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EVA CRUZ – A SAIA DA ROSA MARIA

 

A Rosa Maria já entrou na casa dos sessenta, mas como todos nós foi criança. Ambas frequentámos a mesma Escola Primária, embora com vinte anos de diferença. A velha Escola dos Dois, no alto do Cimo d’Aldeia, hoje fora do tempo, silenciosa e triste, com as suas grandes janelas quadradas no piso inferior, o dos rapazes e as janelas arqueadas no piso de cima, o das meninas. Chegava-se à escola pelos carreiros dos matos, atravessando a estrada que os cortava a meio.

A Rosa Maria tinha sete anos e andava na primeira classe. Era um dia de feira, com movimento mais intenso do que o costume. Ao fugir de uma motorizada, não viu o automóvel que vinha em sentido contrário e foi quase mortalmente atropelada. Vestia uma sainha preta.

Acordou ao fim de um mês de um coma profundo.

Era eu jovem mulher e lembro-me muito bem desse acidente. Mas nunca soube que a menina vestia uma sainha preta. Soube-o ontem, quando a Rosa Maria a ponteava cuidadosamente, toda puída e a delir-se, a fim de que ela durasse sempre e não morresse, como aconteceu com a sua pequenina dona.

Há coisas simples da vida que nos abrem a alma a sentimentos inesperadamente poéticos, ainda que feitos de poesia amarga. Esta é uma delas. Colhida como uma flor no meio do caminho. Uma sainha preta a desfazer-se, o troféu de uma menina que venceu a morte, o elo simbólico da ligação à vida.

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