CONTOS & CRÓNICAS- « O azevinho» – por Eva Cruz

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Eva

Anda pelos noventa anos. Vive ao cimo da calçada numa casita empoleirada sobre a adega, apenas com duas janelas e uma porta. Faça chuva ou faça sol, uma das janelas, a do lado nascente, está sempre aberta até altas horas. Nas noites quentes de Verão ou nas noites claras de Inverno, lá está a Micas à janela a contemplar a lua e as estrelas até a noite entrar pela madrugada.

Mulher jeitosa e bonita no seu tempo, ficou solteira toda a vida. Nunca soube o que era um home. Quem ela queria não a quis e quem a queria não quis ela.

Viveu com o pai e com a mãe. Deles cuidou até à morte, sempre amarrada à terra. Era jornaleira e o seu grande amor fora trabalhar no campo.

De dez irmãos, seis já se foram.

Pelo Natal e pela Páscoa reparto algum afecto pelas minhas vizinhas da aldeia, umas coisitas doces. Com o meu saquito de chocolates acenei-lhe debaixo da janela a desejar-lhe um Bom Natal.

O Natal já não me diz nada. Resta-me olhar para as estrelas e rezar por eles todos. O Senhor esqueceu-se de mim. Passo aqui o meu tempo. Doença de verdade não tenho. Como e durmo bem. Só os ossos é que não me deixam trabalhar na terra. Gostava tanto de poder trabalhar! É o meu maior desgosto.

Olhei em volta e na penumbra do anoitecer desapareceu a vida daquela aldeia. Nas paredes das casas mal caiadas bailavam as sombras dos que por ali viveram, sombras agigantadas pela memória da luz da candeia. Nos muros velhos e nos combros hibernavam agora cobras e lagartos. As borboletas brancas dos lameiros e as pintalgadas dos açudes aninhavam-se talvez em casulos, agasalhando as crisálidas com mãos de seda. O silêncio pairava no ar que arrefecia. As aves tinham partido. Nem sequer o pio agoirento e arrepiante do mocho se fazia ouvir lá para os matos, sufocado pelas copas dos pinheiros bravos.

A Micas, uma das resistentes ao desaparecimento, retribuía-me o afecto com algum produto das suas leiritas. Um cesto de uvas americanas, uns formosos limões, umas rosas de uma roseira que há anos cresce solitária encostada à porta ou um ramo de hidrângeas brancas, de um branco tão branco como nunca se viu. Um dia deu-me uma haste que espetei na beira de um combro, porque pega de estaca. Para meu desconsolo, deu flor de um rosa pálido. Disse-me a Micas que a cor depende da terra. Há hidrângeas de muitas cores, mas brancas só as dela.

Ofereceu-me há tempos um azevinho que deu este ano bolinhas vermelhas pela primeira vez.

É um pé de azevinho de boa qualidade. Não é bravo, é dos que dão bolinhas vermelhas. Plante-o onde quiser. Só é pena é que já não vai dar bolinhas no meu tempo.

Segredei-lhe a novidade.

Lá está o azevinho, este Natal, verde e vermelho, virado para a calçada, a olhar para a Micas nas noites quentes ou frias, enquanto para ela houver estrelas e luar.

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