão e da mercadoria-padrão, não o conduz, de forma alguma, sic et simpliciter (assim e simplesmente) à crítica do final dos anos 1920 à teoria marxiana do valor, como parecem acreditar Kurz e Salvadori (e independentemente da validade da tese de que o ponto de referência de Sraffa no final dos anos 1920 era Marx, e o Marx dos esquemas de reprodução, como pensam De Vivo e Gilibert).
Uma outra crítica a Kurz e Salvadori, que partilhamos, é a de Ginzburg, que considera errado equiparar o objetivismo de Sraffa ao fisicalismo, como forma de naturalismo metafísico como o de Otto Neurath, segundo o qual só as coisas físicas “existem”. No final da primeira fase, nomeadamente em 1931, Sraffa abandonou todo o materialismo positivista, todo o “cientismo”: os termos objetivo e subjetivo são sempre utilizados por ele num sentido que os situa “relacionalmente” e culturalmente. Ginzburg, por outro lado, também sofre da limitação de se concentrar principalmente, como Garegnani, no período 1927-1931: o mesmo período de anos que é central na definição da interpretação de Kurz e Salvadori.
Há ainda a proposta interpretativa de Pasinetti de que Produção de Mercadorias é uma investigação “pré-institucional”, puramente lógica, de uma economia “capitalista”, isto é, industrial [113]. Segundo Pasinetti, as características primárias e naturais de um sistema económico devem ser estudadas independentemente de um tipo específico de organização institucional [114]. Para Pasinetti, Sraffa é um “enigma” que deve ser decifrado como ponto de partida de uma tentativa teórica mais alargada de investigação estrutural e dinâmica. Também aqui é útil recordar a apreciação de Ginzburg:
enquanto Kurz veria Sraffa numa conceção redutora de “materialismo” (não muito distante da leitura que Bukharin faz de Marx), Pasinetti vê-lo-ia no quadro de um “idealismo” de abstrações genéricas. Sraffa, tal como Gramsci, constituiria a superação desta polaridade antitética. Isto não significa que Pasinetti não possa fazer sugestões válidas para uma utilização diferente dos preços de produção numa reconstrução da teoria marxiana [115].
Uma última interpretação revelou-se esclarecedora para os objetivos da nossa leitura. Embora vinda de um autor que não trabalhou nos documentos do arquivo de Sraffa em Cambridge, a exegese de Alessandro Roncaglia do seu livro de 1975 é confirmada em alguns dos seus pontos fortes pelo que surgiu posteriormente. Segundo Roncaglia, Sraffa não tem qualquer intenção de propor uma teoria geral. Em vez disso, o seu livro deve ser visto como uma análise pontual em que os preços de produção se referem a um “instantâneo” do sistema num momento no tempo, em que os métodos de produção e o consumo produtivo, bem como o produto e, portanto, os inputs e outputs (as entradas e saídas), são “dados”. Uma tal perspetiva não pode evidentemente deixar de se colocar, como a deste vosso autor (ver capítulo quatro), de forma crítica em relação àqueles que remetem os preços de produção para posições de longo prazo. Do meu ponto de vista, esta abordagem é compatível com uma teorização marxiana mais alargada da “constituição” desses dados, tal como é dada na teoria do valor enquanto “determinação formal” do trabalho, da produção e da acumulação (ver capítulo cinco).
Neste capítulo, seguiu-se esta pista e propôs-se uma possível e diferente linha de continuidade de Sraffa com Marx a partir dos Sraffa Papers: diferente, no sentido em que se distancia dos velhos argumentos do “marxismo tradicional” de autores como Dobb e Meek, que também afirmavam uma continuidade. Dobb, recorde-se, sugeria uma sequência inaceitável de “aproximações”, do valor (-trabalho) ao preço (de produção): um dualismo que foi efetivamente contestado pela tradição sraffiana. Meek, que foi secundado por Eatwell e outros, via na reflexão sobre a mercadoria-padrão o instrumento de uma possível retoma do valor-trabalho [116]. Mais precisamente, Meek observou que a taxa máxima de lucro no sistema padrão é dada em termos materiais e é, portanto, independente das relações de troca, uma vez que as mercadorias compostas no numerador e no denominador foram tornadas iguais por construção. A dificuldade aqui é, como Napoleoni assinalou em boa hora, que a mercadoria padrão é precisamente uma construção ad hoc, de modo que apresenta essas propriedades [117]. Para usar a expressão do próprio Sraffa, trata-se de uma construção “puramente auxiliar”, concebida de modo a que a taxa de lucro seja independente dos preços e, portanto, dependente apenas das quantidades físicas (incluindo o “trabalho”). Em Marx, como em Ricardo (embora com as contradições apontadas no capítulo 4), as quantidades de trabalho devem ser o ponto de partida incontornável a partir do qual se deduzem, sucessivamente, primeiro a taxa de lucro e depois os preços de produção. Em Sraffa, pelo contrário, a configuração da produção e o salário permitem determinar simultaneamente os preços e a taxa de lucro sem qualquer referência necessária às quantidades de trabalho contidas. Nota: a mercadoria padrão é construída a partir das mesmas quantidades dadas que no sistema original: em virtude disso, não pode ser utilizada para restabelecer uma prioridade, ou uma independência, da taxa de lucro, enquanto rácio de quantidades de trabalho, em relação aos preços.
