CARTA DE BRAGA – “de fábulas e contadores” por António Oliveira
clara castilho
Fabular e contar estórias –mesmo as que falam só de fadas, deuses, tarzans, batmans e outros invencíveis, que inundam os livros de banda desenhada e a cabeça das gentes– tem quase sempre um objectivo, que a maioria das pessoas não quer entender, ou não foi ensinada a ler e valorizar, o de ensinar o homem a sobreviver e livrar-se das armadilhas e enganos, especialidades de mandantes e mandadores.
Convém lembrar que as estórias ligadas à realidade, envolvendo quaisquer dessas figuras, acaba por criar símbolos, que o leitor ou ouvinte adapta às suas próprias ideias ou crenças, para contar por sua vez, aumentando ou tirando um ponto.
Vem isto a propósito de duas notícias lidas no mesmo dia, e que dão respostas à vida de todos nós, em todos os dias da nossa vida, mas devo adiantar que, poderei usar linguagem mais vulgar e menos própria para este tipo de crónicas do quotidiano (que não passam disso!), por uma delas a favorecer e bem.
Mas conta a primeira dessas notícias, também narrativas, que o lobby dos combustíveis fósseis, usa contra as energias alternativas: criar dúvidas sobre as soluções que ela apresenta, sobre o impacto geral e sua viabilidade, sobre a segurança energética, ao mesmo tempo que defendem a neutralidade dos governos, dos que não têm capacidade para impor tecnologias concretas.
David Boyd, ex-responsável pelos direitos humanos da ONU, afirmou ao ‘El País’ do passado dia 8, ‘Quando se extrai ou se queima gás, petróleo ou carvão, contamina-se gravemente a atmosfera, com consequências perigosas para a saúde humana, e são, ao mesmo tempo, a maior causa da crise climática, com custos descomunais, cerca de 8,1 biliões de dólares anuais’.
A este propósito e exactamente no mesmo dia, o DN afirmava, ‘A Dinamarca será o primeiro país do mundo a taxar arrotos e flatulências do gado, que contem o segundo gás com efeito estufa mais presente na atmosfera, uma medida inusitada com a qual pretende atingir seu objectivo de neutralidade de carbono até 2045’.
Mais adiantava este diário que, a partir de 2030, ‘As emissões de metano causadas pela flatulência de bovinos e suínos dinamarqueses, serão tributadas em 41, 06 euros (300 coroas) por tonelada equivalente de CO2’.
A questão que se me põe é, de alguma maneira técnica, (mesmo fabulando!): haverá um ou mais contadores de ‘traques’ por cada manada? E se alguma delas, malandra, a quem ele somou mais um traque, lhe dissesse ‘Não fui eu, foi aquela ali, a do corno caído’. E como é que vai ser nos porcos, imóveis naquelas ‘porcarias’ industriais? Haverá contadores automáticos? E como se fará a contagem? Serão premiados o menos barulhento e o que tiver descargas menores? E, finalmente, quem vai fiscalizar, para ver se algum dono, esperto, quer baixar a conta a pagar à dona dos contadores?
Um perito em engenharia ambiental, garantia a outro diário, também no mesmo dia, ‘O dinheiro está bem… para fazer coisas boas., não para ser atesourado: deixemos o actual “egossistema”, e passemos à economia do propósito, em que o capitalismo deve combater a escassez em vez de a originar’.
Duvido muito que também se pense em contadores para tal!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor