CONTOS & CRÓNICAS – “A Rosa do Aú” – por Eva Cruz

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Rosa era alta e magra. Tinha pernas de gazela. Aos olhos de hoje seria modelo mas naquele tempo não atraía os homens. Corpo bem torneado, pernas roliças, brancas, com uma serrinha de cabelo preto e macio era então o ver dos olhos. Se ela assim fosse, não lhe teriam faltado pretendentes. Além do mais, era pobre, sem campos nem leiras, sem eira nem beira, não tinha mesmo onde cair morta. Ainda por cima era gaga e fanhosa.

 Cas0u com um pobre coitado da sua igualha que se chamava Augusto. Como ela pronunciava mal o seu nome, passou a ser chamada com a maior das naturalidades a Rosa do Aú.

 A casita para onde foram viver, encostada à rampa, tinha em baixo uma porta para a cozinha térrea, e num plano pouco mais acima, uma outra porta com três degraus de pedra e um janelo. O fumo da lareira saía pelas telhas soltas e para além da luz da fogueira, a candeia de azeite na padieira alumiava debilmente a negrura das paredes.

No exíguo espaço, que servia de quarto e sala, encostada a um canto, uma cama assente em dois bancos de madeira tosca. No outro canto, jazia uma arca de pau com alguma limpeza que não passava de lençóis e fronhas de estopa. O linho era para os ricos. Pela Páscoa, a caixa coberta com uma toalha branca e enfeitada com flores azuis e miudinhas da sargacinha, servia de altar para receber o Senhor e o Aleluia, Aleluia, do padre.

As necessidades faziam-nas na horta.

Foi este o palácio ou o hotel onde a Rosa e o Augusto passaram a lua-de-mel. Na aldeia chamavam-lhe então a rua do melro ou a rua do mel. Não havia imaginário para outra lua que não fosse a do céu estrelado de Janeiro ou Agosto.

Dizia-se então, que depois dos banhos na igreja, nada constava em redor a impedir que ambos contraíssem matrimónio. E numa manhã de Domingo, veste a Rosa um fatito claro, da mesma cor de um pequeno véu e uns sapatos emprestados que não lhe assentavam bem nos pés, de tão calejados pelos socos ou por andar descalços. A seu lado, o Augusto num fato de calças a regar que não foi de certeza talhado para ele. Na igreja repicaram os sinos e dali para a frente passaram a ser marido e mulher até que a morte os separasse.

Compraram um cartucho de açucre amarelo, na venda do largo e levaram-no para casa. A lua-de-mel passou-se com certeza ao jeito que souberam dar-lhe, temperada de açúcar amarelo. Pitada a ti, pitada a mim, lá foram lambendo, toda a noite, a doçura do amor e do açúcar.

Eram tão simples e ingénuos que contaram a forma singular como tinham passado a sua noite de núpcias. A aldeia que está atenta a tudo que saiba a chacota ou paródia nunca mais largou o episódio que foi passando de boca em boca e de geração em geração.

A casita ainda lá está, a descoberto – as telhas levou-as o vento, e o quarto de casal distingue-se do resto, pelas escaditas de pedra, gretadas pelas chuvas e pelo tempo. Silvas e ervas daninhas nascem e crescem no meio das pequenas ruínas. Junto à ombreira do que foi o quarto de núpcias, floresce em Maio uma roseira vermelha todos os anos. As rosas são carmim, da cor do sangue, de pétalas muito unidas e perfumadas. Mesmo depois de secas não perdem o perfume. Chamam-lhes rosas de Alexandria.

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