CARTA DE BRAGA – “Complemento oblíquo”por António Oliveira

No dia do ‘fazedor de mundos’, um curto e triste lamento sobre o ‘desfazer’ da língua’

Aqui há tempos, ao lado de uma jovem estudante e ouvindo a conversa com uma colega e amiga, percebi estarem a trocar dúvidas sobre um tal ‘complemento oblíquo’.

Apurei o ouvido mas nem foi necessário por ela se ter virado para mim a perguntar expectante ‘Sabes o que é o complemento oblíquo?

E eu, admirado, ‘Isso é quê? Geometria?

Sorridente, mas a mostrar pena por tanta ignorância ‘Não! É português!

Inclinei-me perante a inclinação da resposta e comprovei então, o plano inclinado para onde estava ser arrastado o ensino da língua nossa.

Sabia, até já tinha visto as fichas usadas por alguns professores e estabelecimentos de ensino para os alunos aprenderem gramática, já me tinham passado pelas mãos alguns textos de me deixarem aterrado, mas nunca tinha ouvido aquela do ‘complemento oblíquo

Abri depois um sítio na net e descobri isto ‘O complemento oblíquo (CObl) é uma função sintáctica que integra o predicado. É seleccionado pelo verbo e pode assumir a forma de um grupo adverbial, de um grupo preposicional ou a coordenação de ambos. Além disso, pode também apresentar diferentes valores semânticos

Com este esclarecimento, tão oblíquo como o complemento, relembrei quase comovido, os meus professores de português na primária e primeiros anos do secundário, por nos porem de pé, livro na mão, a ler os textos e os versos (assim se dizia então!) por eles indicados, para depois explicarmos o que tínhamos lido.

Outras vezes, para todos poderem fazer uma ‘redacção’ (assim se dizia também!), um de nós ou ele mesmo lia; depois todos escrevíamos o que tínhamos percebido!

Oblíqua ali, era só a rampa da escola, por ficar lá no cimo de uma rua, mas boa de descer à saída!

E lembrei também como muitos desses textos e versos, tratavam temas da História e de estórias, as de nos levarem para projectos e utopias de fazer crescer alma e mente.

Aprendi (aprendemos!) assim e ali, a gostar da História, de estórias e de achar os lugares onde se passaram, naqueles mapas estirados entre duas ripas de madeira, ao lado do quadro negro que comandava as salas todas!

Nos recreios jogávamos à bola e outras brincadeiras de ajuntar a malta, por ninguém se querer isolar a falar com um amigo só dele!

As ferramentas eram o pião, pinos e duas malhas arranjados à pressa para entreter a maralha toda.

Hoje compreendo como esta totalidade, a das aulas e a do recreio, era e foi a base da relação entre identidade e alteridade, por nos ‘dizer’ da pertença e ajudar a ter consciência do ‘outro’, no aqui e agora da vida de todos os dias.

E compreendo, porque a ‘realidade real’ do enorme poder da imagem do mundo virtual, onde tudo se passa no curto e limitado espaço de um ecrã, também se aplica ao imaginário, ao desejo e à expectativa de se poder estar (ser!) também em qualquer ‘não-lugar’, até e só imaginado!

Imaginado mas, mesmo assim, a ‘mais-valia’ indispensável para garantir a ‘vida’ no mundo virtual das selfies e dos likes!

Como complemento a esta prosa, inclino-me respeitoso e até comovido, perante todo(a) aquele(a), especialmente jovem, que descubra num amigo não virtual, num livro, num texto ou num poema, o complemento direito e seguro para afrontar os problemas levantados pelos desígnios do futuro.

Sem obliquidades, apenas lendo e interpretando! Não é preciso entortar nem inclinar coisa nenhuma!

António M. Oliveira

 Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

2 comments

  1. Amodmiã Ismael.

    Cinco estrelas!

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  2. Manuel Simões

    Completamente solidário. Os auto-designados linguistas, os tais que impuseram o desacordo ortográfico, andam sempre a propor novas terminologias. Há uns tempos, os alunos da “primária” debitavam os sintagmas como se fossem a chave da interpretação textual. Agora inventaram as “obliquidades”! Pelo modo como se exprimem os recém-saídos de licenciaturas, mestrados ou doutoramentos, percebe-se logo a utilidade destas terminologias abstrusas…

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