ORLANDO MAÇARICO – O VOTO, A CORRUPÇÃO E A “ANESTESIA AXIOLÓGICA”
joaompmachado
Um investigador universitário espanhol questionava: não deveríamos esperar que os cidadãos, frente a políticos que fazem um uso ilícito dos recursos públicos, utilizassem o voto eleitoral – o instrumento potencialmente mais poderoso que tem a cidadania para controlar a corrupção – para castigar os responsáveis e afastá-los dos seus cargos?
Verifica-se que, com frequência, perante a evidência de tais condutas desviantes tal castigo não acontece.
“A população, mesmo já informada da existência de corrupção, continua a votar em pessoas que não se coíbem de colocar os seus interesses pessoais à frente dos interesses públicos “.
Mesmo sabendo que “a médio e longo prazo, a corrupção prejudica o crescimento económico, o desenvolvimento humano e o progresso moral e cultural das sociedades que dela padecem”.
Ainda assim, aquele poderoso instrumento da cidadania não funciona.
Logo, o problema está na cidadania. E quando assim acontece, em boa verdade, é a sociedade em seu conjunto que é corrupta.
E surgem as mais variadas tentativas de explicação: a noção de culpa e ética na cultura judaico-cristã (o terrível ciclo pecado/arrependimento/perdão), o fatalismo cultural, a percepção cínica de que “todos os políticos são iguais” e, até, o velho provérbio muito popular na América Latina : “Roba pero hace “.
A lei nunca foi o remédio!
E se nos lembrarmos que nos vários tipos de corrupção há práticas de autofavorecimento, conflito de interesses, amiguismo, nepotismo, tráfico de influências, e que mais…, questiona-se: e haverá sequer remédio?!…
Uma coisa parece ser certa: a “anestesia axiológica” colectiva, gera indiferença, impede-nos de sentir dor cívica e incapacita-nos para criar a força da vergonha social, da reprovação alheia como estímulo mais importante para desenvolver as virtudes sociais e acabar com as más práticas.
E como sair desse torpor?
Com “abat-jour” na transparência, seguramente que não!
Mas promover sociedades justas, pacíficas e inclusivas , não será , a final, uma tarefa sisífica?
É que a corrupção, como a estupidez, é de todos os tempos, mas cada tempo tem a sua.
Alguém, hoje, padece, por acaso, de “sofrimento espiritual profundo de se saber descoberto como infractor”?
Numa sociedade em que a responsabilidade moral não é cumulativa, onde se gera o autoconvencimento da inocência, num exercício de narcisismo reputacional, pela via da descredibilização do decisor e das leis de grupo, é uma realidade que me levou a hesitar na escolha do título para este desabafo, que poderia, então, sê-lo: CONSCIÊNCIA MORAL, VERGONHA SOCIAL, CORAR.