PALCO 223 – O FRACASSO DE ORFEU E O NOSSO… por Roberto Merino
joaompmachado
É costume nas companhias de teatro, durante o processo de ensaios, convidar espectadores a assistir a um ensaio, que não sendo geral, é um primeiro momento de encontro com o público que mais tarde cobiçamos conquistar.
Antes da nossa estreia do Orfeu e Eurídice do Teatro das Marionetas do Porto/TMP, convidei o meu amigo Mário Azevedo, professor de Música da ESMAE, diretor de orquestra e investigador, para assistir a um ensaio no pequenino TMP na Rua de Belomonte.
O professor Mário assistiu com os seus alunos acompanhado da Professora galega Ana Freijo, também docente da ESMAE, e nos brindou com este texto que agradecemos a sua publicação pela pertinência da análise do mito e deste, do Orfeu, em particular. Os meus agradecimentos a Mário Azevedo pela autorização de partilha com os nossos leitores.
O fracasso de Orfeu e o nosso…
Um dizer dirigido aos Profs. Roberto Merino e Ana Freijo, ao Teatro de Marionetas do Porto, no âmbito da UC em devir na ESMAE dedicada à Erótica da escuta. Em particular, é sobretudo também dirigido a uma comunidade de alunos em devir.
Escutar é ser tocado à distância.
Pascal Quignard
Um dizer dirigido a uma comunidade de está por chegar.
Imaginemos, por instantes, o mito como uma das nossas línguas primeiras, mas daquelas que se prestam a poderem ser declinadas no presente, tal como já aconteceu no passado e no futuro. Com esse empreendimento tornamos possível abrir caminhos de reflexão e de autonomia a que não estamos assim tão habituados. De alguma maneira, o mito transduz a experiência que temos do mundo e dá-nos força suficiente para sermos capazes de o reconstruir. São eles, os mitos, que continuam a revelar-nos os aspetos mais profundos e complexos daquilo de que somos feitos, envolvendo nisso necessariamente cultura e psique. Em particular, no mito de Orfeu acedemos a uma visão sonoramente ilustrada da tragédia humana exposta na debilidade da nossa própria condição. À ordem e ao Caos, Orfeu amansa-os e une-os numa exposição que acaba por nos afetar emocionalmente. É nessa exposição que sentimos o fracasso de Orfeu tal qual como uma metáfora consagrada à tragédia humana, por ficarmos a saber que mesmo o maior artista de todos nunca conseguirá superar os limites da vida e da morte. É isso que sentimos na perda de Eurídice manifestada pela inevitabilidade do seu afastamento, da sua morte e da mágoa que sentimos por darmos conta que a habilidade artística que a cada um de nós nos cabe tende a ser apenas um modo impotente, um meio aparatoso, mas insidioso de dominação cultural. A jornada de Orfeu é a metáfora para uma luta a ser ensaiada perante as condições materiais de existência e o resgate dirigido a Eurídice pode muito bem ser compreendido como uma tentativa de libertação que acaba por não acontecer pela presença de condições de realidade que desarmam o ímpeto de Orfeu. E daí a sua impotência. Estamos perante uma deambulação entre o desejo inconsciente em interromper o percurso do real e os conflitos internos entre desejo e perda. Eis uma história de uma perda. É a partir dela que Orfeu transforma anseio em luto, em fracasso e tudo isso caldeado pela sua recusa em acreditar apenas na escuta. Por não acreditar na escuta, assim nos parece ser ao insistir em olhar para trás, torna inevitável a perda de Eurídice. Eis Eros (vida) e Thanatos (morte), confronto esse que a música de Gluck e a melodia orelhuda de João Lóio trazem à clareza e à tragédia. Se repararmos com atenção, tudo isto pode-se articular muito bem com a dimensão trágica que Nietzsche aponta à nossa existência, numa deambulação entre Apolo e Dionísio, elementos esses constituintes da existência humana e da expressão artística que perseguimos permanentemente. Em todo o caso, Orfeu exemplifica a capacidade de transformação da realidade que a todos nós cabe sonhar e que pode ser vista como um processo intenso de nos posicionarmos perante o devir. O devir é necessariamente algo em permanente transformação. Eis uma linha de fuga, de escape para intentarmos a disrupção das estruturas rígidas da realidade. A música de Orfeu prepara-se não apenas para encantar, mas sobretudo para interromper, para criar interferência, criando uma outra possibilidade de sentirmos o mundo. O bom que seria se todos regressássemos à escuta de Orfeu nos dias que correm. Isso tornaria ainda mais possível acedermos à imanência, desta feita em forma de mito. Atentos a isso poderemos também focar-nos em Eurídice e dar conta de como esta é capaz de reorganizar o seu corpo – os bonecos do TMP assim nos permitam aceder a essa visão – numa nova e surpreendente estrutura vivente inusitada. A perda de Eurídice acontece por Orfeu não ter sido capaz de desafiar os binarismos vida/morte e presença/ausência e, com isso, evidenciar e fustigar a fragilidade dessas categorias. E é aqui que os mitos, o de Orfeu e de Eurídice em particular, nos ajudam a perscrutar e a ir em busca, se ela existir, de uma possível e caracterizável natureza humana. São eles que nos ajudam a refletir sobre os arquétipos universais que persistem em viver alojados no nosso inconsciente coletivo. São como que um espelho da experiência humana fundamental: o herói, a jornada, o retorno… e, por isso mesmo, uma fonte vital de sabedoria e de imaginação. Porque é que estamos aqui, no TMP ao lado de amigos, de artistas, numa espécie de ajuntamento dedicado à agremiação de falsários? Falo agora por mim: para revisitar amigos de causas comuns e para repensar ao lado deles, com os alunos do nosso lado, a história do conhecimento. E também para pousarmos um olhar crítico e de perspetiva sobre a forma como a história e a verdade nos tem vindo a ser contada. É por isso que os artistas, os atores, os encenadores, os músicos, os filósofos, os filólogos, os hermeneutas, os poetas, os agricultores e os artesãos estão interessados em nos dizer como é que vamos construindo conhecimento através dos sons, dos silêncios, das sombras, das marionetas e das palavras.