Trata-se de uma crítica que nos parece muito sólida e que só pode ser contornada com uma condição: a de podermos remontar geneticamente a configuração produtiva – de forma “causal”, por assim dizer – à teoria marxiana do valor. Um argumento que, após a consulta dos documentos de Sraffa, só pode ser avançado agora, graças a uma leitura que liga as normalizações dos parágrafos 10 e 12 de Produção de Mercadorias ao The Use of the Notion of Surplus Value. Em suma, efetuando a operação deste capítulo, que não é certamente a de Meek ou Eatwell [118].
Por outro lado, igualmente significativa é a descontinuidade: não só de Sraffa em relação a Marx, mas também de Marx em relação a grande parte do marxismo contemporâneo. A determinação macrossocial marxiana do salário real da classe trabalhadora não é adequadamente conceptualizada, nem pelo economista de Turim nem pelas novas interpretações. Quando nestas últimas se fala de uma abordagem macromonetária, “macro” é entendido simplesmente como agregado, “monetário” refere-se exclusivamente ao equivalente universal, e o salário de mais-valia é definido exclusivamente em termos de trabalho comandado (preços de produção) e não de trabalho contido (preços simples proporcionais aos valores do trabalho). A “variabilidade” do tempo de trabalho vivo, que vimos ser tão central no discurso de Marx, é necessariamente posta de lado em qualquer esquema que parta de uma dada configuração produtiva.
Nesta perspetiva, confirma-se o que Graziani defendia em 1983: “É, pois, erróneo afirmar, como muitas vezes se faz, que na explicação dos preços falha a teoria marxiana do valor. Trata-se, de facto, de um fenómeno em que, não havendo um problema de valorização a analisar, a teoria marxiana do valor não entra diretamente” [119]. A análise das relações entre classes, ou seja, a análise social macroeconómica, por um lado, e a análise das relações no interior de uma mesma classe, ou seja, a análise microeconómica concorrencial, por outro, são fenómenos diferentes, que respondem necessariamente a lógicas distintas. A determinação dos preços na circulação capitalista de mercadorias tem lugar quando o objeto de análise próprio da teoria do valor (“valoração” como processo) está completamente constituído e, portanto, não pode mudar o seu carácter. O que se observa são apenas as “coisas” resultantes, aquelas que podem ser observadas pelo “homem da lua” de que fala Sraffa. O objetivo da investigação de Marx é outro, e mais fundamental: explicar a origem do neovalor e, portanto, da mais-valia; para compreender a geração de lucros brutos. A resposta está no “consumo” dos portadores vivos da força de trabalho, na extração do trabalho vivo pelo capital como um vampiro: não há “redundância” possível no processo de constituição do capital, porque – como Sraffa tão bem viu em 1940, e como Marx escreveu em letras claras -, a produção capitalista não é mais do que trabalho. Quando chegamos ao final da produção (e portanto quando a configuração produtiva está definida), quando chegamos à fase do trabalho morto (o trabalho vivo transformou-se em trabalho direto), estamos no terreno analítico de Ricardo, cujas contradições dissecámos no capítulo quatro. Este é o momento do circuito capitalista em que a fixação dos preços e das quotas distributivas não pode deixar de ter lugar, e daí o chamado problema da transformação. A quantidade absorvida de trabalho direto já está dividida entre as duas classes em resultado do resultado da luta de classes na produção: uma parte é o trabalho necessário para a produção das mercadorias que vão para os assalariados; a outra parte é o trabalho excedente que produziu as mercadorias que fazem parte do excedente, ou seja, a diferença entre o trabalho vivo e o trabalho necessário. Tudo o que a dimensão dos preços individuais pode fazer é distorcer a necessária manifestação fenoménica da mais-valia (como lucros monetários brutos) e o valor da força de trabalho (como massa salarial monetária.
Se a teoria marxiana for reconstruída como uma análise monetária no sentido de Schumpeter e Keynes, e se for prolongada para se tornar uma verdadeira teoria macromonetária da produção e distribuição capitalista, o conceito de “valor-trabalho”, como regra de troca no caminho do valor para o preço de produção, longe de desaparecer, é reconfirmado como essencial, embora numa abordagem não dualista. Por duas razões, sobre as quais insistimos neste livro e neste capítulo. Em primeiro lugar, é a regra do preço em que se deve basear o “método de comparação” que é indispensável para fundamentar o postulado de Foley e a normalização de Sraffa como momentos da teoria do (sobre)valor de Marx. Em segundo lugar, fornece a explicação que, por si só, permite descrever a relação de classe fundamental subjacente à relação de capital como o resultado do confronto antagónico entre capital e trabalho. Nesta base, é possível integrar Sraffa e a Nova Interpretação, mas voltando a Marx: um Marx “reconstruído”.
De certa forma, Vianello, Dobb e Napoleoni tinham razão, se lidos de forma complementar. Vianello, porque o novo valor acrescentado no período é afetado à circulação de mercadorias através dos preços, que podem (a este nível da argumentação) ser imediatamente identificados com os preços de produção, como faz Sraffa. Trata-se de uma perspetiva não dualista que só precisa de ser modificada tendo em conta explicitamente a identidade entre o neovalor e o trabalho direto (enquanto objetivação do trabalho vivo), o que nos remete novamente para Sraffa e Dobb, porque, de facto, a macro distribuição entre classes explica-se precisamente em termos de valor-trabalho: sem, no entanto, ter de passar por uma dupla aproximação, emancipando a teoria do valor-trabalho do seu papel quase exclusivo de teoria dos preços. Uma posição cuja verdade só pode ser afirmada se o salário real de toda a classe trabalhadora for visto como sendo fixado pelas decisões inconscientes mas coletivas da classe capitalista, incluindo os bancos e as empresas, portanto através do papel autónomo da procura por eles exercido (principalmente a de investimento). É evidente que neste raciocínio também se afirma a relutância de Napoleoni em cortar o “valor de troca” como elo intermédio entre valor e preço.
O capital produz e reproduz as condições sistémicas que obrigam os trabalhadores a alienar a sua força de trabalho. É esta “circularidade” que é exposta com precisão na Produção de Mercadorias, onde as mercadorias são produzidas a partir de mercadorias, incluindo o trabalho concreto extraído da mercadoria força de trabalho: de capital para capital. No entanto, essa circularidade depende da “linearidade” do processo de exploração, em que é o trabalho vivo enquanto trabalho abstrato – a “utilização” dos trabalhadores – que dá origem ao capital, ao passo que o inverso não é verdadeiro: é por isso que Sraffa pode escrever contra Bortkiewicz que as mercadorias são produzidas pelo trabalho a partir das mercadorias, as mercadorias são produzidas pelas mercadorias através do trabalho. Uma frase do final da década de 1920, que já citámos, pode ser relida de outra forma (não só qualitativa, mas também quantitativamente) através da lente deste Sraffa: «It is the whole process of production that must be called “human labour”, and thus causes all product and all values”. (É todo o processo de produção que deve ser designado por “trabalho humano” e que, por conseguinte, está na origem de todos os produtos e de todos os valores “) [120].
Só “incorporando” os portadores vivos da força de trabalho e, portanto, o trabalho vivo, na substância morta das mercadorias, servindo como elementos materiais do novo produto e como fatores do processo de trabalho, é que os capitalistas conseguem converter o valor em novo valor, o dinheiro em mais-valia. O corpo material do capital “subsume” em si uma alteridade viva e só assim se torna esse monstro animado que começa a “trabalhar” como se estivesse possuído pelo amor. O que está aqui em causa é tanto a capacidade do capital para frutificar e se multiplicar como a sua impossibilidade de escapar completamente a uma dependência dos trabalhadores no que se refere à génese de todo o neovalor e, consequentemente, de si próprio. A “objetividade espetral” do livro de Sraffa deve, em última análise, ser reconduzida ao processo de constituição do capital, à extração do trabalho vivo dessa mercadoria muito especial, a força de trabalho, que é inseparável do ser humano.
Notas
[109] Veja-se a página 34 de C. Napoleoni, Circolarità del capitale e leggi della distribuzione, em R. Bellofiore (editado por ), La teoria economica dopo Sraffa. Scritti di Claudio Napoleoni, “Economia Politica”, 8, 1, 1991, pp. 34-44. Trata-se de uma republicação de uma intervenção na jornada de estudo sobre Piero Sraffa e l’Economia Politica degli anni ’80, organizada no ’Istituto di Economia politica dell’Università Bocconi em 22 janeiro de 1988.
[110] D3/12/7: 85.
[111] P.L. Porta, The Formative Stages of Piero Sraffa’s Research Program, paper apresentado em Allied Social Science Association (ASSA) Annual Conference, San Francisco, 2015.
[112] Veja-se H. Kurz, N. Salvadori, Sraffa and the Labour Theory of Value cit., p. 210.
[113] Cfr. L.L. Pasinetti, Structural Change and Economic Growth, Cambridge, Cambridge University Press, 1981; Id., The Sraffa Enigma, “European Journal of the History of Economic Thought”, XII, 3, 2005, pp. 373-378; Id., Piero Sraffa and the Future of Economics, “Cambridge Journal of Economics”, XXXVI, 6, 2012, pp. 1303-1314.
[114] N. Garbellini, A.L. Wirkierman, Pasinetti’s Structural Change and Economic Growth: A Conceptual Excursus, Università Cattolica del Sacro Cuore, Gruppo PRIN, 2007.
[115] Referimo-nos à possibilidade, que exploramos em outras obras, de ler os preços da produção marxista, não à Garegnani, como «centros de gravidade» mas como uma espécie de «ideia platónica». Uma referência útil para esta leitura é o artigo de A. Salanti, The Notion of Long Period Positions: A Useful Abstraction or a Platonic Idea?, “Political Economy – Studies in the Surplus Approach”, VI, 1-2, 1990, pp. 95-102. Não podemos desenvolver aqui esta tese.
[116] Veja-se R.L. Meek, Sraffa’s Rehabilitation of Classical Economics, “Scottish Journal of Political Economy”, VIII, 2, 1961, pp. 119-136, poi in Id., Economics and Ideology and Other Essay: Studies in the Development of Economic Thought, London, Chapman and Hall, 1967 ( este volume foi traduzido para italiano e publicado por Laterza em 1969, com o título Scienza economica e ideologia). E veja-se ainda J. Eatwell, Theories of Surplus Value: Old and New, “Science and Society”, XXXVIII, 3, 1974, pp. 281-303; Id., Mr. Sraffa’s Standard Commodity and the Rate of Exploitation, “Quarterly Journal of Economics”, LXXXIX, 4, 1975, pp. 543-555.
[117] C. Napoleoni, Smith Ricardo Marx, prima ed., Torino, Boringhieri, 1970. Napoleoni manteve essa crítica num ensaio da primeira edição que não foi repetido na segunda.
[118] Um lapso de língua de De Vivo é interessante aqui. Na sua recensão ao livro sobre Sraffa editado por mim e por Carter, na p. 126, escreve: “Alguns dos seus pontos sobre a teoria do valor trabalho devem, no entanto, ser rejeitados liminarmente, por exemplo, a afirmação de que a normalização nos §10 e §12 do livro de Sraffa pode ser interpretada como um apoio explícito à teoria do valor trabalho” (itálico meu). Esta afirmação não se encontra em lado nenhum do livro, muito menos no meu ensaio ou na introdução escrita por nós os dois. Em vez disso, escrevemos que a dupla normalização pode ser interpretada como um “apoio implícito à teoria do valor-trabalho r”: o que é, evidentemente, uma coisa completamente diferente. Aqueles que leram este capítulo já sabem que, no entanto, não discordo de todo de De Vivo quando escreve: “Ela [a normalização] não pode certamente (constituir em si mesma um apoio à teoria do valor-trabalho). Uma escolha de unidades não pode representar um apoio a qualquer teoria”. De facto, não é a normalização em si que importa, mas sim a possível relação com a nota de 1940, os comentários após o lançamento do livro e, em geral, o percurso intelectual que tracei neste capítulo. Outro dos mal-entendidos de De Vivo é assumir que os autores do volume que revê partilham as mesmas conclusões sobre a relação Sraffa-Marx: mais uma vez, basta-me referir as minhas críticas a Gattei-Gozzi, Perri e Carter nesse livro e neste capítulo. Estes mal-entendidos de De Vivo justificam a sua reconciliação demasiado fácil da minha posição com a de Dobb e Meek, como se fosse um fulgor na estrada para Damasco e uma abjuração das críticas anteriores que eu tinha feito à sua leitura marxista tradicional de Sraffa. Não é assim, nem todos os autores referidos tem a mesma visão quanto à relação Sraffa-Marx.
[119] A. Graziani, Riabilitiamo la teoria del valore, “l’Unità”, 10 de junho de 1983.
[120] D3/12/11: 64.
Riccardo Bellofiore [1953 – ], é professor de Economia na Universidade de Bergamo. Os seus interesses estão na teoria marxista do valor, a abordagem macromonetária em termos de circuitos e minskianos, a filosofia económica e o desenvolvimento e a crise do capitalismo. É conhecido internacional mente como o fundador da Teoria do Circuito Monetário. Integra a comissão científica para a edição completa das obras de Marx e Engels e do Simpósio Internacional sobre a Teoria Marxista. Publicou recentemente Le avventure della socializzazione (Mimesis, 2018) e editou, com Giovanna Vertova, The Great Recession and the Contradictions of Contemporary Capitalism (Edward Elgar, 2014) e Ai confine della docenza. Per la crítica dell’università (Accademia Universit Press Press, 2018). Em 2019 publicou Euro al capolinea? La vera natura della crisi europea.

